Releitura de Rurouni Kenshin: Vol. 1 Ato 1

E lá vamos nós para a releitura propriamente dita do 1º volume de Rurouni Kenshin. Essa 1ª edição brasileira dividiu os volumes japoneses em 2, no original foram 28 números enquanto no Brasil tivemos 56.

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Capa da edição brasileira lançada em 2001 pela Editora JBC. Saudade de mangá a R$2,90.

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Uma curiosidade dos primeiros mangás lançados no Brasil era a explicação do lado e sentido certo de se ler. Faz tempo que não acompanho as bancas, então não sei se essa prática ainda persiste.

O volume 1 possui 3 atos, sendo o Ato 1 chamado de “Kenshin – Himura Battousai.” Vou começar sempre com um resumo do que acontece para nos situarmos e depois passo aos comentários. Spoilers à vista.

O Que Acontece

Dez anos depois da Restauração Meiji, Kenshin é abordado em uma rua de Tóquio por Kaoru, que o acusa de ser Battousai, o assassino que está manchando o nome do estilo Kamiya Kasshin. Kenshin a convence de que é apenas um andarilho com uma espada de lâmina invertida, incapaz de matar alguém. Em seguida, o suposto Battousai ataca novamente e Kaoru o enfrenta. Antes que o homem gigantesco, visivelmente mais forte do que ela, a trucide, Kenshin afasta Kaoru, desviando do golpe, e o atacante vai embora. Ciente do que está se passando, Kenshin decide investigar o Battousai.

Kihee Hiruma, um senhor serviçal de Kaoru, afinal se revela parte da conspiração para tomar posse do terreno do seu dojo; a outra parte sendo perpetrada por seu irmão Gohee, que assumiu o nome Battousai e tem matado em nome do estilo Kamiya Kasshin com o intuito de manchar a reputação do dojo – o que funciona, pois Kaoru perde todos os alunos. Kihee pressiona Kaoru para que venda o terreno, mas ela se recusa. Gohee surge no dojo Kamiya, acompanhado de diversos comparsas criminosos. Gohee subjuga Kaoru e Kihee lhe arranca um selo de sangue para o papel da venda do terreno para os irmãos Hiruma.

Quando Kaoru se vê sem esperança, traída pela única pessoa que ainda confiava após a morte de seu pai, seu último parente vivo, Kenshin aparece no dojo e é atacado pelos criminosos. Após derrotá-los, ele revela sua identidade como o verdadeiro Battousai e com um golpe vence Gohee; Kihee se rende e Kenshin rasga o papel da venda. Antes que Kenshin vá embora, Kaoru diz que quer que ele fique, mesmo sabendo quem ele é/foi. O ato termina com Kenshin decidindo ficar um tempo no dojo Kamiya.

Comentários

Confesso que fiquei impressionado com o quão eficiente e bem feito esse primeiro ato da história é. O autor, Nobuhiro Watsuki, orquestra com maestria a tônica da narrativa, transitando entre o humor, o drama e a ação com precisão e naturalidade em um espaço de 50 páginas. (Reparei que o humor às vezes se limita a quadros menores, para não tomar conta da história indevidamente.)

Mas comecemos pelo começo: a primeira página. Importantíssima – contém as primeiras imagens e palavras que devem conquistar a atenção do leitor e dar o ponta-pé inicial satisfatório na história. É um prólogo. Vejamos:

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O primeiro quadrinho é literalmente sangue voando. Na edição original japonesa, as primeiras páginas eram coloridas, daí esses tons de cinza.

O prólogo é conciso e eficiente. Estabelece o cenário, fornece o contexto histórico e um personagem lendário. Além de dizer que ele é poderoso, o autor mostra. É ele – Battousai – quem está fazendo o sangue voar e matando todos ao redor. O próprio título do personagem é forte, “Battousai, o Retalhador” (Hitokiri Battousai, no original).

Temos um ponto de vista em 3ª pessoa cinemática (como diria Orson Scott Card), comum em quadrinhos e cinema, e uma narração típica que costuma nos dizer local e data. É exatamente isso que acontece no último quadrinho.

Por falar nesse último quadrinho, ele traz mais informações e características dignas de nota. Reparem no close no rosto de Battousai. Além da icônica e curiosa cicatriz em “X”, o desenho traz os olhos estreitos e angulosos característicos do Retalhador. Mais sobre isso depois. Um último detalhe sobre os olhos é que estão direcionados para a esquerda, o sentido para onde a narrativa japonesa avança. Mangá é lido da direita para a esquerda e é para a esquerda que a história e os personagens costumam se movimentar. Ao contrário, na cultura ocidental lemos da esquerda para a direita, então os quadrinhos (e o cinema) seguem esse outro sentido.

Vou emendar com a página seguinte para mostrar claramente um contraste.

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Reparem na cabeleira de Kenshin, na profusão de linhas. O traço de Watsuki vai mudando ao longo do mangá, tornando-se mais enxuto, mais limpo.

O contraste dos olhos. Estes são maiores, arredondados, inofensivos. São os olhos de Kenshin – o elemento visual que o identifica em contraposição ao “estado Battousai”, quando ele se rende ao espírito do Retalhador (há o elemento textual também, falo dele mais adiante). Essa simbologia do olhar é usada durante todo o mangá.

Nesse primeiro encontro com Kaoru, Kenshin se justifica se dizendo ser apenas um andarilho. Ele se mostra, no entanto, cheio de contradições: carrega uma espada quando o porte fora proibido 2 anos antes; a espada, por sua vez, como Kaoru constata, não tem marcas de uso, parece nova. Por que alguém que faz tanta questão de portar espada (contra a lei) não a usa? Por que ele é tão desajeitado quando na primeira página é habilidosíssimo? Convenhamos, é difícil não identificar o mesmo personagem; por que os olhos são tão diferentes e por que ele não assume ser Battousai? Muitas dessas respostas aparecem logo, mas essas noções e características conflitantes tornam o personagem interessante, misterioso, e atraem o leitor.

* * *

Curiosidade: das personagens principais, Kaoru é a primeira na história a levantar a espada e enfrentar uma ameaça, demonstrando imensa coragem. E muito estilo (trocadilho não intencional):

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* * *

Certo, mas como a história realmente começa?

Robert McKee chama de “Incidente Incitante” o grande evento inicial que faz uma história engrenar. É algo que perturba drasticamente o equilíbrio da vida do protagonista e, não somente isso, o faz reagir. Aqui, começa no encontro de Kaoru com Kenshin e conclui no ataque do falso Battousai (o Incidente Incitante não está limitado em duração ou número de ações que o compõem; no caso, é um grande evento formado por um punhado de ações que duram algumas páginas (ou poucos minutos, no parâmetro temporal do animê)).

Eis a conclusão desse momento crucial para o início da saga de Kenshin:

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O falso Battousai encurrala Kaoru e Kenshin aparece para salvá-la. O assassino se declara do estilo Kamiya Kasshin e vai embora.
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Depois da “perturbação”, o momento em que Kenshin começa a reagir e a se envolver no problema da história.

* * *

Passado o Incidente Incitante, a história vai avançando. Vamos conhecendo melhor as personagens, afinal temos que nos importar com elas ao caminhar da trama. Na conversa entre Kenshin e Kaoru no dojo Kamiya, eles são aprofundados em valores e motivações.

Um quadro que me chamou a atenção nesse momento foi o de Kenshin olhando as tabuletas exibidas no alto da parede do dojo enquanto eles falavam sobre o Battousai. No quadro, as tabuletas não aparecem, só Kenshin de perfil, olhando para cima e comentando o medo que o povo ainda tem da lenda de Battousai, sentindo o peso do passado e encarando algo maior do que si mesmo. Ei-lo:

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Em seguida, Kenshin tenta dissuadir Kaoru de enfrentar o suposto Battousai por ele ser forte demais para ela. Uma frase que revela bem os valores do protagonista é “A reputação de um estilo não vale o desperdício de uma vida”.

É nesse momento que vamos além de convicções e valores com Kaoru, entendemos suas motivações, passado e presente. De início, a cena se passa no dojo Kamiya, vazio (só ela, Kihee e Kenshin), apenas a tabuleta do nome da professora na parede, pois todos os alunos a abandonaram. Kaoru fala sobre seu pai (única família que menciona ou aparece na história inteira), o criador do estilo Kamiya Kasshin (“A Espada da Vida”), que morreu 6 meses antes numa guerra para a qual foi convocado. Sozinha, aos cuidados de um “estranho”, ela se agarra ao legado do pai, o estilo que tenta defender desesperadamente, como se fosse a honra do pai, da família, a sua própria. É aqui que fica claro que Kaoru é uma personagem com personalidade e motivações, não um instrumento da trama ou simples “interesse romântico” do protagonista.

Então Kenshin diz a Kaoru que o pai dela priorizaria sua vida, não o estilo Kamiya Kasshin. E isso não é pouco: Kenshin é a única pessoa nesse período terrível da vida dela a de fato reconhecer algum valor nela e em sua vida, apesar de mal conhecê-la – um eco dos valores do pai e do próprio estilo. Kaoru fica espantadíssima, talvez só agora considerando a perspectiva de ser o maior legado do pai. Aqui, os dois personagens começam a se conectar de forma mais íntima. Esse momento merece a página também:

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Com licença.

* * *

Saber usar o ponto de vista através do qual se conta uma história é essencial. O autor deve identificar aquele que mais se ajusta às necessidades da narrativa. O ponto de vista padrão de HQs e do cinema é 3ª pessoa cinemática, mas diretores, roteiristas e quadrinistas costumam explorá-lo de maneiras diversas – por exemplo, incorporando elementos de outros pontos de vista, como pensamentos dos personagens, já corriqueiros nos quadrinhos (mais sobre isso em breve).

Em determinado momento, durante uma conversa entre Kenshin e Kaoru na rua, Watsuki usa o viés “onisciente” do narrador cinemático (nas palavras de Ursula K. Le Guin, “Detached Author“, “Camera Eye“, “Fly on the Wall“) e nos mostra algo que escapa à percepção dos dois personagens: a reação atenta de Kihee ao ouvir Kaoru fazer referência a uma pista quanto ao falso Battousai. Isso cria suspeita, tensão, faz o leitor tomar nota mental. Não é nada sutil, mas não há problema, o mistério perdura pouco. Eis o momento:

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* * *

Nesse trecho final do ato 1, vamos repisar e identificar vários elementos em sequência.

Primeiro, mais revelação de convicções e personalidade de Kenshin em sua fala icônica quanto à verdade sobre a espada: “A espada é uma arma. Técnicas de espada são técnicas de morte. Não importa como disfarcem, essa é a verdade.” Isso nos faz pensar no passado de mortes e na vivência violenta. Então ele complementa: “Mas, mais do que uma verdade amarga como essa, este servo prefere a doce mentira [da espada para a vida] da Srta. Kaoru. ^^” (ele faz esses olhinhos mesmo) Mesmo diante de uma realidade de horrores e crueldade, vemos que Kenshin é idealista e esperançoso – sempre foi, e por isso também se envolveu ativamente no Bakumatsu, mas isso é assunto para depois.

Agora, observem essa página:

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A chuva de traços retos direcionados é uma ótima forma de transmitir movimento rápido em uma página, um meio estático. O quimono de Kenshin até parece asas. Reparem também os olhos – o verdadeiro Battousai chegou, sras e srs.

Vejamos agora um artifício costumeiramente empregado por artistas de mangá para mostrar pensamentos de maneira mais direta, íntima e sutil ao leitor sem o uso de balões (os quais são polêmicos entre quadrinistas, ao que parece). As palavras ficam soltas ao lado das personagens, em geral próximo à cabeça. Watsuki usa balões, mas são incomuns. Nessa página, apenas alguns dos inúmeros exemplos:

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Ainda aí em cima, é possível perceber o outro recurso para distinguir o lado Battousai de Kenshin, dessa vez de natureza textual: o uso da 1ª pessoa do singular. Kenshin costuma se referir a si mesmo na 3ª pessoa, usando a expressão “este servo”. Além de ser uma peculiaridade interessante para um personagem, há o uso mais significativo dessa característica. Do ponto de vista de construção de personagem, é brilhante. [Spoiler] Na luta entre Saitou e Kenshin, quando ele fala “Eu vou te matar”, a gente sabe que ele se rendeu por completo à fúria do retalhador, tanto pelo verbo quanto pelo pronome.

Na página seguinte, temos os olhos, comentário sobre estilo de espada (algo que enriquece o aspecto da ação na história e que está sempre sendo abordado), os recorrentes comentários históricos (info-dump que funciona bem, curto e pertinente) e finalmente Kenshin admitindo ser Battousai:

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“Estilo Hiten Mitsurugi” ou “Estilo da Sagrada Espada que Voa no Céu”, diz a nota de rodapé. Você duvida que ele voe? Eu não.

Após derrotar Gohee, o falso Battousai, Kenshin diz que não tem apego pela alcunha lendária, mas que não pode repassá-la para alguém como ele, demonstrando uma relação complicada com o passado e com um lado de si mesmo.

Ao voltar “ao normal”, Kenshin comenta que não queria mentir, mas preferia não contar que era Battousai, e pede licença para ir embora. Kaoru, em outra fala memorável, diz que não quer que o retalhador fique, mas sim o andarilho. Esse é outro momento chave da história: Kaoru reconhece as duas facetas de Kenshin e o aceita como ele é no presente, mesmo com a bagagem, o fardo do passado (olha a metáfora nada metafórica pra relacionamentos aí, gente). Diante disso, da aceitação de Kaoru, Kenshin revela seu nome e decide permanecer com ela no dojo Kamiya, ainda que temporariamente sob a condição de poder voltar a vagar a qualquer momento (afinal, um passo de cada vez).

Assim termina o Ato 1 e observamos um claro arco de personagem aqui para Kenshin, que toma uma decisão que parecia improvável até poucos quadrinhos antes do fim e se abre para se envolver mais na vida de outra pessoa, assim como para recebê-la na sua. Ao fim de cada ato, há um “Making Of“, comentários dos autor acerca da concepção de um personagem junto a um rascunho. O primeiro, claro, é sobre Kenshin:

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O autor conta quem foi o personagem histórico no qual se baseou para o protagonista, um retalhador chamado Gensai Kawakami. Algo que parece óbvio mas é facilmente desprezado por parte daqueles que querem escrever ficção histórica é a pesquisa. Ela deve ser profunda e vasta. Um detalhe que me chamou a atenção nos comentários de Watsuki foi que, num primeiro momento, Gensai Kawakami foi dito não ter conseguido abandonar a xenofobia e ter entrado em conflito com o governo, porém: “ao pesquisar mais, eu achei que o que ele não conseguiu abandonar não foi a xenofobia, mas sim a fidelidade que tinha pelos que morreram por ele e pelos que matou. E assim foi surgindo o personagem de Kenshin.” Esse aspecto de fidelidade e respeito pelos que morreram por ele e pelos que matou será trazido à tona mais adiante na história e toca em uma das maiores qualidades da obra… mas isso é assunto para depois.

A análise dos 3 atos do volume 1 está sendo mais minuciosa; esse teve atenção especial por trazer diversos fundamentos da história e por ser bem redondo. A partir do volume 2 pretendo fazer semanalmente um post para cada número, com uma visão menos “micro” e mais “macro”.

Em breve (poucos dias), posto sobre o Ato 2. Até lá!

Van

P.S.:

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Autor: Van Derance

Um dia me chamaram de Robert Plant da Terra-média. Tenho vivido para fazer valer o título. ~~~~~ One day someone called me Robert Plant of Middle-Earth. I've been living to earn the title.

6 comentários em “Releitura de Rurouni Kenshin: Vol. 1 Ato 1”

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