Ursula K. Le Guin

O que eu poderia escrever que já não foi escrito sobre Ursula Kroeber Le Guin?

Premiada, estudada e celebrada até pelos mais ferrenhos defensores do cânone literário (falaê, Harold Bloom), Le Guin deixa um incontestável e lendário legado de quase nove décadas bem vividas. Palavras, sabedorias, experiências, e uma presença palpável: quem a encontrou pessoalmente costuma mencionar sua presença impetuosa.

Dá pra sentir isso através de suas palavras escritas: a voz ali presente: desafiando, encantando, estimulando, sorrindo como quem apronta.

Ursula me fez um leitor melhor. Sempre fui ciente dos sons das palavras; elas ecoam com nitidez quando leio, mesmo em silêncio; mas foi Le Guin que me fez parar e realmente prestar atenção naquilo que eu ouvia e entender por completo o que acontecia, o que causava as sensações e o como. Poderia citar dezenas de exemplos, mas o ensaio dela sobre um capítulo de O Senhor dos Anéis (Rhythmic Pattern in The Lord of the Rings, que li na coletânea The Wave in the Mind) foi algo monumental que mudou a forma como eu reli o livro.

Ursula me fez um escritor melhor. Não só por ter lido seu livro e seus ensaios sobre escrita e, assim, compreendido melhor as ferramentas e diversos aspectos do ofício, mas também por ter encontrado nos pensamentos e convicções dela a validação e o apoio para meus próprios pensamentos e convicções, tão semelhantes–e, por vezes, distintos do convencional. Além, claro, de ampliar meus horizontes sobre o que é possível fazer com a ficção e com a não-ficção.

Ursula me fez uma pessoa melhor. Seus escritos ressoaram profundamente nos meus valores e paradigma de mundo: fosse consolidando as ideias nem tão bem amarradas de um espírito ainda na casa dos vinte anos, fosse demonstrando sensatez, sinceridade, humildade em reconhecer erros e a determinação de aprender e melhorar a partir deles. Essa lucidez e transparência com o trato das palavras, da verdade, da realidade; as reflexões sobre como elas (palavras, verdade, realidade) interagem; tudo me serviu, me serve e sempre servirá de exemplo, de inspiração em um nível fundamental e pessoal.

Foi ela que, em um momento de desolação generalizada após a última eleição presidencial dos Estados Unidos, trouxe a luz da sabedoria milenar de Lao Tzu, uma luz pequena mas firme, e a lembrança do poder de ser como a água, em um post de blog. Poucas vezes me senti tão sortudo, incrivelmente abençoado, de viver nesse mundo ao mesmo tempo em que ela.

Enquanto escrevo isso, posso ver pela janela o sol raiando sobre o Atlântico. É o amanhecer de um mundo sem Le Guin. E quando pensei isso, percebi que é mentira: ela moldou parte do mundo como ele é; e inspirou e ainda inspira milhares de pessoas, várias gerações; seus ecos continuarão a reverberar por muito e muito tempo.

Ursula K. Le Guin perdura.

Minha vontade, agora, ainda abatido com a partida dela, é de agarrar sua obra inteira da maneira como Genly Ai segura Estraven nos braços ao fim de A Mão Esquerda da Escuridão (The Left Hand of Darkness); é de cantar suas palavras como a multidão cantou nas ruas com Shevek o Hino da Insurreição em Os Despossuídos (The Dispossessed); é de compartilhar o aprendizado de reconhecer e encarar a própria Sombra como Ged o fez em O Feiticeiro de Terramar (A Wizard of Earthsea), e compreender que isso é uma empreitada para uma vida inteira, que os desafios se renovam com os tempos (The Farthest Shore).

(O Feiticeiro de Terramar, diga-se de passagem, foi o primeiro livro de fantasia a popularizar a história de um menino órfão que vai para uma escola de magia.)

Retomo minha pesquisa do mestrado, que tem como romance objeto A Mão Esquerda da Escuridão, com afinco redobrado. Retomo o romance de fantasia que estou escrevendo sobre uma mulher de 60 anos com determinação triplicada. Por Le Guin, por mim, por todos nós, tenho que fazer o meu melhor.

Por último, compartilho aquela que talvez seja sua última entrevista, em que ela conversa sobre fatos e ficção, fama e reconhecimento, e, sobretudo, compartilho porque ela lê (aos 35:51) aquele que talvez seja seu último poema, chamado Looking Back (“Olhando para trás”, em tradução livre). Esse poema, na voz da própria Ursula, recitado na noite da notícia de seu falecimento, me demoliu. O que me restava de lágrima me deixou nesse momento.

Entretanto, pelo seu final, o poema, depois de me demolir, também me acalentou um pouco.

Foi uma experiência conturbada, convoluta, agridoce e especial ouvir sua voz, seu riso, e essas suas últimas palavras, as quais eu gostaria tanto de ter podido lhe dizer em vida:

“Thank you. Goodbye.”

Ursula K. Le Guin

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Releitura Rurouni Kenshin: Vols. 13 e 14 (Saitou e Ookubo)

Começa a saga de Shishio. E que começo. Esse é o arco mais famoso de Samurai X, o ponto alto do mangá e do anime. Sem mais delongas, vamos ao resumo e aos comentários cheios de spoilers.

O que acontece

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Enquanto Kenshin tem sonhos sobre o fim do Xogunato, Hajime Saitou, ex-integrante do Shinsengumi e arqui-inimigo de Battousai, faz uma visita ao dojo Kamiya. Não encontrando Himura, Saitou ataca Sanosuke e o faz desmaiar. Quando Kenshin e cia. voltam para o dojo, ajudam Megumi a tratar Sano e o andarilho identifica os sinais deixados pelo visitante como sendo do antigo adversário.

Algum tempo depois, Kenshin recebe um convite assinado por Saitou e vai ao seu encontro. Porém, ao chegar ao local, é atacado por um assassino de aluguel, que durante a luta revela que trabalha para um político influente matando pessoas estratégicas para o governo, assim como Jin-E fazia e agora Saitou o faz. Himura o derrota e retorna ao dojo para encontrar Saitou (que disse ser da polícia para Kaoru) à sua espera.

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Os dois discutem e protagonizam um duelo brutal. O Battousai aflora novamente em Kenshin e a luta só para quando Toshimichi Ookubo, ex-monarquista e Ministro do Interior (cargo político mais poderoso do país), interfere. Saitou, na verdade, estava numa missão para o governo de testar a força de Kenshin. Ookubo explica o que está acontecendo: o governo não é capaz de lidar com a ameaça de Shishio, ex-retalhador dos monarquistas, que formou um exército e planeja tomar o poder do Japão; portanto, vieram pedir para Kenshin, espadachim lendário que é, o elimine e salve a nação.

Eles acordam que Kenshin dará a resposta uma semana depois, mas na fatídica data Ookubo é assassinado a mando de Shishio. Diante disso, Kenshin decide ir a Kyoto confrontá-lo. Ele volta ao dojo e se despede de Kaoru, agradecendo por tudo e dizendo que agora voltará a vagar como andarilho. Por sua vez, Saitou mata o político corrupto que comandava os assassinatos para o governo, demonstrando que ainda vive pelos princípios e justiça de dez anos atrás.

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Comentários

A primeira coisa que me chamou a atenção logo nas primeiras páginas do volume 13, tanto das outras vezes que li quanto agora, é o respeito que Kenshin, monarquista, dispensa aos defensores do Xogunato, em especial ao Shinsengumi.

O Shinsengumi foi um grupo de espadachins de elite que serviu ao Xogunato com a missão de manter a ordem pública de Kyoto, defender a cidade na época em que os monarquistas a transformaram em um inferno de mortes e de violência.

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Kenshin tem o Shinsengumi em alta estima, não apenas por serem espadachins excepcionais, mas porque realmente lutavam pelos seus ideais, por aquilo que achavam certo e melhor para o país. Ele chega a afirmar que: “Talvez este servo seja mais próximo a eles do que aos ex-companheiros monarquistas que estão no governo agora…”

Ele destaca a força dos capitães das 1ª, 2ª e 3ª divisões do Shinsengumi, cumprindo a função desse começo, que é a construção do suspense e da ideia de quão fortes os membros do Shinsengumi eram. Isso é essencial para o impacto da aparição de Saitou.

Outras maneiras pelas quais o autor demonstra o nível de Saitou é pelo embate com Sanosuke na primeira visita ao dojo, em que ele leva um soco de Sano e mal sente (além fazê-lo voar e atravessar uma parede com um golpe e desmaiá-lo em seguida), e pela comparação nada sutil quando Kenshin ataca a parede para equiparar os efeitos:

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O autor deu uma forçada de barra aqui. Pelo que vimos de Kenshin até o momento, um battoujutsu desse devia ao menos atravessar a parede.

* * *

Hajime Saitou é um dos personagens mais icônicos de Samurai X, seja pela sua personalidade, seja pela sua postura de combate usando a técnica Gatotsu. Ele é um policial federal que trabalha como espião para o governo (tendo inclusive mudado de nome para Gorou Fujita) e sua missão, quando surge na história, é aferir a força de Battousai Himura. Saitou vem espionando Kenshin há algum tempo sem que ele soubesse, fazendo referência às lutas contra Jin-E, Kanryuu e Raijuuta ao afirmar que o ex-retalhador se tornou fraco.

Saitou é um anti-herói. Apesar de trabalhar para o governo, segue seu próprio senso de justiça – e mata sem remorso em nome dele. É o conceito de justiça que ele carrega desde a época do Xogunato: Aku Soku Zan – o Mal Imediatamente Eliminado.

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Testar a força de Himura é uma desculpa convincente para fazê-los lutar, considerando que se passaram dez anos desde que Kenshin sumiu do radar dos monarquistas. E é por isso que protagonizam um dos melhores duelos de todo o mangá (e do anime).

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Todo o prenúncio da força do Shinsengumi e de Saitou se concretiza nessa batalha e parece completamente plausível. Sem a construção feita pelo autor, não seria crível ver esse cara aparecer e detonar Kenshin.

O andarilho apanha com gosto. O primeiro golpe de Saitou acerta Kenshin na lateral do torso e é um tanto profundo, apesar de não atingir orgão vital. Isso só aconteceu porque Saitou, como ele mesmo afirma depois, estava segurando sua força. Se quisesse, aposto que teria matado Kenshin.

A luta é brutal e, aos poucos, eles regressam à época do Bakumatsu – e Kenshin cede ao Battousai. É quando sua verdadeira força aparece e ele também teria matado Saitou com esse golpe se não fosse pela sua espada com lâmina invertida:

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Até mesmo Saitou abandona sua missão e decide lutar para matar, tão intensos são os sentimentos do passado entre os dois. A transformação de Kenshin em Battousai se completa quando ele fala na primeira pessoa.

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E agora não resisti e vou acrescentar essas imagens porque essa sequência do duelo é boa demais para passar batida:

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Com os dois mergulhados nos tempos de outrora, somente alguém da época poderia demovê-los, e é assim que param: quando o ministro Toshimichi Ookubo e seu comandado interrompem a luta.

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* * *

Ao fim do volume 14, chegamos ao que expliquei lá no volume 1 como sendo o Incidente Incitante: o evento que faz o protagonista reagir.

Ookubo, que é basicamente quem governa o Japão no momento, pede a Kenshin que enfrente Makoto Shishio, um ex-retalhador que também lutou pelos monarquistas (e, portanto, sabe diversos podres e informações sensíveis acerca do membros do governo atual). Nesse momento é contada a origem de Shishio; os monarquistas já tentaram se livrar dele antes, mas, mesmo com o corpo queimado, ele sobreviveu. Nem as tropas federais foram capazes de subjugá-lo, então estão apelando a Battousai, o lendário espadachim do Bakumatsu.

Há uma página em que Ookubo enuncia o pedido a Kenshin e na qual vemos pela primeira vez uma imagem de Shishio e seus subordinados:

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O Incidente Incitante propriamente dito, na verdade, é o assassinato do ministro Ookubo.

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Um dos homens de Shishio (Suijirou Seta), após o crime, avisa a Kenshin para ficar longe se não quiser morrer. Depois de conversar com Saitou (que diz que agora o país está perdido com a perda de Ookubo) e refletir bastante, Kenshin decide ir para Kyoto.

Uma curiosidade é que, mesmo antes da conversa pós-assassinato de Ookubo, Kenshin sopesa sua decisão com base no julgamento que Saitou já fez sobre o ministro (para estar trabalhando para ele). Ele acredita na bússola moral do ex-integrante do Shinsengumi quanto a políticos corruptos e mesquinhos:

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Kenshin volta brevemente ao dojo e se despede de Kaoru num dos momentos mais emocionantes do mangá.

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Há um momento no início do volume 13, depois que Kenshin sonha com o Shinsengumi, em que ele compartilha um pouco das memórias da época e o que pensa sobre os antigos inimigos com Kaoru e Yahiko. Kaoru comenta o quão raro é ele falar sobre essas coisas e Kenshin se espanta por ter sido – agora – tão natural se abrir acerca do passado. Isso demonstra a proximidade, a intimidade criada entre eles.

Depois de tudo o que passaram, ver essa cena (ouvindo Departure, a trilha do anime para esse momento) é emocionante.

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* * *

Esse foi apenas o início da saga de Shishio e as peças começam a se mover no tabuleiro da grande batalha. Fiquem à vontade para comentar impressões sobre Saitou ou sobre a luta com Kenshin.

Até breve!

Van

P.S.:

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Releitura Rurouni Kenshin: Vols. 9 a 12 (Raijuuta, Tsubame e Tsukioka)

Depois de um hiato mais longo de que gostaria, voltei com a releitura. Esses volumes contém as histórias extras que antecedem a Saga de Shishio: uma delas foca em Yahiko e outra, em Sanosuke. Como sempre, vou fazer um resumo e depois comento. Spoilers!

O que acontece

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Os sumiços de Yahiko do Dojo Kamiya fazem Kenshin, Kaoru e Sanosuke descobrirem que o menino está trabalhando no Akabeko, o restaurante favorito deles. Lá, Yahiko faz amizade com uma menina, Tsubame, a quem ajuda como e quando pode. Quando descobre que ela está sendo coagida a auxiliar criminosos, vai encará-los e leva uma surra feia. Como quem não quer nada, Yahiko pede orientação a Kenshin sobre enfrentar muitos adversários de uma vez e o espadachim, ciente da situação, lhe ensina uma forma. O menino termina encarando os criminosos outra vez e, dessa vez, aplicando os ensinamentos de Kenshin, vence o líder e ajuda Tsubame a se livrar dele.

Na história seguinte, um espadachim arrogante e forte chamado Raijuuta Isurugi cruza o caminho de Kenshin e cia. e, após tentar dissuadi-lo a se unir a um movimento de revitalização do kenjutsu no país, Raijuuta combate Kenshin. No meio da luta, fere o próprio discípulo, Yutarou, seu grande admirador e um aprendiz de espadachim promissor, e Kenshin se enfurece e o derrota, física e psicologicamente.

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A última história retrata o reencontro de Sanosuke com um ex-amigo do Sekihoutai, a tropa da qual fizera parte durante a Revolução Meiji. Katsuhiro Tsukioka agora vive com um artista recluso, tendo passado os últimos anos remoendo a tragédia do fim do Sekihoutai e planejando sua vingança contra o atual governo. Tsukioka convence Sano a reviver os velhos tempos e atacar o governo com um arsenal de explosivos. Porém Kenshin os descobre e impede o ataque desvairado, trazendo Sano de volta à razão. Tsukioka, depois de uma conversa séria com Sano, decide editar um jornal para denunciar os atos sujos do governo Meiji.

Ao fim do volume 12, há uma antiga história do autor publicada como uma curiosidade. Como não faz parte das sagas de Kenshin, não vou comentar.

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Comentários

As histórias extras de Yahiko e de Sano servem para ilustrar o amadurecimento dos dois, cada um da sua forma e ambas reflexo da presença de Kenshin em suas vidas.

Com a trama de Yahiko, o autor demonstra as motivações do menino. É divertido ver como os demais personagens reagem quando tentam adivinhar para que Yahiko agora quer dinheiro.

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Com a Revolução Meiji, a divisão de classes se tornou um tanto nebulosa (pelo menos abaixo do topo da pirâmide social), mas não foi da noite para o dia que certos costumes, valores e ideias tradicionais foram deixados de lado. E é para ilustrar isso, em parte, que o autor introduz uma nova personagem: Tsubame.

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A família da menina servia a uma família de samurais. A Era Meiji trouxe a derrocada social dos prestigiados guerreiros, mas ainda havia aqueles que os respeitavam ou os tratavam como se ainda detivessem o mesmo status – ou lhes devessem a mesma devoção.

O antagonista dessa história é da família de ex-samurais à qual Tsubame servia; ele coage a menina a espionar o restaurante e suas finanças se valendo da propensão dela a lhe servir. Tsubame descobre que o dinheiro do Akabeko fica guardado na casa do dono e faz cópia das chaves. Apesar de relutante, porque entende que furtar é um crime e tal ato mancharia o nome da família de ex-samurais, Tsubame se submete às grosserias e ameaças e entrega as chaves.

Yahiko presencia tudo isso e se revolta: “Já faz dez anos que a gente está na Era Meiji e você ainda está nessa de servir ao seu senhor?”

Claro que isso atiça o senso de justiça do menino e ele vai brigar com os criminosos. Leva uma baita surra da primeira vez, mas na segunda dá conta do recado ao aplicar os ensinamentos de Kenshin sobre lutar contra vários oponentes ao mesmo tempo.

O andarilho, de olho em tudo o tempo todo, dá uma mãozinha ao menino também (sem ele pedir) ao espantar parte dos criminosos:

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Kenshin, ainda, conversa com Yahiko sobre o peso de suas ações e suas consequências. Lidar com as consequências dos próprios atos e escolhas é das grandes partes do amadurecimento e Kenshin joga a real:

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Kaoru é quem faz Tsubame enxergar melhor a situação e a incentiva a não se submeter demais e a ter um espírito mais forte: “Da próxima vez que vierem com propostas desse tipo, você vai recusar na hora, sem se prender a costumes e tradições já ultrapassadas. Mesmo que a era tenha mudado para uma época de igualdade, não vai adiantar nada se as pessoas não mudarem.”

No fim, Yahiko revela que está trabalhando de modo a juntar dinheiro para comprar uma sakabatou (espada com lâmina invertida, como a de Kenshin), fazendo o andarilho, talvez pela primeira vez, perceber sua real influência no menino.

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* * *

Na segunda e maior história, Kaoru (com Kenshin e Yahiko) vai dar aula no dojo do Sensei Maekawa. Lá, uma visita inesperada surpreende a todos: Raijuuta Isurugi. Ele desafia o sensei a um duelo e é aceito. Apesar de seu desprezo pelo shinai (espada de bambu), Raijuuta pega um emprestado do dojo, pois foi a arma escolhida pelo sensei, e parte para o duelo.

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Logo fica clara a superioridade de Raijuuta – e sua violência desmedida. Antes que ele desfira um golpe mortal no sensei Maekawa, Kenshin intervém. Em defesa do dojo, Kaoru se predispõe a duelar, mas Kenshin toma a frente, reconhecendo o poderio do desafiante. Quando ele desvia da técnica especial de Raijuuta, um golpe que corta o ar e usa o vácuo da espada para atacar, o desafiante, mesmo tendo partido o shinai de Kenshin, vai embora.

No Dojo Kamiya, Kenshin recebe um convite de Raijuuta, que vive na mansão da família de Yutarou, seu discípulo (que arenga com Yahiko a cada oportunidade). É lá que Raijuuta e Kenshin debatem sobre os rumos atuais do kenjutsu.

Raijuuta lidera um movimento que pretende abolir o uso do shinai e estabelecer o seu estilo Shinko como o único reconhecido (um tanto ditatorial, não?) e, afinal, iniciar a “revitalização do kenjutsu”. Nas palavras dele: “Para que o kenjutsu seja forte como nos tempos antigos, onde os espadachins eram temidos como magos e chamados de mestres do vento!”

Ou seja, Make Kenjutsu Great Again. E ele convida Kenshin a unir-se ao movimento.

Kenshin aponta que os estilos antigos de kenjutsu são focados em técnicas de assassinato. Raijuuta diz estar ciente disso e Kenshin invoca seu voto de não matar e recusa, acrescentando que não irá se opor a uma revitalização do kenjutsu, contanto que ele não queira extinguir os novos estilos que pregam a espada para a vida. Raijuuta solta o velho “Ou se une a mim, ou morre” e, eventualmente, os dois duelam a sério.

É nesse duelo que Raijuuta fere acidentalmente Yutarou:

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Yutarou é um aprendiz de espadachim promissor, tendo até feito aulas com Kaoru no meio da história, mas é completamente desprezado por Raijuuta, que só o mantém perto porque a família do menino o financia. Como se não bastasse, o candidato a ditador não demonstra um pingo de remorso por impedir Yutarou de empunhar uma espada com o braço direito pelo resto da vida. Kenshin se enfurece. Mesmo com um braço ferido e sem conseguir se aproximar de Raijuuta por conta da técnica dele, o andarilho sempre tem uma carta na manga (e dá-lhe Hiten Mitsurugi!):

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Então Raijuuta tem um fim bem aquém do que merecia (o próprio autor vai reconhecer isso numa nota). Ele ameaça matar Yahiko, mas não chega a machucá-lo, apesar de provocado pelo próprio menino e por Sanosuke. Raijuuta não tem coragem de tirar a vida do menino porque, na verdade, nunca matou. Ele prega um estilo que ceifa vidas, se faz parecer O Matador, mas não consegue matar. Kenshin dá uma lição de moral que basicamente destrói a moral e a confiança de Raijuuta, ajoelhado e desesperado.

A conclusão dessa história vem com a despedida de Yutarou, que vai embora do Japão com a família. Yahiko, de certa forma afeiçoado ao menino, reage ao vê-lo abatido:

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Isso desperta o espírito de Yutarou e ele promete treinar com o braço esquerdo e jamais abandonar o kenjutsu. E assim a história sobre o futuro das técnicas de espada termina numa nota esperançosa.

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Tenho pouco a falar sobre a história de Sano. Ele encontra à venda uma ilustração de Capitão Sagara, o líder do Sekihoutai, e vai atrás do artista: um amigo da época da tropa.

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No reencontro, Tsukioka relata como passou os dez anos desde a Revolução Meiji alimentando o rancor contra os monarquistas que traíram o Sekihoutai. A amizade profunda, a injustiça cometida com a tropa e com o homem que mais admirava são sentimentos fortes demais para Sanosuke ignorar, e ele termina sendo convencido a se vingar do governo Meiji perpetrando um ataque com os explosivos feitos por Tsukioka.

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Kenshin descobre tudo e vai impedi-los. Sano, por fim, compreende o que Kenshin realmente defende: a nova era, a paz e as mudanças positivas já conquistadas. Uma ofensiva tão pontual e tresloucada, Sanosuke percebe, é ineficaz e não reflete o que ele realmente deseja.

Suas crenças e motivações ficam claras para Tsukioka quando os dois conversam:

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Essas palavras iluminam Tsukioka e Sano depois fica sabendo que ele deixou de ser artista para editar um jornal que denuncia os podres do governo Meiji. Redirecionando suas energias para uma atividade que mais se aproxima ao verdadeiro objetivo do Sekihoutai, melhorar a vida das pessoas numa nova era de igualdade, Tsukioka se reconcilia consigo mesmo como Sanosuke já fizera (em decorrência do encontro com Kenshin).

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O próximo volume dá início à saga de Shishio, o melhor e mais famoso arco das histórias de Kenshin, e há um lobo à espreita…

Agora vai!

Van

Knights of Cydonia: A jornada épica de faroeste espacial do MUSE

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“40 anos de história do rock em 6 minutos” foi como Chris Wolstenholme, baixista do MUSE, descreveu Knights of Cydonia, a melhor canção já feita pela banda.

A última afirmação é polêmica e complicada; MUSE é uma das minhas bandas favoritas e é difícil escolher a melhor música ou apontar favorita dentre um repertório extenso, rico e variado. Mas, com certeza, ela está no topo da lista (muito bem acompanhada por Citizen Erased, New Born, Stockholm Syndrome, Butterflies and Hurricanes…) e nesse post vou dizer por quê.

Na verdade, vou comentar e analisar a música (evitando mergulhar demais em técnicas e teorias) naquilo que entendo ser os maiores méritos, porém o fato de ela ser minha favorita escapa ao reino do explicável. Como em qualquer arte, o irracional embaça motivos e propósitos – apenas é: está lá como o yin para o yang nas paixões humanas. Agora, ao que interessa.

Ópera em 2 atos

Knights of Cydonia é dividida em duas partes de 3 minutos e uma é bem diferente da outra (o que, no entanto, realça sua complementação e o impacto geral; mais sobre isso adiante). É estruturada de maneira peculiar até para os padrões do MUSE: além das metades um tanto distintas, não possui refrão e muda de tom um punhado de vezes.

É uma canção com certa pompa, praticamente a Bohemian Rhapsody da banda – para a qual Queen é das maiores influências -, e transparece uma paisagem sonora exuberante desde os primeiros segundos: cavalos, pistolas laser, uma ambientação que mescla faroeste e ficção científica, permeada por um espírito aventureiro como em uma viagem intergaláctica.

Ouvir Knights of Cydonia é ser arrebatado para outra época e lugar, como ao assistir a um filme ou ler um livro. Como eles fizeram isso?

Venham cavalgar comigo. Vou lhes mostrar uma banda que não dorme em serviço.

Ato 1

A construção de clímax, o elevar da antecipação, é uma das grandes forças motoras de Knights of Cydonia; em menor grau no começo e com poderio total na segunda parte. As primeiras notas da música, os acordes crescentes, são o prenúncio do que virá. É quando a jornada se inicia.

A primeira metade (Ato 1) é a mais “sofisticada” em termos melódicos. A frase ditada pela guitarra é longa, perpassa 17 acordes (alguns repetidos; fácil de notar acompanhando o baixo) durante 20 compassos. Então a melodia se repete.

Mas… será mesmo? Algo curiosíssimo acontece nessa parte da música: a sequência de acordes que embasa a melodia principal da guitarra muda. Duas vezes. Assim como as notas da melodia principal. Porém a estrutura dos intervalos entre as notas permanece a mesma. Como assim?

Quando a bateria e o baixo (e o sintetizador) iniciam a cavalgada, a nota de partida é Mi menor (Em). O acorde seguinte dá um salto de um tom e meio para Sol (G) e depois de dois tons e meio para Dó (C) e daí por diante. Nessa primeira vez em que é tocada, a sequência conclui em Sol sustenido (G#) e não volta para o Mi menor (Em): ela parte de novo, agora do próprio G#. Então dá o primeiro salto de um tom e meio (B), depois o de dois tons e meio (Em) e, assim, a forma da progressão é mantida, porém o tom que rege a canção muda. E isso acontece outra vez, porque essa segunda sequência termina em Dó menor (Cm) e daí mesmo reinicia o percusso pelos mesmos intervalos, mas agora a linha de chegada é o Mi menor (Em), onde tudo começou – lá e de volta outra vez.

E daí? E daí que essa mudança de tom se apresenta como uma mudança de cenário no panorama da música: é o passeio pelas cidades de Westeros em Game of Thrones ou pelos planetas da galáxia em Star Wars. A banda nos pega pela mão e não nos deixa parar: se o acorde em que aterrissamos é o G#, é daqui que vamos embora e, se pararmos noutro diferente (Cm), de lá seguiremos adiante. Como em um grande ciclo, onde o herói sai de sua morada humilde (Em), para ela ele retorna ao fim de sua busca.

Para visualizar melhor, a estrutura das progressões de acordes do ato 1 é: A, B, B’, B”, A (sendo A os 5 acordes que acompanham os “Ah! Ah! Aaah!” do início da canção, que se repetem após os versos ao fim dessa parte). Há um paralelismo formal aqui – e paralelismo é algo onipresente em Knights of Cydonia.

Exploro esse tema mais adiante, contudo é crucial apontar agora que nesse paralelismo da progressão dos acordes está a repetição, o padrão que a mente humana tanto adora e tende a perceber: o elemento familiar que permite à banda passear por tonalidades diferentes no rastro de uma melodia longa e ainda nos transmitir a sensação de que estamos situados, de que reconhecemos, de certa forma, o caminho; dá, enfim, a consistência às ideias e a suavidade ao fluir entre elas.

A letra do ato 1 traz conceitos mais abstratos, com temas complexos (História, Deus, Tempo) que casam bem com a maior elaboração melódica que a enquadra.

No instrumental, o sintetizador confere o sabor de modernidade à cavalgada junto ao baixo palhetado (recurso esporádico no som de Chris) e à bateria inspirada na de I Want To Break Free do Queen (acelerada e adaptada). A guitarra solo soa como se tivesse vindo das décadas de 1950~1960, pois a banda, na época, estava ouvindo muito surf music; e a melodia em si remonta aos filmes de faroeste e às trilhas de Enio Morricone: o guitarrista e principal compositor Matt Bellamy a compôs no ônibus enquanto eles viajavam pelas estradas do Arizona nos Estados Unidos. O trompete é a cereja no bolo e carimba a atmosfera certa.

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Nem dou muita bola pra clipe, mas esse é sensacional. Destaque para o chapéu e bigode de Chris (e seu Rickenbacker, meu sonho de consumo de baixo) e para a Chrome Bomber reluzente de Matt.

Ato 2

Aqui o MUSE começa a erigir o clímax que explode em um dos riffs mais memoráveis criados por Matt. Ele – o clímax – é demorado, paulatino, mas o fim bombástico faz valer o longo suspense iniciado com o sintetizador ao qual se somam a bateria, o baixo e a guitarra. O destaque no começo fica por conta das vozes, cantando os versos em uma harmonia forte com os backing vocals. Nesse ato, a letra tem um caráter mais imediato, próximo, pé no chão, menos abstrato; ela reflete o novo tema, mais direto e assertivo, desafiante e combativo.

Com isso já podemos observar o paralelismo entre os atos: o primeiro mais elaborado e fluido; o segundo, simples, firme e direto – a melodia do ato 1 dura 20 compassos, o riff do ato 2 dura apenas 8 (o que o faz mais demorado do que parte considerável dos riffs do rock, que não passam de 4, às vezes 2 compassos, mas, ao mesmo tempo, isso impede que destoe demais no contexto geral).

É um paralelismo em antítese, em oposição, e isso é algo presente em diversas artes, como a Literatura. Um exemplo clássico de antítese na Literatura é o início de A Tale of Two Cities, de Charles Dickens:

“It was the best of times, it was the worst of times, it was the age of wisdom, it was the age of foolishness, it was the epoch of belief, it was the epoch of incredulity, it was the season of Light, it was the season of Darkness, it was the spring of hope, it was the winter of despair, we had everything before us, we had nothing before us, we were all going direct to Heaven, we were all going direct the other way (…).”

O contraste da antítese é essencial à obra como um todo, ao livro e à canção do MUSE.

O paralelismo está enraizado nas expressões humanas desde as narrativas da tradição oral, passadas de geração a geração, transpostas para os poemas épicos e histórias populares (o padrão de agrupamentos de eventos em repetições de 3, como em Os 3 Porquinhos, por exemplo), além dos provérbios (“Tal pai, tal filho.”). Como diria Ursula Le Guin, cada repetição “constrói a fundação do evento climático e avança a história”.

Até mesmo em O Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien, em especial em A Sociedade do Anel, a trama da segunda metade reflete a da primeira (sem falar de diversos outros elementos; o paralelismo nessa trilogia é material para uma tese acadêmica).

Voltando à Música, paralelismos podem ser encontrados tanto no instrumental como na letra. Em uma de suas canções mais famosas, Gita, Raul Seixas canta: “Eu sou a luz das estrelas / Eu sou a cor do luar / Eu sou as coisas da vida / Eu sou o medo de amar”. Essa repetição no início dos versos se chama anáfora; ela facilita a memorização e reforça as ideias em sucessão.

É exatamente isso que acontece nos últimos versos de Knights of Cydonia: “You and I must fight for our rights / You and I must fight to survive”. A mensagem em si já é poderosa, a anáfora é o impulso que a lança mais além, que a faz apoderar-se fácil de quem a escuta e, em meio ao instrumental trovejante, alimenta a apoteose do ato final.

Em conclusão, não são os paralelismos abundantes ou melodias e harmonias elaboradas ou riffs poderosos que tornam Knights of Cydonia a melhor canção do MUSE. É algo também, como dizem, maior do que a soma das partes. Essa música é sempre um ponto alto nos shows e é tocada até hoje desde que foi lançada há 10 anos – e não sem motivo.

Knights of Cydonia é sofisticada e despojada, ousada e não se leva a sério; traz um universo inteiro em seus sons mais sutis e uma libertação catártica na sua locomotiva musical.

Talvez agora a descrição de Chris, “40 anos de história do rock em 6 minutos”, pareça menos absurda.

Van

Harry Potter and the Cursed Child (sem spoilers)

 

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“(…) Tudo estava bem.”

Quer dizer, não por muito tempo. Mas a ideia é não dar spoilers, então vamos lá.

TL;DR: Gostei muito, me emocionei e a leitura vale a pena. Deve valer mais ainda ver a peça. Tenho ressalvas, entendo que há motivos para não gostarem, mas também sei que há outros maiores para que se agradem.

Quero tirar logo do caminho os meus poréns com essa história: a maioria dos meus incômodos dizem respeito à trama e a minoria, ao trato de um personagem ou outro. Ainda assim, graças a Dumbledore, não atrapalharam significativamente minha experiência; os méritos os sobrepujaram e me senti levando balaços de amor em diversos momentos, pois, sras e srs, os personagens são o ponto forte da história, principalmente os novos.

Claro que é ótimo reencontrar aqueles com os quais crescemos juntos, nossos heróis e amigos de infância e de adolescência, mas, tal como aconteceu em Star Wars: The Force Awakens, onde temos os personagens antigos/clássicos marcando presença, são os novos que roubam os holofotes – e com propriedade.

Mas o que é esse livro? O que esperar e o que não esperar? Pretendo cumprir o que prometi e não dar spoilers (se você tem um conceito muito amplo de spoiler, nem devia estar lendo isso, né verdade?).

Tão dizendo que é a oitava história. Bem… é. No sentido de ser o oitavo livro com Harry Potter. Então é um novo livro da série que teria terminado no sétimo? Não. Nope. Nein. Me parece evidente que essa história é distinta da série (que, sim, terminou com Relíquias da Morte) em vários aspectos, apesar de compartilhar elementos. É fortemente ligada à série, mas senta numa mesa diferente no grande salão do universo HP.

Falei que é um livro, mas não é um romance (uso aqui a conotação de formato, não de gênero, de romantismo), é um roteiro pura e simplesmente – e agora chego num ponto sensível. Essa diferença é crucial e tem muitas implicações. Em um romance é possível transmitir uma avalanche de informações sobre personagens, trama e cenário através da narração, o que possibilita uma história mais complexa, com várias camadas, enfoques minuciosos sobre isso ou aquilo (um dos grandes méritos de Rowling é o detalhamento do mundo de HP, tornando-o quase palpável em nossa imaginação e acionando a nossa suspensão da descrença), enquanto em uma peça boa parte das informações costumam ser passadas pelas falas dos personagens.

E isso significa que os diálogos costumam ser menos “sutis”, por assim dizer, em relação aos de um romance, por exemplo. Pra quem conhece uma das máximas (um tanto problemática) de escrita criativa “show, don’t tell“, há muito tell e é normal – ao contrário de romances, onde muito telling, principalmente nas falas, pode dar a impressão de escrita inexperiente (ou um sinal de fanfiction, como dizem alguns).

Os direcionamentos narrativos em roteiros são minimalistas, curtos e diretos. Em Cursed Child, até que há uma quantidade generosa com toques descritivos bem característicos de Rowling, o que justifica os comentários de que essa leitura lembrou um pouco a de um romance.

Além disso, é óbvio, mas não custa lembrar que o roteiro de algo é só uma parte desse algo, seja peça, filme etc., ou seja, não é uma experiência narrativa completa em si mesma, ela considera os ingredientes auditivos e visuais (sons, música, cenário, luzes etc.) como componentes essenciais para produzir a poção pretendida, no caso, a peça. “Então por que lançaram isso em livro???” Por vários motivos, mas lê quem quiser, sabendo do que se trata. Fico feliz por terem feito isso, assim tive acesso à história e a parte do sentimento do espetáculo, já que não vou poder ir para Londres assistir.

Quem não gostou do epílogo tem grandes chances de não gostar dessa história (se passam mais ou menos na mesma época, dezenove anos depois da Batalha de Hogwarts), considerando o fato do avanço do tempo, futuro dos personagens e tal. Quem acha que não deveria existir outra história de Harry Potter provavelmente vai chegar com opinião viciada (bias) negativa e, como falei antes, por ser diferente da série (apesar das ligações), vai estranhar mais ainda e a experiência pode descarrilhar.

Teve quem quisesse uma nova história típica da série, para voltar a mergulhar no cotidiano de Hogwarts em um bálsamo de nostalgia. Teve quem quisesse tudo novo ou um desatrelamento maior dos eventos dos livros. Todos esses se frustraram em maior ou menor grau.

A peça foi feita tanto para quem conhece a história dos livros (ou filmes) como para uma nova audiência alheia a tudo, por isso eventos-chave da vida de Harry são revisitados ou mencionados/explicados ao longo dela. HP tem um dos maiores fandons do planeta e podia se garantir na audiência já cativa, mas gostei dessa decisão de acolher e servir bem um novo público.

Li o livro sem “querer nada”, não queria que fosse assim ou assado; minhas expectativas eram poucas. O que mais queria é que fosse uma história envolvente, que me fizesse sentir outra vez em um mundo familiar, com velhos conhecidos e umas caras novas, uma brisa de renovação – e isso eu tive.

Harry Potter and the Cursed Child é uma leitura rápida, divertida e dramática. É uma nova aventura, com novos e antigos personagens, passando por novos e antigos cenários, com novos temas e cores, onde as partes mais suculentas são os personagens e suas relações. É o adeus de Harry Potter, mas não para sempre… Afinal, ele sempre vai estar ao alcance de uns cliques ou de uns passos nas nossas estantes.

Então, é isso. Malfeito feito.

Van

P.S.: Recomendo ler ouvindo a trilha sonora dos filmes. Sim, maremoto de feels.

Warcraft (filme)

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Ontem fui ao cinema ver o filme de Warcraft e vou tentar explicar a minha experiência e reações. Se eu gostei? Gostei. Me diverti. Mas podia ter sido muito, mas muito melhor.

Preciso dizer que sou fã de Warcraft por causa dos jogos de RTS (real-time strategy) para computador Warcraft III: Reign of Chaos e Warcraft III: The Frozen Throne (que ainda tenho no meu pc). Nunca joguei World of Warcraft, embora já tenha escutado todas as trilhas sonoras.

Começando pelas coisas boas, o filme é bem sucedido em mostrar o grande conflito entre dois mundos, entre os orcs e os humanos. Há momentos engraçados – bem colocados – e as sequências de ação são ótimas. Apesar da violência, vemos pouco sangue. Não me incomodei com os orcs ganhando vida na tela via efeitos especiais, achei até mais autêntico. O visual do filme é um dos seus grandes trunfos, indo muito além dos efeitos; a própria caracterização dos orcs e humanos ficou primorosa, assim como a dos cenários.

As atuações pareceram decentes, inclusive as vozes dos orcs, sempre muito expressivos. A trilha sonora de Ramin Djawadi (Game of Thrones, Pacific Rim, Iron Man) tem sua marca registrada, excelente do começo ao fim (ainda quero ouvir mais). Tem fanservice pra todo lado, mas funcionais – nada me pareceu gratuito, sem propósito, fora de lugar.

Então, por Arthas, onde estão os problemas do filme? Onde mais importa: personagens e trama.

A primeira meia hora de filme é uma sequência alucinante de cenas com os personagens indo de um lugar para outro e a gente mal tem tempo de assimilar todos os nomes e absorver direito o que está acontecendo. Não há tempo para criar a devida empatia com os personagens, pois são mal apresentados e desenvolvidos. O único que tem um desenvolvimento apropriado é Durotan, o líder orc – e é por isso que ele protagoniza as cenas mais emocionantes do filme.

Quem diabos é Lothar (além de sabermos ser importante e aparecer nos pôsteres)? Pouco sabemos sobre 90% dos personagens, então por que deveríamos nos importar? Pelas barbas do Arquimago, custava fazer mais alguns comentários sobre Kirin Tor e a galera com olhos brilhantes? Ou é pra simplesmente aceitarmos e engolirmos tudo o que faz o universo de Warcraft distinto como curiosidade secundária? Talvez sejam coisas que serão mais exploradas em possíveis próximos filmes, não sei…

Li em algum lugar que cortaram 40 minutos da filmagem original. Arrisco dizer que 30 minutos são de cenas do começo estabelecendo melhor personagens e cenário. Aposto que a versão estendida desse filme será incrivelmente superior a que vimos nos cinemas. A impressão que ficou foi de que a história correu para as partes de maior ação em um fast foward com cheiro de o-que-vende-é-a-pancadaria-então-foquemos-nela em detrimento do desenvolvimento dos personagens e de uma melhor exposição da trama.

Fico me perguntando se quem não é fã ou não conhece minimamente os jogos conseguiria gostar (não fui atrás de ler reviews e comentários ainda), o que sei é que a familiaridade me fez investir mais emoção e o filme terminou me divertindo.

Warcraft é uma franquia riquíssima e pode ser majestosamente explorada nos cinemas, inclusive criando uma nova base de fãs alheia aos jogos/material original (algo que a Marvel vem fazendo bem). Precisamos de mais filmes de fantasia – e eles podem e devem ser do mesmo nível dos melhores de outros gêneros. Torço para que venha mais Warcraft para o cinema e para que sejam melhores.

Então, pela Aliança ou pela Horda, vão ver o filme. (Mas vão na quarta-feira.)

Van

Releitura Rurouni Kenshin: Vols. 5 a 8 (Megumi, Aoshi e Kanryuu)

Simbora com mais um arco do mangá de Rurouni Kenshin (Samurai X). Hoje sei por que essa história de Kanryuu foi a que menos gostei quando li anos atrás e vou explicar. O grupo de Kenshin fica finalmente completo com Megumi Takani e o palco começa a se armar para os grandes momentos vindouros… [Spoilers!]

O que acontece

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Kenshin é abordado por uma moça (Megumi) perseguida por capangas de Kanryuu Takeda, um ricaço da cidade. Depois de se livrarem dos perseguidores, Kenshin e Sano levam-na para o dojo Kamiya, onde Kaoru a recebe (mesmo com ciúmes pelos flertes dela com Kenshin). Mais dois homens de Kanryuu (Beshimi e Hyottoko) aparecem no dojo para buscar Megumi de volta à mansão do empresário, mas Sanosuke e Kenshin os impedem. Yahiko protege Megumi de um ataque envenenado e sua vida começa a se esvair. Quando os invasores vão embora, Megumi trata o menino e o salva da morte.

No dia seguinte, sob a ameaça de ter todos do dojo envenenados, Megumi volta para Kanryuu, que acredita que a convenceu a continuar a fazer ópio para ele. Nesse meio tempo, o senhor médico amigo de Kaoru que preparou o remédio para Yahiko conversa com os moradores do dojo e eles descobrem que Megumi é uma Takani, uma família de excelentes médicos do feudo de Aizu. Ela escapou do destino trágico dos familiares e trabalhava forçada para produzir um ópio poderoso para Kanryuu. Dando pela falta dela, Kenshin encontra uma mensagem de Megumi e deduz que ela foi levada pelo traficante. Kenshin, Sano e Yahiko partem para a mansão de Kanryuu para resgatá-la.

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Os três invadem a propriedade do traficante e subjugam suas forças de defesa, incluindo os Oniwabanshuu, um grupo de lutadores-espiões que na época do Bakumatsu era encarregado de defender o castelo de Edo (antigo nome de Tóquio), liderado por Aoshi Shinomori. Sano enfrenta Shikijou, Kenshin duela com Hannya; esses dois junto com Hyottoko e Beshimi são os últimos Oniwabanshuu sob o comando de Aoshi. Ele é o último obstáculo de Kenshin até Megumi. Durante a luta dura entre Kenshin e Aoshi, Kanryuu aparece com uma metralhadora e tenta matar todos. Os Oniwabanshuu protegem Aoshi com suas vidas, fazendo o traficante gastar todas as balas e deixando-o indefeso diante de Kenshin.

Quando a polícia chega à mansão, Kenshin impede que Megumi admita produzir ópio e Kanryuu é preso. Aoshi, extremamente abalado pelo sacrifício dos companheiros, foge do lugar, mas é encontrado por Kenshin e cia. O herói oferece uma nova luta para que prove ser o mais forte e Aoshi aceita, dizendo a Kenshin que não morresse até que ele voltasse para matá-lo. Megumi, afinal, encontra no grupo de Kenshin pessoas em que pode confiar e, a exemplo do ex-retalhador, decide expiar seus pecados, mas através da medicina.

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Comentários

Esse arco de Kanryuu é o que lembro menos gostar em todo o mangá e é onde houve um deslize do autor que me incomodou um pouco, mas tem muita coisa boa – e com isso quero dizer personagens e lutas ótimas e cativantes (pra variar).

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A estrela dessa história é (ou deveria ser) Megumi Takani e fiquei surpreso por nunca ter percebido propriamente como ela, dentre o “grupo de Kenshin”, é a que mais se identifica com ele, pois acabou com inúmeras vidas e decide expiar seus pecados. Ela conhece, por experiência própria, o inferno e o peso de carregar mortes nas costas. Ele é Battousai, o Retalhador; ela é a mulher do ópio.

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Em um mangá que gira em torno de lutas, drama e humor, Megumi se encaixa com perfeição nessa tríade – até mesmo no aspecto de ação, pois personagens com capacidades parcas são elementos importantes em qualquer história; elas completam, complementam os protagonistas, em geral habilidosos no que quer que a história trate. Ela possui um drama similar ao de Kenshin e seus flertes com ele produzem cenas cômicas divertidas com Kaoru. E, convenhamos, um grupo de lutadores que não tem alguém pra curar não costuma durar muito.

Megumi é uma adição bem efetuada pelo autor. É só observar suas interações com os demais personagens: desperta o altruísmo inerente de Kenshin e o faz compartilhar sua experiência em lidar com os próprios demônios; gera um conflito para o amor velado de Kaoru por Kenshin, torna-se uma competição para a dona do dojo ao mesmo tempo em que ela reconhece o valor de Megumi; faz Yahiko, o aprendiz de espadachim, demonstrar suas virtudes ao protegê-la de um golpe potencialmente mortal e depois ir ao seu resgate para quitar a dívida por ela tê-lo salvado; por fim, ela deixa Sanosuke perturbado, pois ele sabe que o ópio dela matou um amigo, mas também conhece sua história trágica e, no fim das contas, eles ficam bem e ela inicia os flertes e alfinetadas que perduram pelo mangá inteiro.

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Mas se engana quem pensa que Megumi é completamente indefesa ou passiva. Quando ela aceitou o convite/ameaça de Kanryuu de voltar à mansão, Megumi estava decidida a não ser mais a mulher do ópio. Ela queria pôr um fim àquilo tudo, às mortes, ao seu sofrimento e às tragédias geradas por Kanryuu. Megumi foi para matar e morrer – e Kanryuu teria morrido se não fosse pela intervenção de Aoshi.

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* * *

Creio que o motivo de essa história de Kanryuu não ter me agradado tanto quanto as demais foi a trama, em especial na primeira metade. Na ficção, existe o problema de heróis/protagonistas passivos e/ou reativos (em vez de ativos), principalmente em relação aos vilões/antagonistas (na verdade é chamado de “problema do vilão“, pois ele rouba a cena na história por ser bem mais interessante do que o herói). Mas por que essa reatividade seria um problema? Inúmeros motivos, um deles é que a história fica entediante.

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Foi a primeira vez que vi o autor “perder a mão” na trama, algo que não costuma ser complexo ou o foco no mangá. Sempre é funcional, enxuta, simples. Aqui é simples, mas não funciona tão bem. A primeira metade se passa no dojo Kamiya com os protagonistas basicamente esperando algo acontecer. Então os dois primeiros Oniwabanshuu aparecem para reaver Megumi. Eles lutam, Yahiko se fere e é curado, e depois há mais espera e conversas com os personagens meio perdidos. Isso incomodou um pouco na minha releitura. Os protagonistas são os personagens nos quais o leitor, em geral, investe suas emoções, se identifica, torce, ama etc. Se eles ficam meio entorpecidos por um período da história, isso reflete na experiência do leitor – e o que nós leitores queremos é uma história cativante nos padrões Samurai X, oras!

Quando Megumi vai embora e eles descobrem quem ela realmente é, os protagonistas passam a agir em vez de reagir. Traçam um plano de ação e vão executá-lo. E aí, sim, a história decola outra vez.

Um dos momentos em que se percebe com boa nitidez que o autor descarrilhou um pouco é quando Hyottoko e Beshimi vão ao dojo atrás de Megumi e Sano e Kenshin os enfrentam. Sano assume a luta contra Hyottoko, mas em determinado ponto, depois de levar um golpe, Kenshin se mete na luta. Sano nem se feriu tanto, não justificava. Então Hyottoko usa o ataque de cuspir fogo (amo Samurai X por essas aloprações) e Kenshin mostra que é demais. Ficou meio ridículo – tanto que o próprio autor reconheceu em um comentário. Vejam um quadro desse circo:

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O mangá tem muita coisa bizarra, isso não deveria ser tão infame assim… Mas, nesse momento, em que Kenshin entra só pra fazer isso aí e recuar, porque Sano retoma sua posição, ficou gratuito, sem propósito, e quebrou o andamento da luta. Tudo bem, Watsuki, você estava cansado, é um ser humano e te perdoo por essa.

* * *

Depois dessa tropeçada, a história segue bem com a sequência de ação da segunda metade. Kenshin, Sano e Yahiko invadem a mansão de Kanryuu… Mas como fazer um personagem fraco como Yahiko, um aprendiz, ter uma participação interessante? Como fazê-lo necessário ou minimamente importante, já que Kenshin e Sano detonam hordas sozinhos? Watsuki foi criativo; Kenshin não tinha como dar conta de todos os atiradores (com armas de fogo) e Sano não é tão rápido quanto ele, então:

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Além disso, Yahiko cumpre o papel de impulsionar Kenshin a continuar lutando contra Aoshi mais adiante.

É agora que conhecemos o restante da Oniwabanshuu e seu líder. O primeiro é Hannya, um artista marcial e espião mestre no disfarce – um onmitsu, ou seja, um ninja, sras e srs! Ele tem grande devoção ao okashira (chefe) Aoshi, pois depois de uma infância trágica, foi o único que reconheceu seu valor e lhe deu uma oportunidade de ser alguém, um ser humano.

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Ele mutilou o próprio rosto para aperfeiçoar sua técnica de disfarce e servir melhor à Oniwabanshuu. Por isso, usa uma máscara. Ela se quebra no embate contra Kenshin e vemos a que extremos a devoção de Hannya vai.

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Com uma história trágica e o sacrifício de sua aparência para ser o melhor no que faz, Hannya é um personagem que angaria simpatia. Ele não é maligno, cruel ou completamente insano; parece bem razoável; mas Aoshi, para ele, está acima de tudo e de todos – e é por isso que ele, mesmo apiedado da situação de Megumi, nada fez para demovê-la de seu sofrimento. O okashira é o seu deus e ele é um servo leal, que se anula diante dele. Um tanto exagerado, mas é o “defeito” que se o deixa mais interessante. E, dos comandados de Aoshi, é o mais poderoso. Antes de morrer, ele fala pra Kenshin, sobre Megumi: “Não é que eu não entendia o sofrimento dela. Mas o senhor Aoshi era mais importante para mim.”

Há um momento do combate entre Hannya e Kenshin que jamais vou esquecer. As listras nos braços do ninja causam a ilusão de que são mais curtos do que realmente são, e de que se alongam de repente. Kenshin não consegue desviar dos primeiros ataques e decide usar a espada como régua para entender a técnica do adversário – e consegue.

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Shikijou é o Oniwabanshuu que, basicamente, serve de adversário digno para Sanosuke – ou seja, bronco ao extremo. Além disso, ele, assim como Hannya, comentam o quão forte Aoshi é, aumentando a tensão e a expectativa para o confronto entre ele e Kenshin. É a primeira vez que vemos Sanosuke defendendo Kenshin e passando sermão sobre por que ele é incrível e melhor do que a maioria das pessoas fortes por aí (incluindo Aoshi).

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Ao revelar seu passado (impressionante como os adversários sempre estão dispostos a falar de seus origens e explicar em detalhes suas motivações durante as lutas, não? O autor executa isso tão bem que fica natural e eu me rendo e me envolvo mesmo, no regrets), Shikijou explica que era um espião dos monarquistas, mas que, numa missão, foi derrotado por Aoshi quando este tinha apenas 13 anos. Ele o convenceu a se unir à Oniwabanshuu e usar remédios (tomou bomba, hein?) para aumentar músculos e servir ao Xogum.

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Aoshi aos 13 anos.

Decidi dedicar alguns parágrafos a esses personagens porque o autor costuma ser bem sucedido em desenvolver os coadjuvantes. Eles têm a profundidade compatível com suas participações e funções na história – Hannya é mais complexo do que Shikijou, Hyottoko e Beshimi, por exemplo; é mais ativo e importante para a trama. Beshimi e Hyottoko são os menos relevantes, não há a mesma exploração que Shikijou e Hannya, por isso não teci mais comentários sobre eles. É dito apenas que são pessoas à margem da sociedade, com habilidades específicas, que não se encaixam bem na nova era. Watsuki é ótimo em usar coadjuvantes e nos dar um substrato mínimo para que possamos entendê-los e, até certo ponto, ter simpatia por eles, para que funcionem na história.

* * *

Por último, esse arco de Kanryuu nos presenteia com Aoshi Shinomori, um personagem importante ao longo do mangá. É o clássico inimigo que depois vira aliado do herói. Mas, nesse ponto, só sabemos que é muito forte e tem moral duvidosa.

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Em suma, podemos dizer que Aoshi é o ninja supremo do Japão.

Aoshi era o meu personagem favorito quando eu era pouco mais velho do que Yahiko. Confesso que era puramente pelo estilo dele de se vestir e de lutar (um tanto superficial, né?). Apesar de ser um personagem interessante, pensando bem, hoje, durante essa releitura, ele caiu várias posições no meu ranking pessoal. Por quê? Bem, por causa de sua motivação e de suas ações (ou seja, o que mais deveria importar).

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Aoshi é frustrado porque perdeu a guerra no fim do Bakumatsu sem ter lutado e ter tido a chance de provar que ele e a Oniwabanshuu eram os mais fortes. Eram os guardiões do castelo de Edo, mas o Xogum se rendeu e eles boiaram. Com a queda do xogunato, perderam o emprego e o prestígio. Daí foi só ladeira abaixo e terminaram no exército particular de Kanryuu, principalmente porque teriam possibilidade de usar suas habilidades especiais. Até aí tudo bem.

Acontece que Aoshi continua na sua saga de provar que a Oniwabanshuu é a mais forte e isso se acirra quando ele toma ciência de que Kenshin é Battousai, a figura lendária mais poderosa do Bakumatsu. Derrotar Battousai é a revanche de Aoshi.

A moralidade do okashira fica evidente quando ele conversa com Megumi, cativa na mansão. Quando ele mostra alguma piedade por ela (ao lhe devolver a adaga para que, se quiser, se suicide), descobrimos que Aoshi não é totalmente louco obsessivo. Só uns 96,1%.

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Sério, na boa, ser o melhor em algo é um objetivo válido, sim, mas ter o título de “mais forte” só por ter não cai mais no meu gosto adulto. Ele não tá lutando pelo xogunato que defendia, mas por pura vaidade e validação. Com certeza o sofrimento pelo qual todos da Oniwabanshuu passaram jogou lenha nessa fogueira, mas, em essência, é isso e nada mais. Reitero: funciona. Em uma história sobre máfia, certamente vai ter alguém querendo ser o maior mafioso; em uma história sobre esporte, vai ter alguém querendo ser o número 1.

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Refletindo melhor, talvez seja a forma como Aoshi alardeie seu objetivo que me desagrade. Se ele defendesse com mais frequência que esse título era pelos sacrifícios sobre-humanos dos membros da Oniwabanshuu, creio que eu seria mais simpático. Na maior parte do tempo, me soa como vaidade de um moleque (na época do Bakumatsu) contrariado por um golpe do destino e que não superou nem seguiu em frente com a vida. Talvez o autor devesse ter salientado mais esse aspecto – ou talvez fosse mesmo vaidade. Ou, ainda, eu esteja sendo chato pra caramba com um personagem que sempre gostei. É bem possível.

Quando Kenshin afinal o encontra, manda a real na cara dele (sempre afastando qualquer maniqueísmo em relação aos monarquistas e defensores do xogunato):

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Segue um duelo incrível, cheio de técnicas impressionantes e aulas de artes marciais. Nisso, Watsuki não deixa a peteca cair. A técnica mais forte de Aoshi é o Kaiten Kenbu, na qual ele combina o movimento fluido do Kenbu (dança com espada e leque) com uma sequência devastadora de três golpes com sua kodachi.

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Kenshin não consegue acertar Aoshi e só apanha – até decidir sacrificar o uso da sua sakabatou para desferir golpes contra o pescoço do okashira com a empunhadura. No segundo ataque desse tipo, Kenshin larga a sakabatou e prende a lâmina da kodachi de Aoshi com as mãos, usando a empunhadura da arma do adversário para acertá-lo.

O embate deles termina aí porque Kanryuu invade o salão com sua metralhadora para matar todo mundo e se livrar de todos os problemas de uma vez. Ao ouvir a barulheira dos tiros, os Oniwabanshu convergem para o salão e se sacrificam para proteger seu okashira, que tanto fez por eles. Os quatro (Hannya, Shikijou, Beshimi e Hyottoko) são impiedosamente metralhados diante de Aoshi (como se ele já não tivesse traumas o suficiente) e suas vidas têm um fim trágico – mas foram capazes de poupar a do okashira. Nas palavras de Kenshin, as quatro vidas da Oniwabanshuu derrotaram a metralhadora de Kanryuu.

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E agora, o que Aoshi faria sem seus leais companheiros e sua organização pelos quais dedicou sua vida? Kenshin percebeu o impacto da tragédia no okashira e, por isso, ofereceu uma futura luta pelo título de “o mais forte”, unicamente para dá-lo um propósito para viver. No fim das contas, Aoshi vai embora com o mesmo objetivo de antes. Suponho que seja melhor do que nenhum e ele terminar se suicidando…

Ele voltará a aparecer na história na saga de Shishio, agora a 5 volumes (BR) de distância. O volume 8 (ou o 4, na edição original japonesa) conclui esse arco de Kanryuu com um final agridoce pelas mortes dos Oniwabanshuu, com os quais o leitor simpatiza, mas Megumi inicia uma nova fase de sua vida como parte do grupo de Kenshin, uma etapa menos sofrida e mais saudável, diria até feliz mesmo.

* * *

O que acham de Megumi? E Aoshi? Concordam ou discordam do que falei sobre ele? Espero ter feito jus aos coadjuvantes nessa parte da história, mas fiquem à vontade para comentar mais!

Até o próximo post! (que acredito que não demorará tanto quanto esse)

Van

P.S.: Continuo achando Aoshi o cara mais bem vestido do mangá.

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