Releitura Rurouni Kenshin: Vols. 13 e 14 (Saitou e Ookubo)

Começa a saga de Shishio. E que começo. Esse é o arco mais famoso de Samurai X, o ponto alto do mangá e do anime. Sem mais delongas, vamos ao resumo e aos comentários cheios de spoilers.

O que acontece

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Enquanto Kenshin tem sonhos sobre o fim do Xogunato, Hajime Saitou, ex-integrante do Shinsengumi e arqui-inimigo de Battousai, faz uma visita ao dojo Kamiya. Não encontrando Himura, Saitou ataca Sanosuke e o faz desmaiar. Quando Kenshin e cia. voltam para o dojo, ajudam Megumi a tratar Sano e o andarilho identifica os sinais deixados pelo visitante como sendo do antigo adversário.

Algum tempo depois, Kenshin recebe um convite assinado por Saitou e vai ao seu encontro. Porém, ao chegar ao local, é atacado por um assassino de aluguel, que durante a luta revela que trabalha para um político influente matando pessoas estratégicas para o governo, assim como Jin-E fazia e agora Saitou o faz. Himura o derrota e retorna ao dojo para encontrar Saitou (que disse ser da polícia para Kaoru) à sua espera.

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Os dois discutem e protagonizam um duelo brutal. O Battousai aflora novamente em Kenshin e a luta só para quando Toshimichi Ookubo, ex-monarquista e Ministro do Interior (cargo político mais poderoso do país), interfere. Saitou, na verdade, estava numa missão para o governo de testar a força de Kenshin. Ookubo explica o que está acontecendo: o governo não é capaz de lidar com a ameaça de Shishio, ex-retalhador dos monarquistas, que formou um exército e planeja tomar o poder do Japão; portanto, vieram pedir para Kenshin, espadachim lendário que é, o elimine e salve a nação.

Eles acordam que Kenshin dará a resposta uma semana depois, mas na fatídica data Ookubo é assassinado a mando de Shishio. Diante disso, Kenshin decide ir a Kyoto confrontá-lo. Ele volta ao dojo e se despede de Kaoru, agradecendo por tudo e dizendo que agora voltará a vagar como andarilho. Por sua vez, Saitou mata o político corrupto que comandava os assassinatos para o governo, demonstrando que ainda vive pelos princípios e justiça de dez anos atrás.

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Comentários

A primeira coisa que me chamou a atenção logo nas primeiras páginas do volume 13, tanto das outras vezes que li quanto agora, é o respeito que Kenshin, monarquista, dispensa aos defensores do Xogunato, em especial ao Shinsengumi.

O Shinsengumi foi um grupo de espadachins de elite que serviu ao Xogunato com a missão de manter a ordem pública de Kyoto, defender a cidade na época em que os monarquistas a transformaram em um inferno de mortes e de violência.

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Kenshin tem o Shinsengumi em alta estima, não apenas por serem espadachins excepcionais, mas porque realmente lutavam pelos seus ideais, por aquilo que achavam certo e melhor para o país. Ele chega a afirmar que: “Talvez este servo seja mais próximo a eles do que aos ex-companheiros monarquistas que estão no governo agora…”

Ele destaca a força dos capitães das 1ª, 2ª e 3ª divisões do Shinsengumi, cumprindo a função desse começo, que é a construção do suspense e da ideia de quão fortes os membros do Shinsengumi eram. Isso é essencial para o impacto da aparição de Saitou.

Outras maneiras pelas quais o autor demonstra o nível de Saitou é pelo embate com Sanosuke na primeira visita ao dojo, em que ele leva um soco de Sano e mal sente (além fazê-lo voar e atravessar uma parede com um golpe e desmaiá-lo em seguida), e pela comparação nada sutil quando Kenshin ataca a parede para equiparar os efeitos:

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O autor deu uma forçada de barra aqui. Pelo que vimos de Kenshin até o momento, um battoujutsu desse devia ao menos atravessar a parede.

* * *

Hajime Saitou é um dos personagens mais icônicos de Samurai X, seja pela sua personalidade, seja pela sua postura de combate usando a técnica Gatotsu. Ele é um policial federal que trabalha como espião para o governo (tendo inclusive mudado de nome para Gorou Fujita) e sua missão, quando surge na história, é aferir a força de Battousai Himura. Saitou vem espionando Kenshin há algum tempo sem que ele soubesse, fazendo referência às lutas contra Jin-E, Kanryuu e Raijuuta ao afirmar que o ex-retalhador se tornou fraco.

Saitou é um anti-herói. Apesar de trabalhar para o governo, segue seu próprio senso de justiça – e mata sem remorso em nome dele. É o conceito de justiça que ele carrega desde a época do Xogunato: Aku Soku Zan – o Mal Imediatamente Eliminado.

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Testar a força de Himura é uma desculpa convincente para fazê-los lutar, considerando que se passaram dez anos desde que Kenshin sumiu do radar dos monarquistas. E é por isso que protagonizam um dos melhores duelos de todo o mangá (e do anime).

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Todo o prenúncio da força do Shinsengumi e de Saitou se concretiza nessa batalha e parece completamente plausível. Sem a construção feita pelo autor, não seria crível ver esse cara aparecer e detonar Kenshin.

O andarilho apanha com gosto. O primeiro golpe de Saitou acerta Kenshin na lateral do torso e é um tanto profundo, apesar de não atingir orgão vital. Isso só aconteceu porque Saitou, como ele mesmo afirma depois, estava segurando sua força. Se quisesse, aposto que teria matado Kenshin.

A luta é brutal e, aos poucos, eles regressam à época do Bakumatsu – e Kenshin cede ao Battousai. É quando sua verdadeira força aparece e ele também teria matado Saitou com esse golpe se não fosse pela sua espada com lâmina invertida:

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Até mesmo Saitou abandona sua missão e decide lutar para matar, tão intensos são os sentimentos do passado entre os dois. A transformação de Kenshin em Battousai se completa quando ele fala na primeira pessoa.

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E agora não resisti e vou acrescentar essas imagens porque essa sequência do duelo é boa demais para passar batida:

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Com os dois mergulhados nos tempos de outrora, somente alguém da época poderia demovê-los, e é assim que param: quando o ministro Toshimichi Ookubo e seu comandado interrompem a luta.

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* * *

Ao fim do volume 14, chegamos ao que expliquei lá no volume 1 como sendo o Incidente Incitante: o evento que faz o protagonista reagir.

Ookubo, que é basicamente quem governa o Japão no momento, pede a Kenshin que enfrente Makoto Shishio, um ex-retalhador que também lutou pelos monarquistas (e, portanto, sabe diversos podres e informações sensíveis acerca do membros do governo atual). Nesse momento é contada a origem de Shishio; os monarquistas já tentaram se livrar dele antes, mas, mesmo com o corpo queimado, ele sobreviveu. Nem as tropas federais foram capazes de subjugá-lo, então estão apelando a Battousai, o lendário espadachim do Bakumatsu.

Há uma página em que Ookubo enuncia o pedido a Kenshin e na qual vemos pela primeira vez uma imagem de Shishio e seus subordinados:

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O Incidente Incitante propriamente dito, na verdade, é o assassinato do ministro Ookubo.

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Um dos homens de Shishio (Suijirou Seta), após o crime, avisa a Kenshin para ficar longe se não quiser morrer. Depois de conversar com Saitou (que diz que agora o país está perdido com a perda de Ookubo) e refletir bastante, Kenshin decide ir para Kyoto.

Uma curiosidade é que, mesmo antes da conversa pós-assassinato de Ookubo, Kenshin sopesa sua decisão com base no julgamento que Saitou já fez sobre o ministro (para estar trabalhando para ele). Ele acredita na bússola moral do ex-integrante do Shinsengumi quanto a políticos corruptos e mesquinhos:

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Kenshin volta brevemente ao dojo e se despede de Kaoru num dos momentos mais emocionantes do mangá.

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Há um momento no início do volume 13, depois que Kenshin sonha com o Shinsengumi, em que ele compartilha um pouco das memórias da época e o que pensa sobre os antigos inimigos com Kaoru e Yahiko. Kaoru comenta o quão raro é ele falar sobre essas coisas e Kenshin se espanta por ter sido – agora – tão natural se abrir acerca do passado. Isso demonstra a proximidade, a intimidade criada entre eles.

Depois de tudo o que passaram, ver essa cena (ouvindo Departure, a trilha do anime para esse momento) é emocionante.

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* * *

Esse foi apenas o início da saga de Shishio e as peças começam a se mover no tabuleiro da grande batalha. Fiquem à vontade para comentar impressões sobre Saitou ou sobre a luta com Kenshin.

Até breve!

Van

P.S.:

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Releitura Rurouni Kenshin: Vols. 9 a 12 (Raijuuta, Tsubame e Tsukioka)

Depois de um hiato mais longo de que gostaria, voltei com a releitura. Esses volumes contém as histórias extras que antecedem a Saga de Shishio: uma delas foca em Yahiko e outra, em Sanosuke. Como sempre, vou fazer um resumo e depois comento. Spoilers!

O que acontece

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Os sumiços de Yahiko do Dojo Kamiya fazem Kenshin, Kaoru e Sanosuke descobrirem que o menino está trabalhando no Akabeko, o restaurante favorito deles. Lá, Yahiko faz amizade com uma menina, Tsubame, a quem ajuda como e quando pode. Quando descobre que ela está sendo coagida a auxiliar criminosos, vai encará-los e leva uma surra feia. Como quem não quer nada, Yahiko pede orientação a Kenshin sobre enfrentar muitos adversários de uma vez e o espadachim, ciente da situação, lhe ensina uma forma. O menino termina encarando os criminosos outra vez e, dessa vez, aplicando os ensinamentos de Kenshin, vence o líder e ajuda Tsubame a se livrar dele.

Na história seguinte, um espadachim arrogante e forte chamado Raijuuta Isurugi cruza o caminho de Kenshin e cia. e, após tentar dissuadi-lo a se unir a um movimento de revitalização do kenjutsu no país, Raijuuta combate Kenshin. No meio da luta, fere o próprio discípulo, Yutarou, seu grande admirador e um aprendiz de espadachim promissor, e Kenshin se enfurece e o derrota, física e psicologicamente.

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A última história retrata o reencontro de Sanosuke com um ex-amigo do Sekihoutai, a tropa da qual fizera parte durante a Revolução Meiji. Katsuhiro Tsukioka agora vive com um artista recluso, tendo passado os últimos anos remoendo a tragédia do fim do Sekihoutai e planejando sua vingança contra o atual governo. Tsukioka convence Sano a reviver os velhos tempos e atacar o governo com um arsenal de explosivos. Porém Kenshin os descobre e impede o ataque desvairado, trazendo Sano de volta à razão. Tsukioka, depois de uma conversa séria com Sano, decide editar um jornal para denunciar os atos sujos do governo Meiji.

Ao fim do volume 12, há uma antiga história do autor publicada como uma curiosidade. Como não faz parte das sagas de Kenshin, não vou comentar.

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Comentários

As histórias extras de Yahiko e de Sano servem para ilustrar o amadurecimento dos dois, cada um da sua forma e ambas reflexo da presença de Kenshin em suas vidas.

Com a trama de Yahiko, o autor demonstra as motivações do menino. É divertido ver como os demais personagens reagem quando tentam adivinhar para que Yahiko agora quer dinheiro.

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Com a Revolução Meiji, a divisão de classes se tornou um tanto nebulosa (pelo menos abaixo do topo da pirâmide social), mas não foi da noite para o dia que certos costumes, valores e ideias tradicionais foram deixados de lado. E é para ilustrar isso, em parte, que o autor introduz uma nova personagem: Tsubame.

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A família da menina servia a uma família de samurais. A Era Meiji trouxe a derrocada social dos prestigiados guerreiros, mas ainda havia aqueles que os respeitavam ou os tratavam como se ainda detivessem o mesmo status – ou lhes devessem a mesma devoção.

O antagonista dessa história é da família de ex-samurais à qual Tsubame servia; ele coage a menina a espionar o restaurante e suas finanças se valendo da propensão dela a lhe servir. Tsubame descobre que o dinheiro do Akabeko fica guardado na casa do dono e faz cópia das chaves. Apesar de relutante, porque entende que furtar é um crime e tal ato mancharia o nome da família de ex-samurais, Tsubame se submete às grosserias e ameaças e entrega as chaves.

Yahiko presencia tudo isso e se revolta: “Já faz dez anos que a gente está na Era Meiji e você ainda está nessa de servir ao seu senhor?”

Claro que isso atiça o senso de justiça do menino e ele vai brigar com os criminosos. Leva uma baita surra da primeira vez, mas na segunda dá conta do recado ao aplicar os ensinamentos de Kenshin sobre lutar contra vários oponentes ao mesmo tempo.

O andarilho, de olho em tudo o tempo todo, dá uma mãozinha ao menino também (sem ele pedir) ao espantar parte dos criminosos:

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Kenshin, ainda, conversa com Yahiko sobre o peso de suas ações e suas consequências. Lidar com as consequências dos próprios atos e escolhas é das grandes partes do amadurecimento e Kenshin joga a real:

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Kaoru é quem faz Tsubame enxergar melhor a situação e a incentiva a não se submeter demais e a ter um espírito mais forte: “Da próxima vez que vierem com propostas desse tipo, você vai recusar na hora, sem se prender a costumes e tradições já ultrapassadas. Mesmo que a era tenha mudado para uma época de igualdade, não vai adiantar nada se as pessoas não mudarem.”

No fim, Yahiko revela que está trabalhando de modo a juntar dinheiro para comprar uma sakabatou (espada com lâmina invertida, como a de Kenshin), fazendo o andarilho, talvez pela primeira vez, perceber sua real influência no menino.

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* * *

Na segunda e maior história, Kaoru (com Kenshin e Yahiko) vai dar aula no dojo do Sensei Maekawa. Lá, uma visita inesperada surpreende a todos: Raijuuta Isurugi. Ele desafia o sensei a um duelo e é aceito. Apesar de seu desprezo pelo shinai (espada de bambu), Raijuuta pega um emprestado do dojo, pois foi a arma escolhida pelo sensei, e parte para o duelo.

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Logo fica clara a superioridade de Raijuuta – e sua violência desmedida. Antes que ele desfira um golpe mortal no sensei Maekawa, Kenshin intervém. Em defesa do dojo, Kaoru se predispõe a duelar, mas Kenshin toma a frente, reconhecendo o poderio do desafiante. Quando ele desvia da técnica especial de Raijuuta, um golpe que corta o ar e usa o vácuo da espada para atacar, o desafiante, mesmo tendo partido o shinai de Kenshin, vai embora.

No Dojo Kamiya, Kenshin recebe um convite de Raijuuta, que vive na mansão da família de Yutarou, seu discípulo (que arenga com Yahiko a cada oportunidade). É lá que Raijuuta e Kenshin debatem sobre os rumos atuais do kenjutsu.

Raijuuta lidera um movimento que pretende abolir o uso do shinai e estabelecer o seu estilo Shinko como o único reconhecido (um tanto ditatorial, não?) e, afinal, iniciar a “revitalização do kenjutsu”. Nas palavras dele: “Para que o kenjutsu seja forte como nos tempos antigos, onde os espadachins eram temidos como magos e chamados de mestres do vento!”

Ou seja, Make Kenjutsu Great Again. E ele convida Kenshin a unir-se ao movimento.

Kenshin aponta que os estilos antigos de kenjutsu são focados em técnicas de assassinato. Raijuuta diz estar ciente disso e Kenshin invoca seu voto de não matar e recusa, acrescentando que não irá se opor a uma revitalização do kenjutsu, contanto que ele não queira extinguir os novos estilos que pregam a espada para a vida. Raijuuta solta o velho “Ou se une a mim, ou morre” e, eventualmente, os dois duelam a sério.

É nesse duelo que Raijuuta fere acidentalmente Yutarou:

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Yutarou é um aprendiz de espadachim promissor, tendo até feito aulas com Kaoru no meio da história, mas é completamente desprezado por Raijuuta, que só o mantém perto porque a família do menino o financia. Como se não bastasse, o candidato a ditador não demonstra um pingo de remorso por impedir Yutarou de empunhar uma espada com o braço direito pelo resto da vida. Kenshin se enfurece. Mesmo com um braço ferido e sem conseguir se aproximar de Raijuuta por conta da técnica dele, o andarilho sempre tem uma carta na manga (e dá-lhe Hiten Mitsurugi!):

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Então Raijuuta tem um fim bem aquém do que merecia (o próprio autor vai reconhecer isso numa nota). Ele ameaça matar Yahiko, mas não chega a machucá-lo, apesar de provocado pelo próprio menino e por Sanosuke. Raijuuta não tem coragem de tirar a vida do menino porque, na verdade, nunca matou. Ele prega um estilo que ceifa vidas, se faz parecer O Matador, mas não consegue matar. Kenshin dá uma lição de moral que basicamente destrói a moral e a confiança de Raijuuta, ajoelhado e desesperado.

A conclusão dessa história vem com a despedida de Yutarou, que vai embora do Japão com a família. Yahiko, de certa forma afeiçoado ao menino, reage ao vê-lo abatido:

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Isso desperta o espírito de Yutarou e ele promete treinar com o braço esquerdo e jamais abandonar o kenjutsu. E assim a história sobre o futuro das técnicas de espada termina numa nota esperançosa.

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Tenho pouco a falar sobre a história de Sano. Ele encontra à venda uma ilustração de Capitão Sagara, o líder do Sekihoutai, e vai atrás do artista: um amigo da época da tropa.

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No reencontro, Tsukioka relata como passou os dez anos desde a Revolução Meiji alimentando o rancor contra os monarquistas que traíram o Sekihoutai. A amizade profunda, a injustiça cometida com a tropa e com o homem que mais admirava são sentimentos fortes demais para Sanosuke ignorar, e ele termina sendo convencido a se vingar do governo Meiji perpetrando um ataque com os explosivos feitos por Tsukioka.

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Kenshin descobre tudo e vai impedi-los. Sano, por fim, compreende o que Kenshin realmente defende: a nova era, a paz e as mudanças positivas já conquistadas. Uma ofensiva tão pontual e tresloucada, Sanosuke percebe, é ineficaz e não reflete o que ele realmente deseja.

Suas crenças e motivações ficam claras para Tsukioka quando os dois conversam:

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Essas palavras iluminam Tsukioka e Sano depois fica sabendo que ele deixou de ser artista para editar um jornal que denuncia os podres do governo Meiji. Redirecionando suas energias para uma atividade que mais se aproxima ao verdadeiro objetivo do Sekihoutai, melhorar a vida das pessoas numa nova era de igualdade, Tsukioka se reconcilia consigo mesmo como Sanosuke já fizera (em decorrência do encontro com Kenshin).

* * *

O próximo volume dá início à saga de Shishio, o melhor e mais famoso arco das histórias de Kenshin, e há um lobo à espreita…

Agora vai!

Van

Knights of Cydonia: A jornada épica de faroeste espacial do MUSE

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“40 anos de história do rock em 6 minutos” foi como Chris Wolstenholme, baixista do MUSE, descreveu Knights of Cydonia, a melhor canção já feita pela banda.

A última afirmação é polêmica e complicada; MUSE é uma das minhas bandas favoritas e é difícil escolher a melhor música ou apontar favorita dentre um repertório extenso, rico e variado. Mas, com certeza, ela está no topo da lista (muito bem acompanhada por Citizen Erased, New Born, Stockholm Syndrome, Butterflies and Hurricanes…) e nesse post vou dizer por quê.

Na verdade, vou comentar e analisar a música (evitando mergulhar demais em técnicas e teorias) naquilo que entendo ser os maiores méritos, porém o fato de ela ser minha favorita escapa ao reino do explicável. Como em qualquer arte, o irracional embaça motivos e propósitos – apenas é: está lá como o yin para o yang nas paixões humanas. Agora, ao que interessa.

Ópera em 2 atos

Knights of Cydonia é dividida em duas partes de 3 minutos e uma é bem diferente da outra (o que, no entanto, realça sua complementação e o impacto geral; mais sobre isso adiante). É estruturada de maneira peculiar até para os padrões do MUSE: além das metades um tanto distintas, não possui refrão e muda de tom um punhado de vezes.

É uma canção com certa pompa, praticamente a Bohemian Rhapsody da banda – para a qual Queen é das maiores influências -, e transparece uma paisagem sonora exuberante desde os primeiros segundos: cavalos, pistolas laser, uma ambientação que mescla faroeste e ficção científica, permeada por um espírito aventureiro como em uma viagem intergaláctica.

Ouvir Knights of Cydonia é ser arrebatado para outra época e lugar, como ao assistir a um filme ou ler um livro. Como eles fizeram isso?

Venham cavalgar comigo. Vou lhes mostrar uma banda que não dorme em serviço.

Ato 1

A construção de clímax, o elevar da antecipação, é uma das grandes forças motoras de Knights of Cydonia; em menor grau no começo e com poderio total na segunda parte. As primeiras notas da música, os acordes crescentes, são o prenúncio do que virá. É quando a jornada se inicia.

A primeira metade (Ato 1) é a mais “sofisticada” em termos melódicos. A frase ditada pela guitarra é longa, perpassa 17 acordes (alguns repetidos; fácil de notar acompanhando o baixo) durante 20 compassos. Então a melodia se repete.

Mas… será mesmo? Algo curiosíssimo acontece nessa parte da música: a sequência de acordes que embasa a melodia principal da guitarra muda. Duas vezes. Assim como as notas da melodia principal. Porém a estrutura dos intervalos entre as notas permanece a mesma. Como assim?

Quando a bateria e o baixo (e o sintetizador) iniciam a cavalgada, a nota de partida é Mi menor (Em). O acorde seguinte dá um salto de um tom e meio para Sol (G) e depois de dois tons e meio para Dó (C) e daí por diante. Nessa primeira vez em que é tocada, a sequência conclui em Sol sustenido (G#) e não volta para o Mi menor (Em): ela parte de novo, agora do próprio G#. Então dá o primeiro salto de um tom e meio (B), depois o de dois tons e meio (Em) e, assim, a forma da progressão é mantida, porém o tom que rege a canção muda. E isso acontece outra vez, porque essa segunda sequência termina em Dó menor (Cm) e daí mesmo reinicia o percusso pelos mesmos intervalos, mas agora a linha de chegada é o Mi menor (Em), onde tudo começou – lá e de volta outra vez.

E daí? E daí que essa mudança de tom se apresenta como uma mudança de cenário no panorama da música: é o passeio pelas cidades de Westeros em Game of Thrones ou pelos planetas da galáxia em Star Wars. A banda nos pega pela mão e não nos deixa parar: se o acorde em que aterrissamos é o G#, é daqui que vamos embora e, se pararmos noutro diferente (Cm), de lá seguiremos adiante. Como em um grande ciclo, onde o herói sai de sua morada humilde (Em), para ela ele retorna ao fim de sua busca.

Para visualizar melhor, a estrutura das progressões de acordes do ato 1 é: A, B, B’, B”, A (sendo A os 5 acordes que acompanham os “Ah! Ah! Aaah!” do início da canção, que se repetem após os versos ao fim dessa parte). Há um paralelismo formal aqui – e paralelismo é algo onipresente em Knights of Cydonia.

Exploro esse tema mais adiante, contudo é crucial apontar agora que nesse paralelismo da progressão dos acordes está a repetição, o padrão que a mente humana tanto adora e tende a perceber: o elemento familiar que permite à banda passear por tonalidades diferentes no rastro de uma melodia longa e ainda nos transmitir a sensação de que estamos situados, de que reconhecemos, de certa forma, o caminho; dá, enfim, a consistência às ideias e a suavidade ao fluir entre elas.

A letra do ato 1 traz conceitos mais abstratos, com temas complexos (História, Deus, Tempo) que casam bem com a maior elaboração melódica que a enquadra.

No instrumental, o sintetizador confere o sabor de modernidade à cavalgada junto ao baixo palhetado (recurso esporádico no som de Chris) e à bateria inspirada na de I Want To Break Free do Queen (acelerada e adaptada). A guitarra solo soa como se tivesse vindo das décadas de 1950~1960, pois a banda, na época, estava ouvindo muito surf music; e a melodia em si remonta aos filmes de faroeste e às trilhas de Enio Morricone: o guitarrista e principal compositor Matt Bellamy a compôs no ônibus enquanto eles viajavam pelas estradas do Arizona nos Estados Unidos. O trompete é a cereja no bolo e carimba a atmosfera certa.

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Nem dou muita bola pra clipe, mas esse é sensacional. Destaque para o chapéu e bigode de Chris (e seu Rickenbacker, meu sonho de consumo de baixo) e para a Chrome Bomber reluzente de Matt.

Ato 2

Aqui o MUSE começa a erigir o clímax que explode em um dos riffs mais memoráveis criados por Matt. Ele – o clímax – é demorado, paulatino, mas o fim bombástico faz valer o longo suspense iniciado com o sintetizador ao qual se somam a bateria, o baixo e a guitarra. O destaque no começo fica por conta das vozes, cantando os versos em uma harmonia forte com os backing vocals. Nesse ato, a letra tem um caráter mais imediato, próximo, pé no chão, menos abstrato; ela reflete o novo tema, mais direto e assertivo, desafiante e combativo.

Com isso já podemos observar o paralelismo entre os atos: o primeiro mais elaborado e fluido; o segundo, simples, firme e direto – a melodia do ato 1 dura 20 compassos, o riff do ato 2 dura apenas 8 (o que o faz mais demorado do que parte considerável dos riffs do rock, que não passam de 4, às vezes 2 compassos, mas, ao mesmo tempo, isso impede que destoe demais no contexto geral).

É um paralelismo em antítese, em oposição, e isso é algo presente em diversas artes, como a Literatura. Um exemplo clássico de antítese na Literatura é o início de A Tale of Two Cities, de Charles Dickens:

“It was the best of times, it was the worst of times, it was the age of wisdom, it was the age of foolishness, it was the epoch of belief, it was the epoch of incredulity, it was the season of Light, it was the season of Darkness, it was the spring of hope, it was the winter of despair, we had everything before us, we had nothing before us, we were all going direct to Heaven, we were all going direct the other way (…).”

O contraste da antítese é essencial à obra como um todo, ao livro e à canção do MUSE.

O paralelismo está enraizado nas expressões humanas desde as narrativas da tradição oral, passadas de geração a geração, transpostas para os poemas épicos e histórias populares (o padrão de agrupamentos de eventos em repetições de 3, como em Os 3 Porquinhos, por exemplo), além dos provérbios (“Tal pai, tal filho.”). Como diria Ursula Le Guin, cada repetição “constrói a fundação do evento climático e avança a história”.

Até mesmo em O Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien, em especial em A Sociedade do Anel, a trama da segunda metade reflete a da primeira (sem falar de diversos outros elementos; o paralelismo nessa trilogia é material para uma tese acadêmica).

Voltando à Música, paralelismos podem ser encontrados tanto no instrumental como na letra. Em uma de suas canções mais famosas, Gita, Raul Seixas canta: “Eu sou a luz das estrelas / Eu sou a cor do luar / Eu sou as coisas da vida / Eu sou o medo de amar”. Essa repetição no início dos versos se chama anáfora; ela facilita a memorização e reforça as ideias em sucessão.

É exatamente isso que acontece nos últimos versos de Knights of Cydonia: “You and I must fight for our rights / You and I must fight to survive”. A mensagem em si já é poderosa, a anáfora é o impulso que a lança mais além, que a faz apoderar-se fácil de quem a escuta e, em meio ao instrumental trovejante, alimenta a apoteose do ato final.

Em conclusão, não são os paralelismos abundantes ou melodias e harmonias elaboradas ou riffs poderosos que tornam Knights of Cydonia a melhor canção do MUSE. É algo também, como dizem, maior do que a soma das partes. Essa música é sempre um ponto alto nos shows e é tocada até hoje desde que foi lançada há 10 anos – e não sem motivo.

Knights of Cydonia é sofisticada e despojada, ousada e não se leva a sério; traz um universo inteiro em seus sons mais sutis e uma libertação catártica na sua locomotiva musical.

Talvez agora a descrição de Chris, “40 anos de história do rock em 6 minutos”, pareça menos absurda.

Van

The Great Kasdran and the Fairy Queen – part 5

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This is the fifth and final part of my novelette The Great Kasdran and the Fairy Queen that I have posted here and on Wattpad on Sundays. There is adventure, action, some drama, and a bit of romance against a mythological, legendary backdrop.

Previous parts: part 1, part 2, part 3, and part 4.

If you like it, leave a comment, share it, and recommend it to someone!

The Great Kasdran and the Fairy Queen – Part 5

The Great Kasdran touched a salient root of the Primal Tree. He could sense its roots going as far and deep as the cold Night Lands. He could feel it breathe, and it was breathing fast for the threat to its life was growing. Though the Sword Sorcerer was far away from the trunk of the Tree, its branches were incredibly long. He ran over the roots that rose up like hills, and came near the first branches and its fruits.

He looked up and saw oranges, apples, mangos, and many kinds of cherries. They were too high above him. He resorted to magic, and pulled an apple down to his hands. The apple was gorgeous, big and red.

“You might think twice before doing what you seem to be willing to do,” said a high-pitched voice from somewhere around.

“And what do I seem to be willing to do, invisible stranger?”

“I am not invisible, I am right here,” the little voice replied. “I cannot be seen if I do not wish to. And you seem to be about to eat this apple.”

“That is curious. I think I have heard your voice before…”

“You did, but do not change the subject. You should not eat this apple or any fruit from the Primal Tree. These fruits are cursed.”

“The Curse of Desire, I have been told. I know it.”

“Then why eat if you know it will claim your life?”

“I shall. It is for a purpose greater than me or you. I shall do it to save this world, to save us all.”

“You cannot know if it is greater than me since you do not know who I am. And you cannot know if you will succeed, can you?”

“I can only hope for it, and this hope is enough for me.”

“You are quite the believer. You hope too much for your sake. Does your mother know what you are doing? I will tell her!”

“I hope she does, wherever she is. Wait… I remember your voice. You were talking to the maidens of the Queen’s court. You are the Lizard King, the King-of-a-Thousand-Faces!”

“You took too long to remember me. You are not eating well, young man.”

The Lizard King suddenly appeared close to the Great Kasdran. He was just over the next root.

“You are a chameleon,” the Sword Sorcerer said. “That is why you possess a thousand faces, you can change your colors as you like and hide from sight.”

“Yes, I can,” the Lizard King replied, bored. “But, as much as I like talking about myself, this conversation is not about me rather than about you eating this apple. Do not do it.”

“I appreciate your concern, Your Grace. I am truly honored. Yet I shall, and I can linger here no more.”

The Great Kasdran began eating the apple.

“You fool!” the Lizard King pitied him. “You cannot face the evilness that spreads on this world by eating a dozen fruits of the Primal Tree for you shall be consumed long before you can accomplish anything.”

“Yet I can, Your Grace,” Kasdran said. He ate six more apples one after another. He never tasted anything more delightful. “I am sorry to disturb you, and I shall warn you to remain here for a battle never seen in this world shall commence. Farewell!”

The Great Kasdran felt his body tremble; shivers went down his spine; he was cold and warm. He felt like he possessed all the power that ever was. He was the Sun itself – and he would burn down all Evil in the Fae World.

He commanded the winds and flew away. The Lizard King thought he was a lost man that was going to his death.

From an altar afar, three angels watched still.

*  *  *

Lord Eudalos retreated from the twilight zone, for the hordes of Yllysh and demons were too numerous and too strong. The Syllanthari were holding their defenses around the Mountain of Clouds, as the Queen ordered. Fire ravaged the once green fields; smoke and dark clouds prevailed in the sky. Hundreds of fallen Syllanthari were left behind in the lost battlefields, and the enemies were forcing them up the Mountain of Clouds.

The demons were giant winged creatures of ashen body and skin that burned reddish when furious. Many horns – yellow, white, red, gray, and blue – protruded from their heads, elbows, and knees. Fire was their friend, constantly covering their enormous bodies; Fear was their ultimate weapon.

After the fall of Vyanlystr the Vile, the Yllysh inducted another leader who championed them in the battlefront. He was dueling Lord Eudalos amidst the chaos of blades and battlecries; scythe against spear, dark against light.

The Fairy Queen returned to the Mountain of Clouds with Azinvarsh, and her voice from the sky rose above the sounds of the fight, “Lord Eudalos, I am here!”

Her words reached the Warden of the Skies and awoke his dormant force, for his hope was restored. Lord Eudalos made his spear go through the Yllysh leader’s body, breaking armor and bones. Despite the fallen leader, another would soon take charge.

“Your Highness, I gave you all the time I could! We shall turn the tides on our favor fast, otherwise we shall perish!”

“Have you seen Kasdran, the human?”

“No, Your Highness!”

“Neither the phalanges of angels?”

“Neither, Your Highness! No aid came to us yet! Will any?”

The Queen did not answer. Kasdran had failed. The angels would not heed the battle; the war would be over soon, they all would die, and the Kingdom would be lost forever. These were the last days of the Syllanthari and the forces of light in the Fae World.

“Your Highness,” Lord Eudalos called, “you shall depart from this world and live! Your army shall obey whatever order you deliver! If that is your will, we shall die fighting for our home!”

The Fairy Queen was possessed by hopelessness. She would not abandon his Kingdom, not ever. And she saw no chance of victory whatsoever for the dark forces were just too much. The doom of her kind was unavoidable.

“My Queen,” said Azinvarsh, changing the direction of his flight, “look at the sky over there!”

There was a comet coming across the sky, sucking the dark clouds and smoke behind it. It was not so big, but quite fast. In fact, so fast that it collided to the ground near the Mountain of Clouds and no one had time to react.

The comet fell in the center of the Yllysh and Infernal forces. However, most strangely, neither flames nor black fume came from the crater – only light. A man stepped out of the crater. He was the comet. Darkness and fire and smoke made way to him.

He was the Great Kasdran. The Fairy King’s sword shone amidst the dark army as well as Kasdran’s own old blade. The winds twisted around him and he flew to meet the demonic creatures with both swords in his hands.

“That can be no mere mortal man,” Lord Eudalos said. “That is the power of the Primal Tree!”

The swords of the Sword Sorcerer met the demons. Fire and ashes and roars burst from the tornado of destruction that the Great Kasdran became. He slayed every demon that came close and hunted down all he put his eyes on. He tore wings, arms, and heads. No demon could match him.

The Great Kasdran turned the demons’ fear against themselves. A few remaining infernal creatures fled for they knew that man could not be outdone unless by a larger force.

“They shall return in greater number and malice,” declared Azinvarsh. “And that man will not last much longer.”

The Fairy Queen was admired by the prowess of Kasdran, but she reckoned the wisdom of the King of Birds. She did not know what to do for there was no cure to the Curse of Desire, and as much as she would want it otherwise – and despite of Kasdran’s unconceivable power – she knew the gates to the Infernal Dominions could not be sealed or undone without celestial means.

So the battle of Syllanthari and Yllysh raged on. The Army of Light pushed the dark Fae away from the Mountain of Clouds, but their advance went not much further. The Yllysh were more wrathful than ever.

The Great Kasdran finished his battle in the sky and looked down at the Fae armies. His skin was inflaming, and a tempest was about to emerge from within his body. He feared his end was nigh.

The Great Kasdran took a deep breath and his voice echoed across all lands, “Halt the fight!”

The Fae hesitated for a moment, but soon resumed the strife. The Sword Sorcerer became mad and let erupt the tempest he was holding in. He shone like a star of fire and released violent lightning that struck the earth below. He opened his arms and the land under the feet of the Fae was severed in a great abyss. Some fell, but most of the Syllanthari and Yllysh armies were put apart, each on a side of the chasm.

The Great Kasdran shouted like a thousand thunders, “I am Kasdran, the lightning storm! Recede or be destroyed!”

The fight was halted at last, yet only for fear. All Fae were afraid the Sword Sorcerer and his unleashed fury – even the Queen. That was not what she had in mind when she left him at Angels’ Dwelling.

“You are both part of this world. You shall not murder each other, but coexist. Just as Day and Night; as Fire and Water. Vanquish your hatred, for the same roots run through Night and Day Lands alike. If one Faekind dies, so does the Primal Tree and the world with it. Yllysh and Syllanthari and all Fae need one another…”

All of a sudden, the Great Kasdran fell from the sky. He was not afire anymore. He was weak and in pain – he was dying.

“Go to him, Azinvarsh!” the Fairy Queen ordered, and they went down. She kneeled by his side and tried to touch him, but burned her hand. She could not hold her tears off. “I wish I could save you, my brave Kasdran… I wish I had not burdened you as our savior in any way, so you could leave this cruel, dying world, and return home alive… I much regret my decisions…”

A warm breeze blew in the battlefield. The clouds were unmade and the sun reached the Day Lands again. An ethereal voice came from above, “Regret not, Queen of the Fae.”

An angel in blue and red garments descended upon the Fae along with Alynna in his arms and a whole celestial phalange. The Sorceress of the Court was unconscious and exposed many sores, but was alive.

“Kasdran convinced us,” the angel said. “We are heeding his appeal. We are going to battle for the Fae World.”

The celestial forces flew westwards to face the battalions of demons that were coming on.

“Please, save him!” the Fairy Queen asked the angel. “I possess no power to accomplish such deed, but I beg the Celestial Will to do whatever is possible within its reach! Please, save Kasdran!”

“Yet you do, Queen of the Fae,” the angel replied. “It is the same power Kasdran found inside himself and in your world. The power that made this young human woman endure at the gates of Hell.”

The angel laid Alynna on the ground beside Kadran gently, and then touched his forehead. The light the angel shed soothed the young man’s suffering. He was cured, and his mind slid into the realm of dreams.

“Whilst there is love, there is hope,” the angel said. “And no greater power is known in the whole Creation.”

*  *  *

The Great Kasdran entered the hall with Alynna by his side. They had rested, and the wounds closed. The scars of the War of Tears, however, would remain unseen on them as well as on every being of the Fae World.

“Your Highness,” said Alynna, “I present myself and the Sword Sorcerer after our due rest as we were told.”

The Fairy Queen rose from her throne. She wore a black dress and her hair matched its color for she was mourning the dead Fae. She said,     “I am glad to see you both well. I am very grateful for all you two had done in the recent past for me and for my Kingdom, especially in the matters that resulted in the truce between Syllanthari and Yllysh, and thus in the end of the War of Tears. Hence I nominate you, Alynna, the Counselor of the Court. I possess no greater honor to bestow upon you.”

“I thank you very much, Your Highness,” Alynna started, “I…”

“I am not finished, Alynna,” the Queen said, and Alynna went silent. “I shall express my gratitude towards you, Kasdran, once again. However, I cannot imagine what might suit you or what you might wish for that I could give you. So please, tell me. Whatever is in my reach, I shall give you.”

“I appreciate your gratitude, Your Highness,” the Great Kasdran said. “What I ask is within your reach. I ask you release Alynna from her duties in the court, whatever they might be, so that I can leave this world alongside her as we have decided.”

The Fairy Queen hesitated. She asked, “Do you understand I just nominated her my Counselor?”

“I do. I also understand she would have declined if Your Highness had let her speak. Hence, unless your court works somewhat like a prison, Your Highness shall respect both her free-will and my request. That is what I wish for.”

The Queen’s hair turned to red. She did not raise her voice, but the intonation in her words resembled the ire in her heart, “That is the acknowledgement I receive after all I did for you, Alynna. I just made you Counselor, an honor few Fae were granted and many died hoping for, and you dare to decline.”

“You only did it in order to keep me close hoping that Kasdran would stay,” Alynna said. “You would get rid of me sooner or later, just as you tried at the gates of the Infernal Dominions.”

“Enough! Depart now! Go away, Sword Sorcerer, and take your lover with you! You both shall never return to my Kingdom or I shall claim your lives! Be gone!”

Kasdran and Alynna left the Palace of the Queen. When they came down the Mountain of Clouds, a maiden of the court approached. She delivered the Sword Sorcerer a bag, and said, “The Lizard King sends his regards.”

The maiden went away. Alynna asked about the contents of the bag.

“Some things I asked Your Lizardness swearing I would never make personal use of,” Kasdran said, handing her the bag. She opened it and saw five apples from the Primal Tree. Alynna was dazed. Kasdran said, “Worry not, my love, for he told me that, unlike the apples of my world, these are not perishable.”

The look on Alynna’s face changed.

“What is it?” Kasdran asked. “I mean it, I shall not eat them, but they might be of some use in the future.”

“That is not it,” she said. “You never called me ‘my love’ before.”

“Shall I not?”

“Absolutely,” and she kissed him most passionately. She hoped the Queen would be observing them now from her Palace.

“Henceforth,” Kasdran said, “this matter is definitely settled. Well, it seems we found our portal.”

The Great Kasdran indicated a rainbow northwards, and pondered, “I believe Bompius is quite worried about me by now.”

“Who is Bompius?”

“My henchman. Quite a good lad; eats a lot. I guess I shall hide this bag from him for his own good.”

“I did not know you had a henchman. What more should I know before crossing that portal with you?”

“That there is a Fae tower waiting for me out there. I mean, for us, if you want…”

The Great Kasdran held Alynna’s hand and they walked towards the rainbow. A gentle rain started to fall. The fields around them were recovering fast from the harms of the war.

“I know little of your world, Kasdran… Are you certain all will be fine?”

“No,” he answered, “but I shall ever be with you. Does that make any difference?”

“It does,” she smiled. “Until the end?”

“Even after.”

And thus they returned to the human world, leaving behind a peaceful land with the Fae, but a sorrowful, broken heart with the Fairy Queen.

[The End]

Thank you for reading. See you later!

Van

O Grande Kasdran e a Rainha das Fadas – parte 5

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Essa é a 5ª e última parte da minha noveleta O Grande Kasdran e a Rainha das Fadas, que tenho postado aqui e no Wattpad aos domingos. Tem aventura, ação, uma dose de drama e uma pitada de romance sobre um cenário mitológico com ares de lenda.

Links para as partes anteriores: parte 1, parte 2, parte 3 e parte 4.

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O Grande Kasdran e a Rainha das Fadas – Parte 5

O Grande Kasdran tocou numa raiz saliente da Árvore Primeva. Ele podia sentir suas raízes irem tão longe e fundo quanto às frias Terras da Noite. Ele podia senti-la respirar e ela respirava rápido, pois a ameaça à sua vida crescia. Apesar de o Feiticeiro Espadachim estar longe do caule da Árvore, seus galhos eram inacreditavelmente longos. Ele correu sobre raízes que se erguiam como colinas e chegou perto dos primeiros galhos e de seus frutos.

Olhou para cima e viu laranjas, maçãs, mangas e muitos tipos de acerolas. Elas estavam muito acima dele. Ele recorreu à magia e puxou uma maçã para suas mãos. A maçã era deslumbrante, grande e vermelha.

– Tu poderias pensar duas vezes antes de fazer o que pareces estar disposto a fazer – disse uma voz aguda de algum lugar ao redor.

– E o que pareço estar disposto a fazer, estranho invisível?

– Não estou invisível, estou bem aqui – a pequena voz replicou. – Não posso ser visto se não quiser. E tu pareces prestes a comer essa maçã.

– Curioso. Acho que já ouvi tua voz antes…

– Ouviste, mas não muda o assunto. Tu não devias comer essa maçã ou qualquer fruto da Árvore Primeva. Esses frutos são amaldiçoados.

– A Maldição do Desejo, me disseram. Eu a conheço.

– Então por que comer se sabes que ela reclamará tua vida?

– Eu devo. É por uma causa maior do que eu ou tu. Devo fazer isso para salvar este mundo, para salvar-nos a todos.

– Não podes saber se é maior do que eu, já que não sabes quem sou. E não podes saber se terás sucesso, não é?

– Só posso ter esperança, e essa esperança é suficiente para mim.

– Tu tens muita fé. Alimentas esperança demais para teu próprio bem. Tua mãe sabe o que estás fazendo? Vou contar a ela!

– Espero que saiba, onde quer que esteja. Espera… Eu me lembro da tua voz. Tu conversavas com as donzelas da corte da Rainha. És o Rei Lagarto, o Rei-de-Mil-Faces!

– Demoraste demais para te lembrar de mim. Não estás comendo direito, jovem rapaz.

O Rei Lagarto subitamente apareceu perto do Grande Kasdran. Ele estava bem sobre a raiz mais próxima.

– Vós sois um camaleão – o Feiticeiro Espadachim afirmou. – É por isso que possuís mil faces, podeis mudar tuas cores conforme quiserdes e sumir da vista.

– Sim, eu posso – o Rei Lagarto falou, entediado. – Porém, por mais que eu goste de falar sobre mim, essa conversa não é sobre mim, mas sobre tu comer essa maçã. Não o faças.

– Agradeço vossa preocupação, Vossa Graça. Sinto-me verdadeiramente honrado. Mas eu devo e não posso demorar-me mais aqui.

O Grande Kasdran começou a comer a maçã.

– Seu tolo! – o Rei Lagarto apiedou-se dele. – Não podes enfrentar a malignidade que se alastra nesse mundo comendo uma dúzia de frutos da Árvore Primeva, pois serás consumido muito antes de conseguires qualquer coisa.

– Mas eu posso, Vossa Graça – Kasdran disse. Ele comeu mais seis maçãs uma atrás da outra. Nunca provara nada mais delicioso. – Sinto muito ter vos perturbado, e devo avisar-vos para permanecer aqui, pois uma batalha nunca antes vista nesse mundo há de começar. Adeus!

O Grande Kasdran sentiu seu corpo tremer; arrepios correram-lhe pela espinha; tinha frio e calor. Sentia como se possuísse todo o poder que já existiu. Ele era o próprio Sol – e ele queimaria todo o Mal no Mundo dos Encantados.

Ele comandou os ventos e voou para longe. O Rei Lagarto achou que ele era um homem perdido que ia para sua morte.

De um altar distante, três anjos assistiam inertes.

*  *  *

Lorde Eudalos bateu em retirada da zona do crepúsculo, pois as hordas de Yllysh e demônios eram numerosas e fortes demais. Os Syllanthari mantinham suas defesas em torno da Montanha das Nuvens, como a Rainha ordenara. O fogo assolou os campos outrora verdes; fumaça e nuvens negras predominavam no céu. Centenas de Syllanthari que tombaram foram deixadas para trás nos campos de batalha perdidos e os inimigos os forçavam Montanha das Nuvens acima.

Os demônios eram criaturas aladas gigantes de corpo de cinzas e pele que ardia avermelhada quando furiosos. Muitos chifres – amarelos, brancos, vermelhos, cinzentos e azuis – projetavam-se de suas cabeças, cotovelos e joelhos. O fogo lhes era amigo, cobrindo constantemente seus corpos enormes; o Medo lhes era a arma definitiva.

Após a queda de Vyanlystr, a Vil, os Yllysh elegeram outro líder que os defendeu na frente de batalha. Ele duelava com Lorde Eudalos em meio ao caos de lâminas e gritos de guerra; foice contra lança, treva contra luz.

A Rainha das Fadas retornou à Montanha de Nuvens com Azinvarsh e sua voz vinda do céu elevou-se sobre os sons do combate.

– Lorde Eudalos, estou aqui!

Suas palavras alcançaram o Guardião dos Céus e despertou sua força dormente, pois sua esperança foi restaurada. Lorde Eudalos fez sua lança atravessar o corpo do líder dos Yllysh, quebrando armadura e ossos. A despeito do líder tombado, outro logo assumiria seu lugar.

– Vossa Alteza, eu vos dei todo o tempo que pude! Devemos virar as marés ao nosso favor logo, senão pereceremos!

– Viste Kasdran, o humano?

– Não, Vossa Alteza!

– Nem as falanges de anjos?

– Nem elas, Vossa Alteza! Nenhum socorro veio até nós ainda! Algum virá?

A Rainha não respondeu. Kasdran falhara. Os anjos não atenderiam à batalha; a guerra acabaria em breve, todos eles morreriam e o Reino se perderia para sempre. Esses eram os últimos dias dos Syllanthari e das forças da luz no Mundo dos Encantados.

– Vossa Alteza – Lorde Eudalos chamou –, deveis partir desse mundo e viver! Vosso exército há de obedecer qualquer ordem que vós deis! Se é a vossa vontade, morreremos lutando pelo nosso lar!

A Rainha das Fadas estava possuída pela desesperança. Ela não abandonaria seu Reino, jamais. E ela não via qualquer chance de vitória, pois as forças das trevas eram simplesmente muitas. A ruína de sua casta era inevitável.

– Minha Rainha – disse Azinvarsh, mudando a direção de seu voo –, olhe para o céu ali!

Um cometa vinha pelo céu, sugando as nuvens negras e a fumaça para trás de si. Não era muito grande, mas bastante veloz. Na verdade, tão rápido que colidiu com o chão perto da Montanha de Nuvens e ninguém teve tempo de reagir.

O cometa caiu no centro das forças Infernais e Yllysh. Entretanto, muito estranhamente, nem chamas nem fumaça preta vieram da cratera – apenas luz. Um homem saiu da cratera. Ele era o cometa. Trevas e fogo e fumaça abriram caminho para ele.

Ele era o Grande Kasdran. A espada do Rei das Fadas reluziu em meio ao exército das trevas assim como a própria lâmina antiga de Kasdran. Os ventos espiralaram ao redor dele e ele alçou voo para ir de encontro às criaturas demoníacas com ambas as espadas em suas mãos.

– Aquele não pode ser um mero homem mortal – Lorde Eudalos afirmou. – Aquele é o poder da Árvore Primeva!

As espadas do Feiticeiro Espadachim encontraram os demônios. Fogo e cinzas e rugidos irrompiam do tornado de destruição no qual o Grande Kasdran se tornara. Ele aniquilava todo demônio que chegava perto e caçou todos nos quais pousava os olhos. Ele dilacerou asas, braços e cabeças. Não havia demônio que lhe fosse páreo.

O Grande Kasdran voltou o medo dos demônios contra eles mesmos. As poucas criaturas infernais remanescentes fugiram, pois sabiam que aquele homem não podia ser superado a não ser por uma força maior.

– Eles hão de retornar em maior número e malícia – declarou Azinvarsh. – E aquele homem não há de durar muito mais.

A Rainha das Fadas admirou-se pela proeza de Kasdran, mas ela reconheceu a sabedoria das palavras do Rei das Aves. Não sabia o que fazer, pois não havia cura para a Maldição do Desejo e, por mais que ela quisesse o contrário – e a despeito do poder inconcebível de Kasdran –, ela sabia que os portões para os Domínios Infernais não podiam ser lacrados ou desfeitos sem meios celestiais.

Então a batalha dos Syllanthari e Yllysh se alastrou. O Exército da Luz empurrou os Encantados das trevas para longe da Montanha de Nuvens, mas seu avanço não foi muito além. Os Yllysh estavam mais coléricos do que nunca.

O Grande Kasdran finalizou sua batalha no céu e observou os exércitos dos Encantados. Sua pele se incendiava e uma tormenta estava prestes a emergir de dentro de seu corpo. Ele temia que seu fim estivesse próximo.

O Grande Kasdran respirou fundo e sua voz ecoou por todas as terras.

– Parem o combate!

Os Encantados hesitaram por um momento, mas logo retomaram a contenda. O Feiticeiro Espadachim ficou furioso e deixou que entrasse em erupção a tormenta que ele guardava em si. Ele refulgiu como uma estrela de fogo e liberou raios violentos que atingiram a terra abaixo. Ele abriu os braços e a terra sob os pés dos Encantados foi fendida num grande abismo. Alguns caíram, mas a maioria dos exércitos dos Syllanthari e dos Yllysh foi separada, cada um em um lado do precipício.

O Grande Kasdran bradou como mil trovões.

– Eu sou Kasdran, a tempestade de raios! Recuai ou sede destruídos!

A luta parou por fim, ainda que apenas por medo. Todos os Encantados estavam temendo o Feiticeiro Espadachim e sua fúria desencadeada – até mesmo a Rainha. Aquilo não era o que ela tinha em mente quando o deixara na Morada dos Anjos.

– Sois ambos parte deste mundo. Não haveis de se matar, mas coexistir. Bem como o Dia e a Noite; como Fogo e Água. Vencei vosso ódio, pois as mesmas raízes atravessam igualmente as Terras da Noite e do Dia. Se uma casta Encantada morre, também o faz a Árvore Primeva e com ela o mundo. Yllysh e Syllanthari e todos os Encantados precisam um do outro…

De repente, o Grande Kasdran despencou do céu. Ele não estava mais ardente. Estava fraco e com dor – estava morrendo.

– Vai até ele, Azinvarsh! – a Rainha das Fadas ordenou, e eles desceram. Ela ajoelhou ao lado dele e tentou tocá-lo, mas queimou sua mão. Ela não pôde conter as lágrimas. – Queria poder salvá-lo, meu bravo Kasdran… Queria não tê-lo sobrecarregado como nosso salvador de nenhuma maneira, para que tu pudesses deixar esse mundo cruel e moribundo e voltar para casa vivo… Lamento demais minhas decisões…

Uma brisa morna soprou no campo de batalha. As nuvens foram desfeitas e o sol alcançou as Terras do Dia novamente. Uma voz etérea veio de cima.

– Não lamenta, Rainha dos Encantados.

Um anjo em trajes azuis e vermelhos desceu sobre os Encantados junto com Alynna em seus braços e uma falange celestial inteira. A Feiticeira da Corte estava inconsciente e exibia muitos ferimentos, mas vivia.

– Kasdran nos convenceu – o anjo disse. – Estamos atendendo o apelo dele. Vamos batalhar pelo Mundo dos Encantados.

As forças celestiais voaram para o oeste para enfrentar os batalhões de demônios que estavam a caminho.

– Por favor, salve-o! – a Rainha das Fadas pediu ao anjo. – Não possuo poder para realizar tal feito, mas imploro à Vontade Celestial para fazer o que for possível ao seu alcance! Por favor, salva Kasdran!

– Mas tu possuis, Rainha dos Encantados – o anjo respondeu. – É o mesmo poder que Kasdran descobriu dentro de si e em teu mundo. O poder que fez essa jovem mulher humana resistir aos portões do Inferno.

O anjo deitou Alynna com gentileza no chão ao lado de Kasdran e então tocou a testa dele. A luz que o anjo verteu aliviou o sofrimento do jovem rapaz. Ele estava curado e sua mente escorregou para o reino dos sonhos.

– Enquanto houver amor, há esperança – o anjo disse. – E não se conhece poder maior em toda a Criação.

*  *  *

O Grande Kasdran adentrou o salão com Alynna ao seu lado. Eles descansaram e os ferimentos se fecharam. As cicatrizes da Guerra das Lágrimas, entretanto, neles continuariam invisíveis assim como em cada ser do Mundo dos Encantados.

– Vossa Alteza – disse Alynna –, apresento a mim e ao Feiticeiro Espadachim após nosso devido descanso conforme nos foi dito.

A Rainha das Fadas ergueu-se do trono. Ela vestia um vestido preto e seu cabelo combinava com sua cor, pois ela mantinha luto pelos Encantados mortos.

– Estou feliz em ver ambos bem. Fico muito grata por tudo o que os dois fizeram no passado recente por mim e pelo meu Reino, especialmente nos assuntos que resultaram na trégua entre Syllanthari e Yllysh e, assim, no fim da Guerra das Lágrimas. Portanto nomeio-te, Alynna, a Conselheira da Corte. Não possuo honra maior para conferir a ti.

– Muito obrigada, Vossa Alteza – Alynna começou –, eu…

– Não terminei, Alynna – a Rainha disse, e Alynna se calou. – Devo expressar minha gratidão a ti, Kasdran, outra vez. Entretanto, não posso imaginar o que poderia ser-lhe adequado ou o que poderias desejar que eu pudesse dar-te. Então, por favor, conta-me. O que quer que esteja ao meu alcance, hei de conceder-te.

– Agradeço vossa gratidão, Vossa Alteza – o Grande Kasdran disse. – O que peço está ao vosso alcance. Peço que libereis Alynna de seus deveres na corte, quaisquer que sejam, para que eu possa partir desse mundo com ela ao meu lado.

A Rainha das Fadas hesitou.

– Entendes que acabei de nomeá-la minha Conselheira? – ela perguntou.

– Entendo. Também entendo que ela teria rejeitado se Vossa Alteza a tivesse deixado falar. Logo, a não ser que vossa corte funcione um tanto como uma prisão, Vossa Alteza há de respeitar tanto o livre-arbítrio dela quanto meu pedido. É isso que desejo.

O cabelo da Rainha ficou vermelho. Ela não levantou a voz, mas a entonação em suas palavras assemelhava-se à ira em seu coração.

– Este é o reconhecimento que recebo depois de tudo o que fiz por ti, Alynna. Acabei de torná-la Conselheira, uma honra que poucos Encantados receberam e pela qual muitos morreram esperando e tu ousas rejeitar.

– Tu fizeste isso apenas para manter-me próxima na esperança de que Kasdran ficasse. Tu te livrarias de mim mais cedo ou mais tarde, bem como tentaste nos portões dos Domínios Infernais.

– Basta! Parti agora! Vai embora, Feiticeiro Espadachim, e leva tua amante contigo! Ambos jamais hão de retornar ao meu Reino ou hei de reclamar vossas vidas! Desaparecei!

Kasdran e Alynna deixaram o Palácio da Rainha. Quando desceram a Montanha de Nuvens, uma donzela da corte se aproximou. Ela entregou ao Feiticeiro Espadachim uma bolsa e disse: “O Rei Lagarto manda lembranças”.

A donzela foi embora. Alynna perguntou sobre o conteúdo da bolsa.

– Algumas coisas que pedi à Vossa Lagarteza jurando que jamais faria uso pessoal – Kasdran disse, entregando-lhe a bolsa. Ela a abriu e viu cinco maçãs da Árvore Primeva. Alynna ficou atordoada. – Não te preocupes, meu amor, pois ele me contou que, ao contrário das maçãs do meu mundo, essas não são perecíveis.

A expressão no rosto de Alynna mudou.

– O que foi? – Kasdran perguntou. – Digo a verdade, não hei de comê-las, mas elas podem ser de algum uso no futuro.

– Não é isso – ela disse. – Nunca me chamaste de “meu amor” antes.

– Eu não devo?

– Absolutamente – e ela o beijou apaixonadamente. Ela tinha esperança de que a Rainha estaria observando-os agora de seu Palácio.

– Doravante – Kasdran disse –, esse assunto está definitivamente resolvido. Bem, parece que encontramos nosso portal.

O Grande Kasdran indicou um arco-íris ao norte.

– Creio que Bompius está bastante preocupado comigo agora – o Feiticeiro Espadachim ponderou.

– Quem é Bompius?

– Meu escudeiro. Um rapaz muito bom; come em demasia. Suponho que eu deva esconder-lhe essa bolsa para seu próprio bem.

– Não sabia que tinhas um escudeiro. O que mais eu deveria saber antes de atravessar aquele portal contigo?

– Que agora há uma torre dos Encantados esperando por mim lá fora. Quero dizer, por nós.

O Grande Kasdran segurou a mão de Alynna e eles caminharam em direção ao arco-íris. Uma chuva gentil começou a cair. Os campos ao redor deles recuperavam-se rápido dos estragos da guerra.

– Sei pouco de seu mundo, Kasdran… Estás certo de que tudo ficará bem?

– Não – ele respondeu –, mas eu hei de estar sempre contigo. Isso faz alguma diferença?

– Faz – ela sorriu. – Até o fim?

– Mesmo depois.

E assim eles retornaram ao mundo dos humanos, deixando para trás uma terra pacífica com os Encantados, mas um coração desconsolado e partido com a Rainha das Fadas.

[Fim]

Obrigado por ler. Até mais!

Van

The Great Kasdran and the Fairy Queen – part 4

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This is the fourth of my five-part novelette The Great Kasdran and the Fairy Queen that I am posting here and on Wattpad on Sundays. There is adventure, action, some drama, and a bit of romance against a mythological, legendary backdrop.

Previous parts: part 1, part 2, and part 3.

If you like it, leave a comment, share it, and recommend it to someone!

The Great Kasdran and the Fairy Queen – Part 4

Soon they landed before the cathedral in ruins Kasdran had known in his past journey, a building of broken towers and blackened walls. The doors had long been gone. They made their way in and, though most of the place was damaged, the stained glass remained surprisingly untouched. The colors were fainted, but they were still there over the altar.

The Fairy Queen walked onto it and knelt. The Sword Sorcerer never saw she kneel before and never would afterwards. Something of great importance was about to happen, he felt it. Azinvarsh was uneasy, and Alynna was very serious.

The Sovereign of the Firstborn sang a prayer to the angels with all her heart – a prayer she learned in childhood, never to be forgotten; yet nothing happened.

“Say the prayer with me,” the Queen commanded. “You too, Azinvarsh.”

They all sang on the altar. Not long after, a light came through the stained glass. Nothing was shining on the other side – not on that world: the light was coming from the Celestial Dominions.

Large, white wings appeared; garments of blue and red draped in the breeze that blew warm; auburn hair and bright eyes made out of the light. Three angels stood in front of them.

“Tell us who are you,” spoke one ethereal and calm voice, “and the purpose of your summoning.”

“I am the Queen of the Fae, and I brought you here to ask for help.”

“Why does the Queen of the Fae require us?” another angel asked.

“The malignancy of the Infernal Dominions is unleashed. The gates once sealed are now open again. Without the Celestial forces, no life in this world shall endure. I ask for an alliance like our people had once made. I ask for the salvation of my kin, my vassals, my world.”

There was a brief moment of silence, and then an angel spoke, “We refuse.”

No further explanation followed. The Queen did not believe the words she heard, and asked, “I beg your pardon?”

“We are not intervening this time,” said the third angel. “We refuse.”

“But… why?!”

“We have upheld before this alliance you propose, yet it failed. Your forefathers broke their oath, and you are prone to do likewise. There already has been too much tears in Heaven.”

“It failed not!” the Queen insisted. “The war ended, and we won! The demons were purged, the Yllysh cast away, and the gates of Hell were sealed. We all did suffer losses, for every war has its price… But we won!”

“Did you?” an angel asked. “One might not be so certain.”

“We shall spend no more time here002C” said another. “Farewell, Queen of the Fae.”

“All I am asking is help to save lives!” the Queen raised her raging voice. “To save my world! My people!”

“These matters are yours and yours only.”

“You will watch the Fae die rather than avoid such atrociousness!”

“We shall leave now…” one angel said.

“No, I shall leave you. You deserve not any respect from anyone who lives in my Kingdom. I shall leave you, and try to save the Fae. I shall not give them up to merciless slaughter.”

The Fairy Queen turn her back on the angels and left the altar.

“Come with me, Azinvarsh,” she called. “And Alynna, my sorceress. Kasdran, you shall find your way to aid Lord Eudalos and the Army of Light in the battlefield. Do not disappoint me.”

“Kasdran…” Alynna started.

“It is fine,” he replied. “This is no farewell. Follow the Queen.”

The Great Kasdran was left behind with the tree angels on the altar. They were slowly returning to the light from the stained glass.

“You are not leaving,” the Sword Sorcerer declared. “You remain.”

“The Queen is gone, she called for us. The summoning is over.”

“It is not,” Kasdran was categorical. “I also called for you. I said the prayer. I am your summoner as well, and I say our gathering proceeds.”

“What is it you wish from us, swordsman?”

“Call me Kasdran. I wish for two things you can finely deliver. The first one is a unique knowledge. Enlighten me on the matter of the oathbreaking Fae in the War of Tears so I can comprehend what you just did to the Queen.”

“In a few words, the Syllanthari swore to avoid the deliberate killing of their brothers, the Yllysh. Nonetheless, they grasped all opportunities to spare the dark Fae of their own lives. Pure hatred; a cruel massacre. Such shame and pain… Such regret. We gave them power to defeat Evil, however they were unable to defeat their inner demons. The Syllanthari turned to their brothers with their hearts vilified by bloodlust. The oath was upheld no longer. What we feared the most had come to pass, and our alliance ended along with the sealing of the Infernal gates. We never spoke ever since. Not until this day.”

The Great Kasdran mused for a while, then said, “So I see. You hold no trust to the Fae, and thus you will allow their world to be savaged and brought to ashes for there is no power in the Fae lands capable of surmounting the Infernal forces on its own. You refused assistance to the Queen in order to bestow upon the Syllanthari the consequences of the misdeeds of their ancestors, despite the doom which will impend on all other living races. And there is none who can convince you otherwise.”

“Sorrowfully, yes.”

“Sorrow not, for I possess the mean to prevent the demise of the Fae World.”

“Do you? And what would that be?”

“My word.”

The angels could see through the heart of men, not the mind. They said, “Expatiate.”

“I am no Fae, and I am your summoner. I wish to see this world living on. I am the one asking your aid against the Infernal hordes. Give us all the power we need, take part on the closure of this war, and I give you my word no past misdeed shall happen again. My human word, the word of Kasdran. I deserve your trust, do I not?”

This was the time for the angels to muse. “You do indeed,” said one of them. “Nevertheless, we are not quite certain what extent you give us your word to. After all, you are only passing by. You are a stranger as this world is strange to you. We are inclined to concede you your wish as long as you convince us of your cherishing for the Fairy Lands.”

“By words?”

“No, by deed.”

The Sword Sorcerer smiled, and said, “Hence it shall be done. I would give my life for this world and the ones who live here.”

As the Great Kasdran walked away from the altar, he declared aloud, “Watch me. I know you can.”

*  *  *

The Fairy Queen’s power made them unseen to anyone’s eyes and they went to the gates of the Infernal Dominions, deep in the Night Lands. There the Counselor was watching as the war ravaged north and south and east from the crimson stone of his scepter, which was nailed to the ground. The Queen dismissed the spell as they landed and she revealed herself to him.

“It is done already, there is nothing you can do,” the Counselor said. “The angels will not come, and the Yllysh are bound to sacrifice themselves. It is over, Ruler of the Kingdom.”

“It is over only when I say so,” she retorted. “Now, you tell me why all this. I always knew of your Yllysh blood, but I accepted you. I trusted you. Speak out, I am listening.”

The gates of the Infernal Dominions were two black, high, and pointed pillars in the middle of nowhere. Exhaling fume and screams and hopelessness, a magic portal to an even somber land was bound between them with twisting rays of dark energy. A frail reddish glow was coming out of it. The Counselor was in front of the gates with his scepter like a general atop of a hill observing his army.

“It is your fault,” he said, and tried to explain, “I made my attempts to bring us a different closure, to bring the Kingdom as little pain and suffering as possible. I did try to save your life and your sanity when I took your heart away. You know that quite well. But then everything started to fall apart. That human sorceress of yours, only a toy for you to play around with, she found that devilish human swordmage and together they doomed my quiet conquest of the Fairy Throne. I would have you mine, your life would be spared, and… and you would have my unconditional and eternal love. The only Syllanthari to live on with dignity, for you would be mine. Yet you had to shamefully fall for that mischievous human. And he does not even love you in return! His feelings are towards the human female, his dirty accomplice. That serves you well, lonely and spoiled queen of nothing. You deserve it. You deserve it all. And I want to watch you fall; I am gladly doing so at this moment. I can hear already another battalion on its way to the gates. I assure you, I am enjoying every second of it all!”

The Fairy Queen listened to every word of her Counselor in silence. She understood the meaning of each one of them. Her face uncovered neither joy nor sadness. She was still wearing her emerald dress with purple strips and little sapphires. Her hair gave away her feelings for it was blazing red.

She went face to face with the Counselor.

“Despite all the things you did and you said,” the Queen raised a finger and gingerly touched the Counselor’s lips, and then went down to his chest, “there is one thing I shall confess to you before the end.”

The Counselor’s eyes were wide open. He trembled, and said, “You dare not!”

“Yes, I do dare,” the Fairy Queen replied in whispers. “Before the end I shall confess to you…”

For one moment Alynna, who was observing the dialogue from a safe distance with Azinvarsh, thought the Queen would deliver some sort of kindness towards the Counselor, but that moment was gone fast. The Fairy Queen words could freeze an ocean.

“You made me a better queen when you took my heart away. Watch how I rule.”

She shoved him off through the gates and his scream was all but despair. She looked down at the scepter. Alynna could not have imagined what the Queen was thinking.

“Why he loves you and not me?” the Fairy Queen asked Alynna. “Kasdran! Why he loves you and not me?”

Alynna was scared and surprised. She said,             “I cannot say, I do not comprehend either…”

The Queen went on, her rage bursting out,   “He should love me! I am the Queen! I conquer whoever I desire whenever I intend to! Then, why not him? Why can I not make him love me?” The Fairy Queen was now holding the Counselor’s scepter. “Why is my love not enough?” she asked, lowering her voice. “Why could it not be enough for both of us?”

Alynna gave no answer. She did not possess one.

“He will try to come back,” the Queen said. “You shall hold him off. He and whatever tries to come through.”

She meant the Counselor. And the demons. Alynna was astonished by the orders of the Queen.

“Go forth, you are the Sorceress of the Court,” the Queen insisted. “You shall obey me and defend my Kingdom. His power is much diminished for he lacks his scepter.”

The Counselor was about to cross back the portal when Alynna made swift gestures, said a few words, and blew him away with a strong gust of wind. She said, “My Queen, this is madness! I cannot defend the Kingdom against all hordes of Hell! I cannot hold these gates alone!”

“You would be better off if you do it,” the Queen said. “Otherwise you would doom the world you grew up loving and the ones who ever cared about you. And your beloved Kasdran, of course.”

“Where are you going to?!”

“I am going to stand by my people. It is my duty as their Queen. Now, do yours.”

“My Queen! You are not yourself! Come back! How do we seal these gates?!”

“We cannot. Only the angels can.”

“Then there is no hope… The angels will not attend us…”

“I shall find the Sword Sorcerer. If he is as bright as I assume him to be, he might have done something about the angels already…”

“What do you mean, Your Highness?”

“I mean I conquer whoever I desire whenever I intend to, Sorceress of the Court,” she said, and mounted on Azinvarsh. “Farewell.”

She flew away on the King of Birds and left Alynna alone in the middle of the Night Lands by the gates of Hell.

[End of Part 4]

Final part next sunday. See you!

Van

O Grande Kasdran e a Rainha das Fadas – parte 4

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Essa é a 4ª parte da minha noveleta O Grande Kasdran e a Rainha das Fadas, que estou postando aqui e no Wattpad aos domingos. Serão 5 partes ao todo. Tem aventura, ação, uma dose de drama e uma pitada de romance sobre um cenário mitológico com ares de lenda.

Links para as partes anteriores: parte 1, parte 2 e parte 3.

Se gostarem, comentem, compartilhem e recomendem a alguém!

O Grande Kasdran e a Rainha das Fadas – Parte 4

Logo aterrissaram diante da catedral em ruínas que Kasdran conhecera em sua jornada passada, uma construção de torres quebradas e muros enegrecidos. As portas há muito se foram. Eles entraram e, apesar da maioria do lugar estar danificada, o vitral permanecia surpreendentemente intocado. As cores estavam desbotadas, mas ainda lá sobre o altar.

A Rainha das Fadas caminhou até ele e se ajoelhou. O Feiticeiro Espadachim nunca a vira ajoelhar antes e nunca a veria depois. Algo muito importante estava prestes a acontecer, ele sentia isso. Azinvarsh estava inquieto e Alynna, muito séria.

A Soberana dos Primogênitos cantou uma prece aos anjos com todo seu coração – uma prece que aprendera na infância, para nunca ser esquecida; porém nada aconteceu.

– Fazei a prece comigo – a Rainha comandou. – Tu também, Azinvarsh.

Eles todos cantaram no altar. Não muito depois, uma luz veio através do vitral. Nada brilhava do outro lado – não naquele mundo: a luz vinha dos Domínios Celestiais.

Asas brancas enormes apareceram; trajes azuis e vermelhos drapejaram na brisa que soprava morna; cabelos ruivos e olhos reluzentes saíram da luz. Três anjos estavam de pé em frente a eles.

– Dizei-nos quem sois – falou uma voz etérea e calma – e o propósito de vossa convocação.

– Sou a Rainha dos Encantados e vos trouxe aqui para pedir ajuda.

– Por que a Rainha dos Encantados necessita de nós? – outro anjo perguntou.

– A malevolência dos Domínios Infernais está solta. Os portões uma vez lacrados estão abertos de novo. Sem as forças Celestiais, vida alguma neste mundo há de perdurar. Peço uma aliança como nossos povos fizeram outrora. Peço a salvação da minha família, dos meus vassalos, do meu mundo.

Houve um breve momento de silêncio e então um anjo falou.

– Nós recusamos.

Não vieram maiores explicações. A Rainha não acreditava nas palavras que ouvia.

– Perdão?

– Não interviremos desta vez – disse o terceiro anjo. – Nós recusamos.

– Mas… por quê?!

– Nós apoiamos antes essa aliança que tu propões, mas ela falhou. Teus antepassados quebraram seu juramento e tu és propensa a fazer o mesmo. Já houve lágrimas demais no Paraíso.

– Ela não falhou! – a Rainha insistiu. – A guerra terminou e nós vencemos! Os demônios foram purgados, os Yllysh foram expulsos para longe e os portões do Inferno foram lacrados. Nós todos sofremos perdas, pois toda guerra tem seu preço… Mas nós vencemos!

– Venceram? – um anjo perguntou. – Alguém poderia não ter tanta certeza assim.

– Não passaremos mais tempo aqui – disse outro. – Adeus, Rainha dos Encantados.

– Tudo que estou pedindo é auxílio para salvar vidas! – a Rainha levantou sua voz raivosa. – Para salvar meu mundo! Meu povo!

– Esses são assuntos seus e apenas seus.

– Vós assistireis os Encantados morrerem em vez de evitar tal atrocidade!

– Nós partiremos agora… – declarou um anjo.

– Não, eu hei de deixa-los. Vós não mereceis respeito algum de ninguém que vive em meu Reino. Hei de deixa-los e de tentar salvar os Encantados. Não os abandonarei à chacina impiedosa.

A Rainha das Fadas virou as costas aos anjos e deixou o altar.

– Vem comigo, Azinvarsh – ela chamou. – E Alynna, minha feiticeira. Kasdran, tu deveis encontrar teu modo de ajudar Lorde Eudalos e o Exército da Luz no campo de batalha. Não me desapontes.

– Kasdran… – Alynna começou.

– Está tudo bem – ele respondeu. – Isso não é um adeus. Segue a Rainha.

O Grande Kasdran foi deixado para trás com os três anjos no altar. Eles retornavam lentamente para a luz do vitral.

– Vós não ireis embora – o Feiticeiro Espadachim declarou. – Vós permaneceis.

– A Rainha se foi, ela nos chamou. A convocação está terminada.

– Não está – Kasdran foi categórico. – Eu também vos chamei. Fiz a prece. Sou vosso convocador da mesma forma e digo que nossa reunião prossegue.

– O que é que desejas de nós, espadachim?

– Chamai-me de Kasdran. Desejo duas coisas que vós podeis muito bem dar. A primeira é um conhecimento raro. Esclarecei-me a questão dos Encantados que quebraram os juramentos na Guerra das Lágrimas para que eu possa compreender o que acabastes de fazer à Rainha.

– Em poucas palavras, os Syllanthari juraram evitar matança deliberada de seus irmãos, os Yllysh. Contudo, eles aproveitaram todas as oportunidades de livrar os Encantados das trevas de suas próprias vidas. Ódio puro; um massacre cruel. Tanta vergonha e dor… Tanto remorso. Nós os demos poder para derrotar o Mal, entretanto eles não puderam derrotar seus demônios interiores. Os Syllanthari se voltaram para os seus irmãos com os corações vilipendiados por sede de sangue. O juramento não foi mais honrado. O que mais temíamos aconteceu e nossa aliança findou com o lacre dos portões Infernais. Nunca nos falamos desde então. Não até o dia de hoje.

O Grande Kasdran meditou por um tempo.

– Entendo. Vós não confiais nos Encantados e, por isso, permitireis que o mundo deles seja violentado e trazido às cinzas, já que não há poder algum nas terras dos Encantados capaz de sobrepujar as forças Infernais por si só. Vós recusardes assistência à Rainha de modo a atribuir aos Syllanthari as consequências dos malfeitos de seus ancestrais, a despeito da ruína que ameaçará todas as outras raças vivas. E não há ninguém que possa vos convencer do contrário.

– Lamentavelmente, sim.

– Não lamentai, pois possuo o meio de prevenir o fim do Mundo dos Encantados.

– Possuis? E qual o seria?

– Minha palavra.

Os anjos podiam enxergar através do coração dos homens, não da mente.

– Discorra.

– Não sou um Encantado e sou vosso convocador. Desejo ver esse mundo continuar a viver. Estou pedindo vossa ajuda contra as hordas Infernais. Dai-nos todo o poder que precisamos, participai do desfecho desta guerra e vos dou minha palavra de que nenhum malfeito do passado há de ocorrer novamente. Minha palavra humana, a palavra de Kasdran. Mereço vossa confiança, não?

Essa foi a vez dos anjos meditarem.

– Tu mereces, de fato. Todavia, não temos tanta certeza de até que ponto tu nos dás tua palavra. Afinal, apenas estás de passagem. És estranho como esse mundo o é para ti. Estamos inclinados a conceder-te teu desejo contanto que nos convenças de tua estima pelas Terras dos Encantados.

– Com palavras?

– Não, com feito.

O Feiticeiro Espadachim sorriu.

– Portanto há de ser realizado. Eu daria minha vida por este mundo e pelos que aqui vivem.

Enquanto o Grande Kasdran andava para longe do altar, ele declarou em voz alta:

– Assisti-me. Sei que podeis.

*  *  *

O poder da Rainha das Fadas as fez ocultas para os olhos de qualquer um e elas foram para os portões dos Domínios Infernais, bem fundo nas Terras da Noite. Lá o Conselheiro assistia a guerra devastar norte e sul e leste a partir da pedra rubra de seu cetro, fincado no chão. A Rainha desfez o feitiço quando aterrissaram e se revelou para ele.

– Já está feito, não há nada que possas fazer – o Conselheiro disse. – Os anjos não virão e os Yllysh estão dispostos a se sacrificar. Está acabado, Governante do Reino.

– Está acabado quando eu disser que está – ela retorquiu. – Agora, conta-me por que tudo isso. Eu sempre soube de teu sangue Yllysh, mas aceitei-te. Confiei em ti. Fala, estou escutando.

Os portões dos Domínios Infernais eram dois pontudos pilares altos e pretos no meio de lugar nenhum. Exalando fumaça e gritos e desesperança, um portal mágico para uma terra ainda mais sombria limitava-se entre eles com raios retorcidos de energia negra. Uma frágil incandescência avermelhada saía dele. O Conselheiro estava em frente aos portões com seu cetro como um general sobre uma colina observando seu exército.

– É culpa tua – ele tentou explicar. – Fiz minhas tentativas de nos trazer um desfecho diferente, de trazer ao Reino tanto menos dor e sofrimento quanto possível. Tentei salvar tua vida e tua sanidade quando tomei teu coração. Tu sabes disso muito bem. Mas então tudo começou a ruir. Aquela tua feiticeira humana, apenas um brinquedo para tu brincares, ela encontrou aquele humano diabólico mago da espada e juntos eles arruinaram minha conquista silenciosa do Trono das Fadas. Eu te teria minha, tua vida seria poupada e… e tu terias meu amor incondicional e eterno. A única Syllanthari a continuar vivendo com dignidade, pois tu serias minha. Mas tinhas que vergonhosamente ter uma queda por aquele humano maldoso. E ele nem mesmo ama-te de volta! Os sentimentos dele são pela fêmea humana, sua cúmplice suja. Isso te cai bem, solitária e mimada rainha de nada. Tu mereces. Tu mereces tudo. E quero assisti-la cair; estou fazendo isso com prazer neste momento. Já posso ouvir outro batalhão a caminho dos portões. Asseguro-te, estou aproveitando cada segundo disso tudo!

A Rainha das Fadas escutou cada palavra de seu Conselheiro em silêncio. Ela entendeu o significado de cada uma delas. Sua face não demonstrava alegria nem tristeza. Ela ainda vestia seu vestido esmeralda com faixas roxas e pequenas safiras. Seu cabelo entregou seus sentimentos, pois era vermelho ardente.

Ela ficou cara a cara com o Conselheiro.

– A despeito de todas as coisas que tu fizeste e disseste – a Rainha levantou um dedo e tocou carinhosamente os lábios do Conselheiro e então desceu para seu tórax –, há uma coisa que devo confessar a ti antes do fim.

Os olhos do Conselheiro se arregalaram. Ele tremia.

– Não ousa! – ele disse.

– Sim, eu ouso – a Rainha das Fadas replicou em sussurros. – Antes do fim, devo confessar a ti…

Por um momento, Alynna, que observava o diálogo a uma distância segura com Azinvarsh, pensou que a Rainha faria algum tipo de bondade para o Conselheiro, mas esse momento logo sumiu. As palavras da Rainha das Fadas poderiam congelar um oceano.

– Tu fizeste de mim uma rainha melhor quando tomaste meu coração. Vê como eu julgo.

Ela o empurrou para através dos portões e o grito dele era puro desespero. Ela olhou para baixo para o cetro. Alynna não podia imaginar o que a Rainha estava pensando.

– Por que ele ama a ti e não a mim? – a Rainha das Fadas questionou Alynna. – Kasdran! Por que ele ama a ti e não a mim?

Alynna ficou assustada e surpresa.

– Não posso dizer, eu também não compreendo…

A Rainha continuou, sua raiva estourando.

– Ele deveria amar a mim! Eu sou a Rainha! Eu conquisto quem eu quiser quando eu quiser! Então, por que não ele? Por que não posso fazê-lo me amar?

A Rainha das Fadas agora segurava o cetro do Conselheiro.

– Por que meu amor não é o suficiente? – ela perguntou, baixando a voz. – Por que não poderia ser bastante para nós dois?

Alynna não deu resposta. Ela não possuía uma.

– Ele tentará voltar – a Rainha disse. – Tu deves mantê-lo longe. Ele e o que quer que tente atravessar.

Ela quis dizer o Conselheiro. E os demônios. Alynna estava atônita com as ordens da Rainha.

– Adiante-se, tu és a Feiticeira da Corte – a Rainha insistiu. – Tu deves me obedecer e defender meu Reino. O poder dele está bastante diminuído, pois falta-lhe seu cetro.

O Conselheiro estava prestes a atravessar de volta o portal quando Alynna fez gestos breves, disse umas poucas palavras e o soprou para longe com uma forte lufada de vento.

– Minha Rainha, isso é loucura! Não posso defender o Reino contra todas as hordas do Inferno! Não posso defender esses portões sozinha!

– É melhor que tu o faças – a Rainha disse. – Do contrário, tu condenarias o mundo que cresceste amando e aqueles que sempre se importaram contigo. E também teu amado Kasdran, é claro.

– Para onde estais indo?!

– Vou ficar ao lado do meu povo. É meu dever como Rainha. Agora, cumpre o teu.

– Minha Rainha! Estais fora de si! Voltai! Como selamos esses portões?!

– Não podemos. Somente os anjos podem.

– Então não há esperança… Os anjos não nos atenderão…

– Hei de encontrar o Feiticeiro Espadachim. Se ele é tão brilhante como presumo que seja, ele já pode ter feito algo quanto aos anjos…

– O que quereis dizer, Vossa Alteza?

– Quero dizer que conquisto quem quer que eu deseje quando eu bem queira, Feiticeira da Corte – ela disse e montou em Azinvarsh. – Adeus.

Ela voou para longe no Rei das Aves e deixou Alynna sozinha no meio das Terras da Noite diante dos portões do Inferno.

[Fim da Parte 4]

Última parte no próximo domingo, até lá!

Van