Knights of Cydonia: A jornada épica de faroeste espacial do MUSE

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“40 anos de história do rock em 6 minutos” foi como Chris Wolstenholme, baixista do MUSE, descreveu Knights of Cydonia, a melhor canção já feita pela banda.

A última afirmação é polêmica e complicada; MUSE é uma das minhas bandas favoritas e é difícil escolher a melhor música ou apontar favorita dentre um repertório extenso, rico e variado. Mas, com certeza, ela está no topo da lista (muito bem acompanhada por Citizen Erased, New Born, Stockholm Syndrome, Butterflies and Hurricanes…) e nesse post vou dizer por quê.

Na verdade, vou comentar e analisar a música (evitando mergulhar demais em técnicas e teorias) naquilo que entendo ser os maiores méritos, porém o fato de ela ser minha favorita escapa ao reino do explicável. Como em qualquer arte, o irracional embaça motivos e propósitos – apenas é: está lá como o yin para o yang nas paixões humanas. Agora, ao que interessa.

Ópera em 2 atos

Knights of Cydonia é dividida em duas partes de 3 minutos e uma é bem diferente da outra (o que, no entanto, realça sua complementação e o impacto geral; mais sobre isso adiante). É estruturada de maneira peculiar até para os padrões do MUSE: além das metades um tanto distintas, não possui refrão e muda de tom um punhado de vezes.

É uma canção com certa pompa, praticamente a Bohemian Rhapsody da banda – para a qual Queen é das maiores influências -, e transparece uma paisagem sonora exuberante desde os primeiros segundos: cavalos, pistolas laser, uma ambientação que mescla faroeste e ficção científica, permeada por um espírito aventureiro como em uma viagem intergaláctica.

Ouvir Knights of Cydonia é ser arrebatado para outra época e lugar, como ao assistir a um filme ou ler um livro. Como eles fizeram isso?

Venham cavalgar comigo. Vou lhes mostrar uma banda que não dorme em serviço.

Ato 1

A construção de clímax, o elevar da antecipação, é uma das grandes forças motoras de Knights of Cydonia; em menor grau no começo e com poderio total na segunda parte. As primeiras notas da música, os acordes crescentes, são o prenúncio do que virá. É quando a jornada se inicia.

A primeira metade (Ato 1) é a mais “sofisticada” em termos melódicos. A frase ditada pela guitarra é longa, perpassa 17 acordes (alguns repetidos; fácil de notar acompanhando o baixo) durante 20 compassos. Então a melodia se repete.

Mas… será mesmo? Algo curiosíssimo acontece nessa parte da música: a sequência de acordes que embasa a melodia principal da guitarra muda. Duas vezes. Assim como as notas da melodia principal. Porém a estrutura dos intervalos entre as notas permanece a mesma. Como assim?

Quando a bateria e o baixo (e o sintetizador) iniciam a cavalgada, a nota de partida é Mi menor (Em). O acorde seguinte dá um salto de um tom e meio para Sol (G) e depois de dois tons e meio para Dó (C) e daí por diante. Nessa primeira vez em que é tocada, a sequência conclui em Sol sustenido (G#) e não volta para o Mi menor (Em): ela parte de novo, agora do próprio G#. Então dá o primeiro salto de um tom e meio (B), depois o de dois tons e meio (Em) e, assim, a forma da progressão é mantida, porém o tom que rege a canção muda. E isso acontece outra vez, porque essa segunda sequência termina em Dó menor (Cm) e daí mesmo reinicia o percusso pelos mesmos intervalos, mas agora a linha de chegada é o Mi menor (Em), onde tudo começou – lá e de volta outra vez.

E daí? E daí que essa mudança de tom se apresenta como uma mudança de cenário no panorama da música: é o passeio pelas cidades de Westeros em Game of Thrones ou pelos planetas da galáxia em Star Wars. A banda nos pega pela mão e não nos deixa parar: se o acorde em que aterrissamos é o G#, é daqui que vamos embora e, se pararmos noutro diferente (Cm), de lá seguiremos adiante. Como em um grande ciclo, onde o herói sai de sua morada humilde (Em), para ela ele retorna ao fim de sua busca.

Para visualizar melhor, a estrutura das progressões de acordes do ato 1 é: A, B, B’, B”, A (sendo A os 5 acordes que acompanham os “Ah! Ah! Aaah!” do início da canção, que se repetem após os versos ao fim dessa parte). Há um paralelismo formal aqui – e paralelismo é algo onipresente em Knights of Cydonia.

Exploro esse tema mais adiante, contudo é crucial apontar agora que nesse paralelismo da progressão dos acordes está a repetição, o padrão que a mente humana tanto adora e tende a perceber: o elemento familiar que permite à banda passear por tonalidades diferentes no rastro de uma melodia longa e ainda nos transmitir a sensação de que estamos situados, de que reconhecemos, de certa forma, o caminho; dá, enfim, a consistência às ideias e a suavidade ao fluir entre elas.

A letra do ato 1 traz conceitos mais abstratos, com temas complexos (História, Deus, Tempo) que casam bem com a maior elaboração melódica que a enquadra.

No instrumental, o sintetizador confere o sabor de modernidade à cavalgada junto ao baixo palhetado (recurso esporádico no som de Chris) e à bateria inspirada na de I Want To Break Free do Queen (acelerada e adaptada). A guitarra solo soa como se tivesse vindo das décadas de 1950~1960, pois a banda, na época, estava ouvindo muito surf music; e a melodia em si remonta aos filmes de faroeste e às trilhas de Enio Morricone: o guitarrista e principal compositor Matt Bellamy a compôs no ônibus enquanto eles viajavam pelas estradas do Arizona nos Estados Unidos. O trompete é a cereja no bolo e carimba a atmosfera certa.

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Nem dou muita bola pra clipe, mas esse é sensacional. Destaque para o chapéu e bigode de Chris (e seu Rickenbacker, meu sonho de consumo de baixo) e para a Chrome Bomber reluzente de Matt.

Ato 2

Aqui o MUSE começa a erigir o clímax que explode em um dos riffs mais memoráveis criados por Matt. Ele – o clímax – é demorado, paulatino, mas o fim bombástico faz valer o longo suspense iniciado com o sintetizador ao qual se somam a bateria, o baixo e a guitarra. O destaque no começo fica por conta das vozes, cantando os versos em uma harmonia forte com os backing vocals. Nesse ato, a letra tem um caráter mais imediato, próximo, pé no chão, menos abstrato; ela reflete o novo tema, mais direto e assertivo, desafiante e combativo.

Com isso já podemos observar o paralelismo entre os atos: o primeiro mais elaborado e fluido; o segundo, simples, firme e direto – a melodia do ato 1 dura 20 compassos, o riff do ato 2 dura apenas 8 (o que o faz mais demorado do que parte considerável dos riffs do rock, que não passam de 4, às vezes 2 compassos, mas, ao mesmo tempo, isso impede que destoe demais no contexto geral).

É um paralelismo em antítese, em oposição, e isso é algo presente em diversas artes, como a Literatura. Um exemplo clássico de antítese na Literatura é o início de A Tale of Two Cities, de Charles Dickens:

“It was the best of times, it was the worst of times, it was the age of wisdom, it was the age of foolishness, it was the epoch of belief, it was the epoch of incredulity, it was the season of Light, it was the season of Darkness, it was the spring of hope, it was the winter of despair, we had everything before us, we had nothing before us, we were all going direct to Heaven, we were all going direct the other way (…).”

O contraste da antítese é essencial à obra como um todo, ao livro e à canção do MUSE.

O paralelismo está enraizado nas expressões humanas desde as narrativas da tradição oral, passadas de geração a geração, transpostas para os poemas épicos e histórias populares (o padrão de agrupamentos de eventos em repetições de 3, como em Os 3 Porquinhos, por exemplo), além dos provérbios (“Tal pai, tal filho.”). Como diria Ursula Le Guin, cada repetição “constrói a fundação do evento climático e avança a história”.

Até mesmo em O Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien, em especial em A Sociedade do Anel, a trama da segunda metade reflete a da primeira (sem falar de diversos outros elementos; o paralelismo nessa trilogia é material para uma tese acadêmica).

Voltando à Música, paralelismos podem ser encontrados tanto no instrumental como na letra. Em uma de suas canções mais famosas, Gita, Raul Seixas canta: “Eu sou a luz das estrelas / Eu sou a cor do luar / Eu sou as coisas da vida / Eu sou o medo de amar”. Essa repetição no início dos versos se chama anáfora; ela facilita a memorização e reforça as ideias em sucessão.

É exatamente isso que acontece nos últimos versos de Knights of Cydonia: “You and I must fight for our rights / You and I must fight to survive”. A mensagem em si já é poderosa, a anáfora é o impulso que a lança mais além, que a faz apoderar-se fácil de quem a escuta e, em meio ao instrumental trovejante, alimenta a apoteose do ato final.

Em conclusão, não são os paralelismos abundantes ou melodias e harmonias elaboradas ou riffs poderosos que tornam Knights of Cydonia a melhor canção do MUSE. É algo também, como dizem, maior do que a soma das partes. Essa música é sempre um ponto alto nos shows e é tocada até hoje desde que foi lançada há 10 anos – e não sem motivo.

Knights of Cydonia é sofisticada e despojada, ousada e não se leva a sério; traz um universo inteiro em seus sons mais sutis e uma libertação catártica na sua locomotiva musical.

Talvez agora a descrição de Chris, “40 anos de história do rock em 6 minutos”, pareça menos absurda.

Van