Releitura Rurouni Kenshin: Vols. 13 e 14 (Saitou e Ookubo)

Começa a saga de Shishio. E que começo. Esse é o arco mais famoso de Samurai X, o ponto alto do mangá e do anime. Sem mais delongas, vamos ao resumo e aos comentários cheios de spoilers.

O que acontece

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Enquanto Kenshin tem sonhos sobre o fim do Xogunato, Hajime Saitou, ex-integrante do Shinsengumi e arqui-inimigo de Battousai, faz uma visita ao dojo Kamiya. Não encontrando Himura, Saitou ataca Sanosuke e o faz desmaiar. Quando Kenshin e cia. voltam para o dojo, ajudam Megumi a tratar Sano e o andarilho identifica os sinais deixados pelo visitante como sendo do antigo adversário.

Algum tempo depois, Kenshin recebe um convite assinado por Saitou e vai ao seu encontro. Porém, ao chegar ao local, é atacado por um assassino de aluguel, que durante a luta revela que trabalha para um político influente matando pessoas estratégicas para o governo, assim como Jin-E fazia e agora Saitou o faz. Himura o derrota e retorna ao dojo para encontrar Saitou (que disse ser da polícia para Kaoru) à sua espera.

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Os dois discutem e protagonizam um duelo brutal. O Battousai aflora novamente em Kenshin e a luta só para quando Toshimichi Ookubo, ex-monarquista e Ministro do Interior (cargo político mais poderoso do país), interfere. Saitou, na verdade, estava numa missão para o governo de testar a força de Kenshin. Ookubo explica o que está acontecendo: o governo não é capaz de lidar com a ameaça de Shishio, ex-retalhador dos monarquistas, que formou um exército e planeja tomar o poder do Japão; portanto, vieram pedir para Kenshin, espadachim lendário que é, o elimine e salve a nação.

Eles acordam que Kenshin dará a resposta uma semana depois, mas na fatídica data Ookubo é assassinado a mando de Shishio. Diante disso, Kenshin decide ir a Kyoto confrontá-lo. Ele volta ao dojo e se despede de Kaoru, agradecendo por tudo e dizendo que agora voltará a vagar como andarilho. Por sua vez, Saitou mata o político corrupto que comandava os assassinatos para o governo, demonstrando que ainda vive pelos princípios e justiça de dez anos atrás.

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Comentários

A primeira coisa que me chamou a atenção logo nas primeiras páginas do volume 13, tanto das outras vezes que li quanto agora, é o respeito que Kenshin, monarquista, dispensa aos defensores do Xogunato, em especial ao Shinsengumi.

O Shinsengumi foi um grupo de espadachins de elite que serviu ao Xogunato com a missão de manter a ordem pública de Kyoto, defender a cidade na época em que os monarquistas a transformaram em um inferno de mortes e de violência.

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Kenshin tem o Shinsengumi em alta estima, não apenas por serem espadachins excepcionais, mas porque realmente lutavam pelos seus ideais, por aquilo que achavam certo e melhor para o país. Ele chega a afirmar que: “Talvez este servo seja mais próximo a eles do que aos ex-companheiros monarquistas que estão no governo agora…”

Ele destaca a força dos capitães das 1ª, 2ª e 3ª divisões do Shinsengumi, cumprindo a função desse começo, que é a construção do suspense e da ideia de quão fortes os membros do Shinsengumi eram. Isso é essencial para o impacto da aparição de Saitou.

Outras maneiras pelas quais o autor demonstra o nível de Saitou é pelo embate com Sanosuke na primeira visita ao dojo, em que ele leva um soco de Sano e mal sente (além fazê-lo voar e atravessar uma parede com um golpe e desmaiá-lo em seguida), e pela comparação nada sutil quando Kenshin ataca a parede para equiparar os efeitos:

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O autor deu uma forçada de barra aqui. Pelo que vimos de Kenshin até o momento, um battoujutsu desse devia ao menos atravessar a parede.

* * *

Hajime Saitou é um dos personagens mais icônicos de Samurai X, seja pela sua personalidade, seja pela sua postura de combate usando a técnica Gatotsu. Ele é um policial federal que trabalha como espião para o governo (tendo inclusive mudado de nome para Gorou Fujita) e sua missão, quando surge na história, é aferir a força de Battousai Himura. Saitou vem espionando Kenshin há algum tempo sem que ele soubesse, fazendo referência às lutas contra Jin-E, Kanryuu e Raijuuta ao afirmar que o ex-retalhador se tornou fraco.

Saitou é um anti-herói. Apesar de trabalhar para o governo, segue seu próprio senso de justiça – e mata sem remorso em nome dele. É o conceito de justiça que ele carrega desde a época do Xogunato: Aku Soku Zan – o Mal Imediatamente Eliminado.

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Testar a força de Himura é uma desculpa convincente para fazê-los lutar, considerando que se passaram dez anos desde que Kenshin sumiu do radar dos monarquistas. E é por isso que protagonizam um dos melhores duelos de todo o mangá (e do anime).

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Todo o prenúncio da força do Shinsengumi e de Saitou se concretiza nessa batalha e parece completamente plausível. Sem a construção feita pelo autor, não seria crível ver esse cara aparecer e detonar Kenshin.

O andarilho apanha com gosto. O primeiro golpe de Saitou acerta Kenshin na lateral do torso e é um tanto profundo, apesar de não atingir orgão vital. Isso só aconteceu porque Saitou, como ele mesmo afirma depois, estava segurando sua força. Se quisesse, aposto que teria matado Kenshin.

A luta é brutal e, aos poucos, eles regressam à época do Bakumatsu – e Kenshin cede ao Battousai. É quando sua verdadeira força aparece e ele também teria matado Saitou com esse golpe se não fosse pela sua espada com lâmina invertida:

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Até mesmo Saitou abandona sua missão e decide lutar para matar, tão intensos são os sentimentos do passado entre os dois. A transformação de Kenshin em Battousai se completa quando ele fala na primeira pessoa.

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E agora não resisti e vou acrescentar essas imagens porque essa sequência do duelo é boa demais para passar batida:

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Com os dois mergulhados nos tempos de outrora, somente alguém da época poderia demovê-los, e é assim que param: quando o ministro Toshimichi Ookubo e seu comandado interrompem a luta.

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* * *

Ao fim do volume 14, chegamos ao que expliquei lá no volume 1 como sendo o Incidente Incitante: o evento que faz o protagonista reagir.

Ookubo, que é basicamente quem governa o Japão no momento, pede a Kenshin que enfrente Makoto Shishio, um ex-retalhador que também lutou pelos monarquistas (e, portanto, sabe diversos podres e informações sensíveis acerca do membros do governo atual). Nesse momento é contada a origem de Shishio; os monarquistas já tentaram se livrar dele antes, mas, mesmo com o corpo queimado, ele sobreviveu. Nem as tropas federais foram capazes de subjugá-lo, então estão apelando a Battousai, o lendário espadachim do Bakumatsu.

Há uma página em que Ookubo enuncia o pedido a Kenshin e na qual vemos pela primeira vez uma imagem de Shishio e seus subordinados:

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O Incidente Incitante propriamente dito, na verdade, é o assassinato do ministro Ookubo.

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Um dos homens de Shishio (Suijirou Seta), após o crime, avisa a Kenshin para ficar longe se não quiser morrer. Depois de conversar com Saitou (que diz que agora o país está perdido com a perda de Ookubo) e refletir bastante, Kenshin decide ir para Kyoto.

Uma curiosidade é que, mesmo antes da conversa pós-assassinato de Ookubo, Kenshin sopesa sua decisão com base no julgamento que Saitou já fez sobre o ministro (para estar trabalhando para ele). Ele acredita na bússola moral do ex-integrante do Shinsengumi quanto a políticos corruptos e mesquinhos:

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Kenshin volta brevemente ao dojo e se despede de Kaoru num dos momentos mais emocionantes do mangá.

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Há um momento no início do volume 13, depois que Kenshin sonha com o Shinsengumi, em que ele compartilha um pouco das memórias da época e o que pensa sobre os antigos inimigos com Kaoru e Yahiko. Kaoru comenta o quão raro é ele falar sobre essas coisas e Kenshin se espanta por ter sido – agora – tão natural se abrir acerca do passado. Isso demonstra a proximidade, a intimidade criada entre eles.

Depois de tudo o que passaram, ver essa cena (ouvindo Departure, a trilha do anime para esse momento) é emocionante.

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* * *

Esse foi apenas o início da saga de Shishio e as peças começam a se mover no tabuleiro da grande batalha. Fiquem à vontade para comentar impressões sobre Saitou ou sobre a luta com Kenshin.

Até breve!

Van

P.S.:

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Releitura Rurouni Kenshin: Vols. 9 a 12 (Raijuuta, Tsubame e Tsukioka)

Depois de um hiato mais longo de que gostaria, voltei com a releitura. Esses volumes contém as histórias extras que antecedem a Saga de Shishio: uma delas foca em Yahiko e outra, em Sanosuke. Como sempre, vou fazer um resumo e depois comento. Spoilers!

O que acontece

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Os sumiços de Yahiko do Dojo Kamiya fazem Kenshin, Kaoru e Sanosuke descobrirem que o menino está trabalhando no Akabeko, o restaurante favorito deles. Lá, Yahiko faz amizade com uma menina, Tsubame, a quem ajuda como e quando pode. Quando descobre que ela está sendo coagida a auxiliar criminosos, vai encará-los e leva uma surra feia. Como quem não quer nada, Yahiko pede orientação a Kenshin sobre enfrentar muitos adversários de uma vez e o espadachim, ciente da situação, lhe ensina uma forma. O menino termina encarando os criminosos outra vez e, dessa vez, aplicando os ensinamentos de Kenshin, vence o líder e ajuda Tsubame a se livrar dele.

Na história seguinte, um espadachim arrogante e forte chamado Raijuuta Isurugi cruza o caminho de Kenshin e cia. e, após tentar dissuadi-lo a se unir a um movimento de revitalização do kenjutsu no país, Raijuuta combate Kenshin. No meio da luta, fere o próprio discípulo, Yutarou, seu grande admirador e um aprendiz de espadachim promissor, e Kenshin se enfurece e o derrota, física e psicologicamente.

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A última história retrata o reencontro de Sanosuke com um ex-amigo do Sekihoutai, a tropa da qual fizera parte durante a Revolução Meiji. Katsuhiro Tsukioka agora vive com um artista recluso, tendo passado os últimos anos remoendo a tragédia do fim do Sekihoutai e planejando sua vingança contra o atual governo. Tsukioka convence Sano a reviver os velhos tempos e atacar o governo com um arsenal de explosivos. Porém Kenshin os descobre e impede o ataque desvairado, trazendo Sano de volta à razão. Tsukioka, depois de uma conversa séria com Sano, decide editar um jornal para denunciar os atos sujos do governo Meiji.

Ao fim do volume 12, há uma antiga história do autor publicada como uma curiosidade. Como não faz parte das sagas de Kenshin, não vou comentar.

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Comentários

As histórias extras de Yahiko e de Sano servem para ilustrar o amadurecimento dos dois, cada um da sua forma e ambas reflexo da presença de Kenshin em suas vidas.

Com a trama de Yahiko, o autor demonstra as motivações do menino. É divertido ver como os demais personagens reagem quando tentam adivinhar para que Yahiko agora quer dinheiro.

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Com a Revolução Meiji, a divisão de classes se tornou um tanto nebulosa (pelo menos abaixo do topo da pirâmide social), mas não foi da noite para o dia que certos costumes, valores e ideias tradicionais foram deixados de lado. E é para ilustrar isso, em parte, que o autor introduz uma nova personagem: Tsubame.

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A família da menina servia a uma família de samurais. A Era Meiji trouxe a derrocada social dos prestigiados guerreiros, mas ainda havia aqueles que os respeitavam ou os tratavam como se ainda detivessem o mesmo status – ou lhes devessem a mesma devoção.

O antagonista dessa história é da família de ex-samurais à qual Tsubame servia; ele coage a menina a espionar o restaurante e suas finanças se valendo da propensão dela a lhe servir. Tsubame descobre que o dinheiro do Akabeko fica guardado na casa do dono e faz cópia das chaves. Apesar de relutante, porque entende que furtar é um crime e tal ato mancharia o nome da família de ex-samurais, Tsubame se submete às grosserias e ameaças e entrega as chaves.

Yahiko presencia tudo isso e se revolta: “Já faz dez anos que a gente está na Era Meiji e você ainda está nessa de servir ao seu senhor?”

Claro que isso atiça o senso de justiça do menino e ele vai brigar com os criminosos. Leva uma baita surra da primeira vez, mas na segunda dá conta do recado ao aplicar os ensinamentos de Kenshin sobre lutar contra vários oponentes ao mesmo tempo.

O andarilho, de olho em tudo o tempo todo, dá uma mãozinha ao menino também (sem ele pedir) ao espantar parte dos criminosos:

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Kenshin, ainda, conversa com Yahiko sobre o peso de suas ações e suas consequências. Lidar com as consequências dos próprios atos e escolhas é das grandes partes do amadurecimento e Kenshin joga a real:

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Kaoru é quem faz Tsubame enxergar melhor a situação e a incentiva a não se submeter demais e a ter um espírito mais forte: “Da próxima vez que vierem com propostas desse tipo, você vai recusar na hora, sem se prender a costumes e tradições já ultrapassadas. Mesmo que a era tenha mudado para uma época de igualdade, não vai adiantar nada se as pessoas não mudarem.”

No fim, Yahiko revela que está trabalhando de modo a juntar dinheiro para comprar uma sakabatou (espada com lâmina invertida, como a de Kenshin), fazendo o andarilho, talvez pela primeira vez, perceber sua real influência no menino.

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* * *

Na segunda e maior história, Kaoru (com Kenshin e Yahiko) vai dar aula no dojo do Sensei Maekawa. Lá, uma visita inesperada surpreende a todos: Raijuuta Isurugi. Ele desafia o sensei a um duelo e é aceito. Apesar de seu desprezo pelo shinai (espada de bambu), Raijuuta pega um emprestado do dojo, pois foi a arma escolhida pelo sensei, e parte para o duelo.

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Logo fica clara a superioridade de Raijuuta – e sua violência desmedida. Antes que ele desfira um golpe mortal no sensei Maekawa, Kenshin intervém. Em defesa do dojo, Kaoru se predispõe a duelar, mas Kenshin toma a frente, reconhecendo o poderio do desafiante. Quando ele desvia da técnica especial de Raijuuta, um golpe que corta o ar e usa o vácuo da espada para atacar, o desafiante, mesmo tendo partido o shinai de Kenshin, vai embora.

No Dojo Kamiya, Kenshin recebe um convite de Raijuuta, que vive na mansão da família de Yutarou, seu discípulo (que arenga com Yahiko a cada oportunidade). É lá que Raijuuta e Kenshin debatem sobre os rumos atuais do kenjutsu.

Raijuuta lidera um movimento que pretende abolir o uso do shinai e estabelecer o seu estilo Shinko como o único reconhecido (um tanto ditatorial, não?) e, afinal, iniciar a “revitalização do kenjutsu”. Nas palavras dele: “Para que o kenjutsu seja forte como nos tempos antigos, onde os espadachins eram temidos como magos e chamados de mestres do vento!”

Ou seja, Make Kenjutsu Great Again. E ele convida Kenshin a unir-se ao movimento.

Kenshin aponta que os estilos antigos de kenjutsu são focados em técnicas de assassinato. Raijuuta diz estar ciente disso e Kenshin invoca seu voto de não matar e recusa, acrescentando que não irá se opor a uma revitalização do kenjutsu, contanto que ele não queira extinguir os novos estilos que pregam a espada para a vida. Raijuuta solta o velho “Ou se une a mim, ou morre” e, eventualmente, os dois duelam a sério.

É nesse duelo que Raijuuta fere acidentalmente Yutarou:

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Yutarou é um aprendiz de espadachim promissor, tendo até feito aulas com Kaoru no meio da história, mas é completamente desprezado por Raijuuta, que só o mantém perto porque a família do menino o financia. Como se não bastasse, o candidato a ditador não demonstra um pingo de remorso por impedir Yutarou de empunhar uma espada com o braço direito pelo resto da vida. Kenshin se enfurece. Mesmo com um braço ferido e sem conseguir se aproximar de Raijuuta por conta da técnica dele, o andarilho sempre tem uma carta na manga (e dá-lhe Hiten Mitsurugi!):

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Então Raijuuta tem um fim bem aquém do que merecia (o próprio autor vai reconhecer isso numa nota). Ele ameaça matar Yahiko, mas não chega a machucá-lo, apesar de provocado pelo próprio menino e por Sanosuke. Raijuuta não tem coragem de tirar a vida do menino porque, na verdade, nunca matou. Ele prega um estilo que ceifa vidas, se faz parecer O Matador, mas não consegue matar. Kenshin dá uma lição de moral que basicamente destrói a moral e a confiança de Raijuuta, ajoelhado e desesperado.

A conclusão dessa história vem com a despedida de Yutarou, que vai embora do Japão com a família. Yahiko, de certa forma afeiçoado ao menino, reage ao vê-lo abatido:

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Isso desperta o espírito de Yutarou e ele promete treinar com o braço esquerdo e jamais abandonar o kenjutsu. E assim a história sobre o futuro das técnicas de espada termina numa nota esperançosa.

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Tenho pouco a falar sobre a história de Sano. Ele encontra à venda uma ilustração de Capitão Sagara, o líder do Sekihoutai, e vai atrás do artista: um amigo da época da tropa.

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No reencontro, Tsukioka relata como passou os dez anos desde a Revolução Meiji alimentando o rancor contra os monarquistas que traíram o Sekihoutai. A amizade profunda, a injustiça cometida com a tropa e com o homem que mais admirava são sentimentos fortes demais para Sanosuke ignorar, e ele termina sendo convencido a se vingar do governo Meiji perpetrando um ataque com os explosivos feitos por Tsukioka.

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Kenshin descobre tudo e vai impedi-los. Sano, por fim, compreende o que Kenshin realmente defende: a nova era, a paz e as mudanças positivas já conquistadas. Uma ofensiva tão pontual e tresloucada, Sanosuke percebe, é ineficaz e não reflete o que ele realmente deseja.

Suas crenças e motivações ficam claras para Tsukioka quando os dois conversam:

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Essas palavras iluminam Tsukioka e Sano depois fica sabendo que ele deixou de ser artista para editar um jornal que denuncia os podres do governo Meiji. Redirecionando suas energias para uma atividade que mais se aproxima ao verdadeiro objetivo do Sekihoutai, melhorar a vida das pessoas numa nova era de igualdade, Tsukioka se reconcilia consigo mesmo como Sanosuke já fizera (em decorrência do encontro com Kenshin).

* * *

O próximo volume dá início à saga de Shishio, o melhor e mais famoso arco das histórias de Kenshin, e há um lobo à espreita…

Agora vai!

Van

Releitura Rurouni Kenshin: Vols. 5 a 8 (Megumi, Aoshi e Kanryuu)

Simbora com mais um arco do mangá de Rurouni Kenshin (Samurai X). Hoje sei por que essa história de Kanryuu foi a que menos gostei quando li anos atrás e vou explicar. O grupo de Kenshin fica finalmente completo com Megumi Takani e o palco começa a se armar para os grandes momentos vindouros… [Spoilers!]

O que acontece

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Kenshin é abordado por uma moça (Megumi) perseguida por capangas de Kanryuu Takeda, um ricaço da cidade. Depois de se livrarem dos perseguidores, Kenshin e Sano levam-na para o dojo Kamiya, onde Kaoru a recebe (mesmo com ciúmes pelos flertes dela com Kenshin). Mais dois homens de Kanryuu (Beshimi e Hyottoko) aparecem no dojo para buscar Megumi de volta à mansão do empresário, mas Sanosuke e Kenshin os impedem. Yahiko protege Megumi de um ataque envenenado e sua vida começa a se esvair. Quando os invasores vão embora, Megumi trata o menino e o salva da morte.

No dia seguinte, sob a ameaça de ter todos do dojo envenenados, Megumi volta para Kanryuu, que acredita que a convenceu a continuar a fazer ópio para ele. Nesse meio tempo, o senhor médico amigo de Kaoru que preparou o remédio para Yahiko conversa com os moradores do dojo e eles descobrem que Megumi é uma Takani, uma família de excelentes médicos do feudo de Aizu. Ela escapou do destino trágico dos familiares e trabalhava forçada para produzir um ópio poderoso para Kanryuu. Dando pela falta dela, Kenshin encontra uma mensagem de Megumi e deduz que ela foi levada pelo traficante. Kenshin, Sano e Yahiko partem para a mansão de Kanryuu para resgatá-la.

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Os três invadem a propriedade do traficante e subjugam suas forças de defesa, incluindo os Oniwabanshuu, um grupo de lutadores-espiões que na época do Bakumatsu era encarregado de defender o castelo de Edo (antigo nome de Tóquio), liderado por Aoshi Shinomori. Sano enfrenta Shikijou, Kenshin duela com Hannya; esses dois junto com Hyottoko e Beshimi são os últimos Oniwabanshuu sob o comando de Aoshi. Ele é o último obstáculo de Kenshin até Megumi. Durante a luta dura entre Kenshin e Aoshi, Kanryuu aparece com uma metralhadora e tenta matar todos. Os Oniwabanshuu protegem Aoshi com suas vidas, fazendo o traficante gastar todas as balas e deixando-o indefeso diante de Kenshin.

Quando a polícia chega à mansão, Kenshin impede que Megumi admita produzir ópio e Kanryuu é preso. Aoshi, extremamente abalado pelo sacrifício dos companheiros, foge do lugar, mas é encontrado por Kenshin e cia. O herói oferece uma nova luta para que prove ser o mais forte e Aoshi aceita, dizendo a Kenshin que não morresse até que ele voltasse para matá-lo. Megumi, afinal, encontra no grupo de Kenshin pessoas em que pode confiar e, a exemplo do ex-retalhador, decide expiar seus pecados, mas através da medicina.

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Comentários

Esse arco de Kanryuu é o que lembro menos gostar em todo o mangá e é onde houve um deslize do autor que me incomodou um pouco, mas tem muita coisa boa – e com isso quero dizer personagens e lutas ótimas e cativantes (pra variar).

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A estrela dessa história é (ou deveria ser) Megumi Takani e fiquei surpreso por nunca ter percebido propriamente como ela, dentre o “grupo de Kenshin”, é a que mais se identifica com ele, pois acabou com inúmeras vidas e decide expiar seus pecados. Ela conhece, por experiência própria, o inferno e o peso de carregar mortes nas costas. Ele é Battousai, o Retalhador; ela é a mulher do ópio.

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Em um mangá que gira em torno de lutas, drama e humor, Megumi se encaixa com perfeição nessa tríade – até mesmo no aspecto de ação, pois personagens com capacidades parcas são elementos importantes em qualquer história; elas completam, complementam os protagonistas, em geral habilidosos no que quer que a história trate. Ela possui um drama similar ao de Kenshin e seus flertes com ele produzem cenas cômicas divertidas com Kaoru. E, convenhamos, um grupo de lutadores que não tem alguém pra curar não costuma durar muito.

Megumi é uma adição bem efetuada pelo autor. É só observar suas interações com os demais personagens: desperta o altruísmo inerente de Kenshin e o faz compartilhar sua experiência em lidar com os próprios demônios; gera um conflito para o amor velado de Kaoru por Kenshin, torna-se uma competição para a dona do dojo ao mesmo tempo em que ela reconhece o valor de Megumi; faz Yahiko, o aprendiz de espadachim, demonstrar suas virtudes ao protegê-la de um golpe potencialmente mortal e depois ir ao seu resgate para quitar a dívida por ela tê-lo salvado; por fim, ela deixa Sanosuke perturbado, pois ele sabe que o ópio dela matou um amigo, mas também conhece sua história trágica e, no fim das contas, eles ficam bem e ela inicia os flertes e alfinetadas que perduram pelo mangá inteiro.

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Mas se engana quem pensa que Megumi é completamente indefesa ou passiva. Quando ela aceitou o convite/ameaça de Kanryuu de voltar à mansão, Megumi estava decidida a não ser mais a mulher do ópio. Ela queria pôr um fim àquilo tudo, às mortes, ao seu sofrimento e às tragédias geradas por Kanryuu. Megumi foi para matar e morrer – e Kanryuu teria morrido se não fosse pela intervenção de Aoshi.

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* * *

Creio que o motivo de essa história de Kanryuu não ter me agradado tanto quanto as demais foi a trama, em especial na primeira metade. Na ficção, existe o problema de heróis/protagonistas passivos e/ou reativos (em vez de ativos), principalmente em relação aos vilões/antagonistas (na verdade é chamado de “problema do vilão“, pois ele rouba a cena na história por ser bem mais interessante do que o herói). Mas por que essa reatividade seria um problema? Inúmeros motivos, um deles é que a história fica entediante.

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Foi a primeira vez que vi o autor “perder a mão” na trama, algo que não costuma ser complexo ou o foco no mangá. Sempre é funcional, enxuta, simples. Aqui é simples, mas não funciona tão bem. A primeira metade se passa no dojo Kamiya com os protagonistas basicamente esperando algo acontecer. Então os dois primeiros Oniwabanshuu aparecem para reaver Megumi. Eles lutam, Yahiko se fere e é curado, e depois há mais espera e conversas com os personagens meio perdidos. Isso incomodou um pouco na minha releitura. Os protagonistas são os personagens nos quais o leitor, em geral, investe suas emoções, se identifica, torce, ama etc. Se eles ficam meio entorpecidos por um período da história, isso reflete na experiência do leitor – e o que nós leitores queremos é uma história cativante nos padrões Samurai X, oras!

Quando Megumi vai embora e eles descobrem quem ela realmente é, os protagonistas passam a agir em vez de reagir. Traçam um plano de ação e vão executá-lo. E aí, sim, a história decola outra vez.

Um dos momentos em que se percebe com boa nitidez que o autor descarrilhou um pouco é quando Hyottoko e Beshimi vão ao dojo atrás de Megumi e Sano e Kenshin os enfrentam. Sano assume a luta contra Hyottoko, mas em determinado ponto, depois de levar um golpe, Kenshin se mete na luta. Sano nem se feriu tanto, não justificava. Então Hyottoko usa o ataque de cuspir fogo (amo Samurai X por essas aloprações) e Kenshin mostra que é demais. Ficou meio ridículo – tanto que o próprio autor reconheceu em um comentário. Vejam um quadro desse circo:

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O mangá tem muita coisa bizarra, isso não deveria ser tão infame assim… Mas, nesse momento, em que Kenshin entra só pra fazer isso aí e recuar, porque Sano retoma sua posição, ficou gratuito, sem propósito, e quebrou o andamento da luta. Tudo bem, Watsuki, você estava cansado, é um ser humano e te perdoo por essa.

* * *

Depois dessa tropeçada, a história segue bem com a sequência de ação da segunda metade. Kenshin, Sano e Yahiko invadem a mansão de Kanryuu… Mas como fazer um personagem fraco como Yahiko, um aprendiz, ter uma participação interessante? Como fazê-lo necessário ou minimamente importante, já que Kenshin e Sano detonam hordas sozinhos? Watsuki foi criativo; Kenshin não tinha como dar conta de todos os atiradores (com armas de fogo) e Sano não é tão rápido quanto ele, então:

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Além disso, Yahiko cumpre o papel de impulsionar Kenshin a continuar lutando contra Aoshi mais adiante.

É agora que conhecemos o restante da Oniwabanshuu e seu líder. O primeiro é Hannya, um artista marcial e espião mestre no disfarce – um onmitsu, ou seja, um ninja, sras e srs! Ele tem grande devoção ao okashira (chefe) Aoshi, pois depois de uma infância trágica, foi o único que reconheceu seu valor e lhe deu uma oportunidade de ser alguém, um ser humano.

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Ele mutilou o próprio rosto para aperfeiçoar sua técnica de disfarce e servir melhor à Oniwabanshuu. Por isso, usa uma máscara. Ela se quebra no embate contra Kenshin e vemos a que extremos a devoção de Hannya vai.

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Com uma história trágica e o sacrifício de sua aparência para ser o melhor no que faz, Hannya é um personagem que angaria simpatia. Ele não é maligno, cruel ou completamente insano; parece bem razoável; mas Aoshi, para ele, está acima de tudo e de todos – e é por isso que ele, mesmo apiedado da situação de Megumi, nada fez para demovê-la de seu sofrimento. O okashira é o seu deus e ele é um servo leal, que se anula diante dele. Um tanto exagerado, mas é o “defeito” que se o deixa mais interessante. E, dos comandados de Aoshi, é o mais poderoso. Antes de morrer, ele fala pra Kenshin, sobre Megumi: “Não é que eu não entendia o sofrimento dela. Mas o senhor Aoshi era mais importante para mim.”

Há um momento do combate entre Hannya e Kenshin que jamais vou esquecer. As listras nos braços do ninja causam a ilusão de que são mais curtos do que realmente são, e de que se alongam de repente. Kenshin não consegue desviar dos primeiros ataques e decide usar a espada como régua para entender a técnica do adversário – e consegue.

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Shikijou é o Oniwabanshuu que, basicamente, serve de adversário digno para Sanosuke – ou seja, bronco ao extremo. Além disso, ele, assim como Hannya, comentam o quão forte Aoshi é, aumentando a tensão e a expectativa para o confronto entre ele e Kenshin. É a primeira vez que vemos Sanosuke defendendo Kenshin e passando sermão sobre por que ele é incrível e melhor do que a maioria das pessoas fortes por aí (incluindo Aoshi).

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Ao revelar seu passado (impressionante como os adversários sempre estão dispostos a falar de seus origens e explicar em detalhes suas motivações durante as lutas, não? O autor executa isso tão bem que fica natural e eu me rendo e me envolvo mesmo, no regrets), Shikijou explica que era um espião dos monarquistas, mas que, numa missão, foi derrotado por Aoshi quando este tinha apenas 13 anos. Ele o convenceu a se unir à Oniwabanshuu e usar remédios (tomou bomba, hein?) para aumentar músculos e servir ao Xogum.

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Aoshi aos 13 anos.

Decidi dedicar alguns parágrafos a esses personagens porque o autor costuma ser bem sucedido em desenvolver os coadjuvantes. Eles têm a profundidade compatível com suas participações e funções na história – Hannya é mais complexo do que Shikijou, Hyottoko e Beshimi, por exemplo; é mais ativo e importante para a trama. Beshimi e Hyottoko são os menos relevantes, não há a mesma exploração que Shikijou e Hannya, por isso não teci mais comentários sobre eles. É dito apenas que são pessoas à margem da sociedade, com habilidades específicas, que não se encaixam bem na nova era. Watsuki é ótimo em usar coadjuvantes e nos dar um substrato mínimo para que possamos entendê-los e, até certo ponto, ter simpatia por eles, para que funcionem na história.

* * *

Por último, esse arco de Kanryuu nos presenteia com Aoshi Shinomori, um personagem importante ao longo do mangá. É o clássico inimigo que depois vira aliado do herói. Mas, nesse ponto, só sabemos que é muito forte e tem moral duvidosa.

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Em suma, podemos dizer que Aoshi é o ninja supremo do Japão.

Aoshi era o meu personagem favorito quando eu era pouco mais velho do que Yahiko. Confesso que era puramente pelo estilo dele de se vestir e de lutar (um tanto superficial, né?). Apesar de ser um personagem interessante, pensando bem, hoje, durante essa releitura, ele caiu várias posições no meu ranking pessoal. Por quê? Bem, por causa de sua motivação e de suas ações (ou seja, o que mais deveria importar).

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Aoshi é frustrado porque perdeu a guerra no fim do Bakumatsu sem ter lutado e ter tido a chance de provar que ele e a Oniwabanshuu eram os mais fortes. Eram os guardiões do castelo de Edo, mas o Xogum se rendeu e eles boiaram. Com a queda do xogunato, perderam o emprego e o prestígio. Daí foi só ladeira abaixo e terminaram no exército particular de Kanryuu, principalmente porque teriam possibilidade de usar suas habilidades especiais. Até aí tudo bem.

Acontece que Aoshi continua na sua saga de provar que a Oniwabanshuu é a mais forte e isso se acirra quando ele toma ciência de que Kenshin é Battousai, a figura lendária mais poderosa do Bakumatsu. Derrotar Battousai é a revanche de Aoshi.

A moralidade do okashira fica evidente quando ele conversa com Megumi, cativa na mansão. Quando ele mostra alguma piedade por ela (ao lhe devolver a adaga para que, se quiser, se suicide), descobrimos que Aoshi não é totalmente louco obsessivo. Só uns 96,1%.

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Sério, na boa, ser o melhor em algo é um objetivo válido, sim, mas ter o título de “mais forte” só por ter não cai mais no meu gosto adulto. Ele não tá lutando pelo xogunato que defendia, mas por pura vaidade e validação. Com certeza o sofrimento pelo qual todos da Oniwabanshuu passaram jogou lenha nessa fogueira, mas, em essência, é isso e nada mais. Reitero: funciona. Em uma história sobre máfia, certamente vai ter alguém querendo ser o maior mafioso; em uma história sobre esporte, vai ter alguém querendo ser o número 1.

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Refletindo melhor, talvez seja a forma como Aoshi alardeie seu objetivo que me desagrade. Se ele defendesse com mais frequência que esse título era pelos sacrifícios sobre-humanos dos membros da Oniwabanshuu, creio que eu seria mais simpático. Na maior parte do tempo, me soa como vaidade de um moleque (na época do Bakumatsu) contrariado por um golpe do destino e que não superou nem seguiu em frente com a vida. Talvez o autor devesse ter salientado mais esse aspecto – ou talvez fosse mesmo vaidade. Ou, ainda, eu esteja sendo chato pra caramba com um personagem que sempre gostei. É bem possível.

Quando Kenshin afinal o encontra, manda a real na cara dele (sempre afastando qualquer maniqueísmo em relação aos monarquistas e defensores do xogunato):

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Segue um duelo incrível, cheio de técnicas impressionantes e aulas de artes marciais. Nisso, Watsuki não deixa a peteca cair. A técnica mais forte de Aoshi é o Kaiten Kenbu, na qual ele combina o movimento fluido do Kenbu (dança com espada e leque) com uma sequência devastadora de três golpes com sua kodachi.

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Kenshin não consegue acertar Aoshi e só apanha – até decidir sacrificar o uso da sua sakabatou para desferir golpes contra o pescoço do okashira com a empunhadura. No segundo ataque desse tipo, Kenshin larga a sakabatou e prende a lâmina da kodachi de Aoshi com as mãos, usando a empunhadura da arma do adversário para acertá-lo.

O embate deles termina aí porque Kanryuu invade o salão com sua metralhadora para matar todo mundo e se livrar de todos os problemas de uma vez. Ao ouvir a barulheira dos tiros, os Oniwabanshu convergem para o salão e se sacrificam para proteger seu okashira, que tanto fez por eles. Os quatro (Hannya, Shikijou, Beshimi e Hyottoko) são impiedosamente metralhados diante de Aoshi (como se ele já não tivesse traumas o suficiente) e suas vidas têm um fim trágico – mas foram capazes de poupar a do okashira. Nas palavras de Kenshin, as quatro vidas da Oniwabanshuu derrotaram a metralhadora de Kanryuu.

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E agora, o que Aoshi faria sem seus leais companheiros e sua organização pelos quais dedicou sua vida? Kenshin percebeu o impacto da tragédia no okashira e, por isso, ofereceu uma futura luta pelo título de “o mais forte”, unicamente para dá-lo um propósito para viver. No fim das contas, Aoshi vai embora com o mesmo objetivo de antes. Suponho que seja melhor do que nenhum e ele terminar se suicidando…

Ele voltará a aparecer na história na saga de Shishio, agora a 5 volumes (BR) de distância. O volume 8 (ou o 4, na edição original japonesa) conclui esse arco de Kanryuu com um final agridoce pelas mortes dos Oniwabanshuu, com os quais o leitor simpatiza, mas Megumi inicia uma nova fase de sua vida como parte do grupo de Kenshin, uma etapa menos sofrida e mais saudável, diria até feliz mesmo.

* * *

O que acham de Megumi? E Aoshi? Concordam ou discordam do que falei sobre ele? Espero ter feito jus aos coadjuvantes nessa parte da história, mas fiquem à vontade para comentar mais!

Até o próximo post! (que acredito que não demorará tanto quanto esse)

Van

P.S.: Continuo achando Aoshi o cara mais bem vestido do mangá.

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Releitura Rurouni Kenshin: Vols. 3 e 4 (Jin-E Udou)

Nesse post da releitura de Rurouni Kenshin (Samurai X), encontramos o único vilão que derrotou Kenshin Himura e descobrimos a origem do nome “Battousai“. O arco de Jin-E começa no volume 3 (BR) e termina no 4. Vamos ao resumo e aos comentários. Spoilers.

O que acontece

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A polícia pede ajuda a Kenshin para deter um assassino conhecido como Chapéu Negro, que manda ameaças de morte para monarquistas importantes do governo e sempre as cumpre. Não só isso, o Chapéu Negro, além de ser forte, paralisa todos os adversários e os mata com prazer. Kenshin identifica a técnica de paralisação e decide ajudar a polícia. Ele e Sano são destacados para a proteção de um monarquista que foi ameaçado pelo Chapéu Negro e na fatídica noite o enfrentam. Kenshin confirme que o criminoso é Jin-E Udou, ex-retalhador do Bakumatsu, e ele o reconhece como Battousai, declarando que será sua próxima vítima.

Com a ameaça sobre suas costas, Kenshin decide não retornar ao dojo, mas, quando Sano fala isso para Kaoru, ela vai até Kenshin e o faz prometer voltar depois de combater Jin-E. Nesse momento, à beira do rio, Kaoru é raptada pelo assassino. Quando Kenshin, enfurecido, os encontra, ele e Jin-E duelam e Kenshin se rende ao Battousai para matá-lo e libertar Kaoru da técnica paralisante. Antes de ele desferir o golpe final, porém, Kaoru se liberta sozinha e impede que Kenshin mate novamente. Jin-E, com o braço destruído, comete suicídio e diz, antes de morrer, que Kenshin está se enganando ao fugir do Battousai que há nele.

Comentários

Esse arco de Jin-E me fez lembrar por que Rurouni Kenshin me arrebatou tão completamente. Pegue personagens cativantes, um cenário fascinante, guerras, dramas e some a tudo isso uma verdadeira mitologia em torno da espada japonesa e suas técnicas. A katana é mais do que uma arma, é um símbolo através do qual se manifestam poder e espiritualidade, tal qual o sabre de luz no universo de Star Wars (talvez até mais).

Dito isso, antes de chegar à parte da nerdagem de espada japonesa, quero falar de outras coisas.

A trama dessa história de Jin-E é bem simples e direta, assim como foi a de Sanosuke. Como falei no post anterior, no começo, alguém chega ao dojo e a trama se desenvolve. Kenshin toma ciência da ameaça de Jin-E, vai defender a próxima vítima, torna-se a próxima vítima, vai encontrá-lo no rio, Jin-E aparece e rapta Kaoru, Kenshin vai até o local para lutar e pronto. Mas o foco do mangá não é na complexidade das tramas, mas dos personagens; e agora aparece um dos melhores vilões (meu segundo favorito, depois de Shishio), Jin-E Udou, conhecido como Chapéu Negro.

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Jin-E Udou é um psicopata. Vive em busca de prazer e seu maior prazer é matar. É um espadachim muito forte e, como se não bastasse, faz uso de uma técnica assustadora chamada “Shin No Ippou”, que paralisa seu(s) alvo(s) com o olhar. Na sua primeira aparição para os protagonistas, só Kenshin e Sano conseguem vencer a paralisia. É também nesse embate que vemos que Jin-E está à altura de Kenshin, e o herói confirma sua identidade como um ex-retalhador cuja única ideologia era matar.

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Pode não ser um personagem tão profundo quanto os demais, mas é eficaz, pois amedrontador pra caramba. O cara matava geral no Bakumatsu, tá aí vivão causando estrago e ninguém o derrota, nem mesmo Kenshin em um primeiro momento. É um risco de morte para quem se puser no seu caminho. Sano se machuca seriamente no braço, por exemplo; somente Kenshin poderia lhe fazer frente e é por isso que ele se afasta de todos. Jin-E não se importa de causar mortes colaterais.

Entretanto, uma crítica válida feita ao personagem está no seu desenho, descaradamente baseado em Gambit, dos X-Men. O próprio autor admite isso. Além da grande similaridade com outro personagem famoso dos quadrinhos, há a questão da roupa colada – onde diabos ele arranjou uma dessas no Japão do século XIX? Devo dizer, no entanto, que isso nunca me incomodou. Talvez estivesse acostumado às bizarrices dos mangás e animes, talvez tenha até achado legal a semelhança, não sei. Porém, é o tipo de incongruência que pode afetar a suspensão da descrença do leitor e desconectá-lo da história.

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Parece demais com Gambit, minha gente.

A trama é simples, mas funcional, bem amarrada às motivações das personagens. O maior exemplo disso é quando Kaoru vai até Kenshin, que espera Jin-E na beira do rio, para ter certeza de que ele não vai embora de vez. Ela o faz prometer voltar ao dojo e até deixa um lenço para que ele necessariamente tenha que voltar para devolvê-lo.

Isso tudo casou bemIMG_20160510_134551206 com a motivação de Jin-E de despertar o Battousai em Kenshin, porque ele perderia as estribeiras com ela ameaçada. Ele surge de repente e a sequestra e, agora, o drama intensifica; acontece justamente o que Kenshin queria evitar – querendo ou não, suas pessoas queridas são vulnerabilidades. Tudo converge para o embate definitivo entre os dois ex-retalhadores.

É provável que vossos sentidos aranha para clichês tenham disparado: outra história onde a moça é raptada e o herói vai salvá-la? Assim parece, mas não, como mostrarei no fim desse post. Na verdade, a expectativa do clichê só potencializa o efeito do que acontece quando ele é subvertido.

Um ponto que só imaginei que viria lá na luta contra Saitou e já aparece agora é uso da 1ª pessoa do singular por Kenshin ao se render ao Battousai e dizer “Eu vou te matar”. Essa mudança na estrutura da fala do personagem é um fator importante na transição para o retalhador (falei sobre isso no post do início do volume 1).

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Kaoru reparando no uso do pronome.

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De certa forma, como o próprio autor afirma, Jin-E foi o único a derrotar Kenshin Himura. Como andarilho, ele não consegue sobrepujar o Chapéu Negro. Watsuki faz Kenshin usar suas técnicas mais poderosas, mas é incapaz de acertá-lo. O herói também é incapaz de ler os movimentos de Jin-E com perfeição e é seriamente ferido. Isso tudo só reforça a força e a habilidade do vilão.

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Kenshin usa até o Ryuu-Sou-Sen, a sequência poderosa do estilo Hiten Mitsurugi, mas Jin-E se defende com tranquilidade.

Somente ao se render à fúria de Battousai é que Kenshin passa a acertar Jin-E. Quando decide matá-lo, ele assume a postura da técnica de battoujutsu (ataque com o saque da espada) e teremos a explicação do nome “Battousai”, que até então não fora explicado no mangá. Antes disso, a explicação do battoujutsu e uma aprofundada deliciosa nas técnicas de luta e nas peculiaridades da espada japonesa:

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Acompanhamos os pensamentos de Jin-E, porque é interessante deixar Kenshin como mistério por ora, e é com eles que o autor nos encaminha para a surpresa porvir. Jin-E sabe que o battoujutsu depende do primeiro golpe, mas reflete se há uma maneira de conseguir esquivar e chega à sua conclusão:

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Claro que lendo isso e vendo Jin-E de fato se esquivando do golpe da espada de Kenshin eu acreditei que o vilão ia fazer estrago. Porém, Kenshin é o lendário Battousai, então:

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SOU-RYUU-SEN! (O Fulgor dos Dragões Gêmeos)

Claro que Kenshin sabia que o battoujutsu depende do primeiro golpe e que uma sakabatou é ruim para essa técnica, mas “Battousai” é “Mestre no Saque da Espada“, o homem que dominou tudo sobre o battoujutsu. Apenas. Ele faz questão de explicar isso.

Jin-E não só derrotou Kenshin por ele ser incapaz de acertá-lo sem se deixar dominar pelo espírito retalhador, mas, principalmente, porque o herói decide abandonar o voto de não matar para salvar Kaoru, que àquela altura havia sido paralisada por Jin-E com um Shin No Ippou fortíssimo, que só desapareceria se ela o suplantasse ou se o espadachim morresse.

E essa decisão também simboliza outra coisa importante: Kenshin está disposto a violar seus mais estimados princípios por Kaoru – é das maiores demonstrações do seu afeto por ela. Como diriam Zezé di Camargo e Luciano, é o amor.

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Então, para a surpresa de Kenshin e Jin-E e possivelmente do leitor, Kaoru mostra que pode se salvar sozinha e se liberta do Shin No Ippou para, na verdade, salvar Kenshin e impedi-lo de matar de novo. Temos o clichê da donzela em perigo subvertido no fim e a história funcionando muito bem (ponto pro Watsuki):

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A história conclui com Jin-E se matando, pois, como é assassino contratado, sabe demais, e seria morto mais cedo ou mais tarde. Antes do último suspiro, porém, ele fala algo que é um dos maiores temores de Kenshin, algo que ressoará nele por um bom tempo: “Um retalhador vai ser um retalhador até morrer. Nunca vai conseguir ser outra coisa. Vou ficar assistindo do inferno até quando você vai ficar fingindo que é um andarilho.”

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Jin-E é um ótimo vilão porque ele não somente é forte, ele é assustador. Seu olhar, sua técnica paralisante praticamente sobrenatural, seu sadismo, sua capacidade de afetar Kenshin em termos físicos e psicológicos – todos esses fatores são bem manipulados pelo autor, que, além disso, o faz aparecer na maioria das vezes à noite, enfatizando sua aura sombria.

E esse, na verdade, foi um dos motivos de o filme live-action de poucos anos atrás ter me agradado pouco, apesar de possuir vários méritos: Jin-E não foi retratado nessa perspectiva assustadora que o torna tão distinto, mas apenas como um espadachim forte. “Então você não gostou porque fizeram diferente do mangá,” alguém pode dizer. Errado. Tenho nada contra mudança em adaptação, contanto que seja bem feita. Por exemplo, no filme, Jin-E é um dos capangas de Kanryuu, o que é absurdo na ótica do mangá, mas achei uma manobra esperta e funcionou. O problema foi a falta de exploração do Shin No Ippou, da aura sombria. Não senti o aspecto aterrorizante de Jin-E, por isso, pra mim, o filme não fez jus ao personagem.

Rurouni Kenshin, Samurai X, é muito mais do que cenas de ação incríveis, lutas espetaculosas (no que o filme é excelente). Aproveitem a essência dos personagens, o grande trunfo da obra original, e adaptações são bem viáveis, mesmo que se afastem da trama do mangá. Talvez depois eu faça um post tratando dos filmes, mas, por ora, evitarei maiores comentários para não fugir demais do objetivo desse.

O que não impede que vocês falem mais sobre o filme nos comentários. O que acham de Jin-E? A semelhança com Gambit estragou o personagem? O arco dele agradou? Gostaram do final?

Próxima semana postarei sobre o arco de Kanryuu Takeda (um dos principais antes da saga de Shishio), onde são introduzidos personagens importantes como Megumi e Aoshi. Até lá!

Van

Releitura Rurouni Kenshin: Vols. 2 e 3 (Yahiko e Sanosuke)

Agora começamos a lidar com as partes mais suculentas da história quando Yahiko e, principalmente, Sanosuke entram no elenco. Na verdade, Yahiko aparece no último ato do volume 1. Sanosuke chega no vol. 2 e sua luta com Kenshin vai até o meio do vol. 3. Mas vamos lá para o resumo e os comentários cheios de óbvios spoilers.

O que acontece

Kenshin leva uma trombada de um menino que tenta surrupiar seu dinheiro, mas é pego no ato por Kaoru. O menino é Yahiko, que se mostra muito orgulhoso e arremessa o dinheiro de volta. Kenshin vê nele muito potencial e, depois, vai atrás de Yahiko e o salva dos criminosos para os quais trabalha, que o espancavam por querer deixar a vida de delitos para trás. Frustrado e humilhado, Yahiko resmunga que quer ser forte e Kenshin o leva para o dojo Kamiya para que aprenda o estilo Kamiya Kasshin e, assim, Kaoru volta a ter um discípulo e Yahiko, uma oportunidade para ser forte.

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Em um dia em que Yahiko e Kaoru estão brigados e o menino falta aula, ex-alunos do dojo pedem ajuda por estarem sendo perseguidos por um grupo de criminosos. Yahiko descobre que eles, os 2 ex-alunos, foram os que compraram briga. O grupo aparece no dojo Kamiya e revela que os 2 usaram espada contra eles. Kaoru se sente responsável, mas Kenshin, que espanta os criminosos ao partir uma bala de canhão de argila ao meio, explica que nem todos os alunos correspondem às expectativas, mas por outro lado… Yahiko assegura que nunca será como aqueles dois e volta a estudar com Kaoru.

Os irmãos Kihee e Gohee Hiruma (vide Ato 1) contratam Zanza, o lutador de aluguel, para lutar contra Kenshin, por vingança e por ainda quererem o terreno do dojo Kamiya. Zanza é Sanosuke Sagara, um dos mais fortes lutadores do submundo, tanto desarmado quanto com a zanbatou, a maior e mais pesada espada já feita. Ele descobre que Kenshin era Battousai, um dos grandes monarquistas do Bakumatsu, e agora tem um motivo pessoal para derrotá-lo na briga que comprou dos irmãos Hiruma, pois o governo Meiji dizimou o Sekihoutai, a tropa da qual Sanosuke fazia parte quando criança e que apoiava a nova era ao lado dos próprios monarquistas, que os traíram e os executaram.

IMG_20160428_163518874Durante a luta, Sanosuke resiste incrivelmente aos golpes do estilo Hiten Mitsurugi, dizendo que, numa briga, ganha quem fica de pé por último. Os irmãos Hiruma, desmascarados ainda antes do início do combate, ainda tentam ameaçar todos, agora com armas de fogo, mas são impedidos por Sanosuke e Kenshin (que defende uma bala com a guarda da espada). Kenshin não deseja continuar a luta inútil, mas Sanosuke insiste, alegando que não vai perder para os monarquistas mentirosos e traidores que mataram seus companheiros e mentor, Capitão Sagara. Kenshin lhe dá um soco fazendo-o lembrar do verdadeiro propósito do Sekihoutai, trazer uma nova era, não lutar contra os monarquistas. Kaoru e Yahiko explicam que Kenshin não é como os outros monarquistas, agora em cargos importantes e com vidas luxuosas. O próprio Kenshin explica que ainda luta para trazer uma vida melhor para as pessoas, até mesmo como redenção pelas vidas que tirou no passado. Sano vê a semelhança entre Kenshin e Capitão Sagara e admite a derrota.

Sanosuke, agora sem a zanbatou, partida no meio por Kenshin, deixa a vida de lutador de aluguel para trás e diz para Kenshin não vagar por aí sem a permissão dele.

Comentários

Meu resumo foi razoavelmente detalhado no conteúdo e nas motivações de propósito para sustentar alguns apontamentos. Primeiro, sobre Yahiko Myoujin. Os dois atos com ele, Kenshin e Kaoru (antes da chegada de Sanosuke), são dois pequenos arcos, duas pequenas transformações que lhe acometem, uma por causa de Kenshin e a outra por Kaoru. Ele começa trombadinha, termina decidido a sair dessa, a ter uma vida melhor; começa descrente em Kaoru, termina reconhecendo seu valor e decidido a ser forte no estilo Kamiya Kasshin.

Yahiko é o menino comum com o qual a maioria dos leitores pré-adolescentes se identificam e a principal ligação do elenco com o mundano. Ao longo da história, Kenshin e cia. têm que considerar a presença de Yahiko no meio do caos de pessoas poderosas, não só como alguém que deve ser protegido, mas como um ator importante nos eventos. Yahiko vai nos mostrar como se pode fazer a diferença mesmo sem habilidades incríveis com a devida determinação. De certa forma, o aprendizado de Yahiko reflete o nosso ao longo do mangá.

Agora, algo que com certeza Nobuhiro Watsuki teve que considerar ao conceber as histórias de Kenshin: como fazer um personagem pacífico e (no momento) caseiro se meter nas tramas dos vilões? Bem, se Maomé não vai à montanha…

O autor basicamente faz chover gente louca no dojo Kamiya (ou gente importante pra largar abacaxis no colo de Himura). Pelo menos o dojo fica em Tóquio e meio que já estamos acostumados à concentração de eventos improváveis na capital japonesa. Uma visita como essa costuma ser o gatilho para a ação de Kenshin no mangá:

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Um dos maiores trunfos de Rurouni Kenshin é fazer as lutas realmente importarem. Há drama, há carga emocional envolvida; os personagens têm motivações – coerentes, pelo que lembro – para levantar suas armas, os combates não são gratuitos, ação pela ação. Você pode até não concordar com o motivo ou propósito do personagem ao vê-lo lutar, mas há um mínimo de empatia e/ou compreensão. Às vezes só entendemos o personagem do meio pro fim da luta, mas é opção do autor, proposital (quem lembra da luta de Usui e Saitou, quando este destrincha a relação daquele com Shishio? E Kenshin e Soujirou Seta?)

Essa luta de Kenshin e Sanosuke é um momento cheio de significado para ambos. Feelings abundam. É o combate mais tenso e cheio de Hiten Mitsurugi até então no mangá (vou jogar umas imagens dos golpes porque sim). Como se tudo isso não bastasse, o autor traz sua abordagem histórico-política que evita parcialidade e faz o cenário respirar através dos personagens, devidamente enraizados nele, dando consistência e coesão à obra – e um paradigma cheio de tons de cinza sobre a sociedade e a política.

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Nesse combate, Kenshin revela mais de suas convicções, mas a estrela do momento é Sanosuke. E quem é Sanosuke Sagara? Ao contrário de Yahiko, filho de samurais defensores do Xogunato, que decaiu para as margens da sociedade com o desprestígio da família após a Restauração Meiji (ato 3, vol. 1), Sanosuke, filho de lavradores, estava com o lado vencedor, atuando como “escudeiro” do Capitão do Sekihoutai, Souzou Sagara. Mas como Sanosuke caiu no submundo como lutador de aluguel? Bem (ler da direita pra esquerda):

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Bode expiatório, quem nunca?

Sras e srs. SRAS E SRS, chega a ser emocionante ver um autor não passar a mão na cabeça de um dos lados de um conflito político. Em poucos capítulos já vimos as consequências da Restauração na decadência dos samurais, dos que defenderam o Xogum e morreram, perderam família e viraram miseráveis (alô, Yahiko), nos monarquistas (os “vencedores”) que tomaram o poder e na facilidade com que o abusam, se esquecem dos ideais – ou não, vide Kenshin.

Rurouni Kenshin não faz uso de uma tônica maniqueísta ao tratar de um momento histórico e socio-político tão complexo e delicado quanto o da Restauração Meiji. Pelo contrário, mostra casos como o do Sekihoutai e personagens que, nem heróis nem vilões, são apenas humanos. Houve quem – rico ou pobre – se sentisse insatisfeito com o Xogunato e houve quem o defendesse por motivações mil (adiante na história veremos o Shinsengumi, grupo de grandes espadachins que mantinha a paz nas ruas de Kyoto durante o Bakumatsu, maiores inimigos de Kenshin na época).

Sem demonizar ou santificar, Watsuki faz uma abordagem lúcida de um quadro de caos e insanidade – e interesses, como sempre. Quando alguém tenta fazer algo similar em relação ao momento atual brasileiro, não demora a receber o rótulo de “isentão” – há que se conformar ao pensamento binário. O maniqueísmo político, sras e srs, ele anda onipresente. Numa guerra, é mais fácil (ou menos difícil) agir (ofender, agredir, matar, destruir) ao demonizar o inimigo, até como defesa para a sanidade de quem entende que tem que fazer isso (militares etc.). É muito mais complicado e incômodo reconhecer a pluralidade de motivações e de poréns dentro dos posicionamentos; há uma facilidade sedutora na visão das coisas em preto e branco – e ela é rechaçada em Rurouni Kenshin: você vê os personagens tomarem posições e também os tons de cinza envolvidos, em maior ou menor grau.

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RYUU-SOU-SEN!

Maniqueísmo não é algo necessariamente ruim na ficção. O embate entre o Bem e o Mal está presente desde os primórdios da humanidade e suas histórias mitológicas. Em O Senhor dos Anéis, Sauron e os orcs são a encarnação da maldade e agem como tal, de modo que faz sentido demonizá-los. A história funciona. Um trato maniqueísta de eventos históricos do mundo real, porém, tende a ser extremamente problemático (e não só porque o leitor, vivendo nesse mesmo mundo, tem sua suspensão de descrença afetada). Que bom que esse mangá evitou essa abordagem – e, claro, recebeu crítica por isso (afinal, tem sempre alguém pra reclamar/falar mal de tudo). Lembrem-se de que a maior parte do público era/é adolescente, o impacto de uma obra assim é incomensurável.

Fim do comentário histórico-sócio-político-narrativo. Vão haver outros em posts futuros. E quem achar ruim, ó:

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RYUU-TSUI-SEN! (mesmo depois dessa LAPADA, Sano continua de pé; morrendo, mas de pé)

Os sentimentos nessa luta são fortes porque entendemos o sofrimento de Sano, que teve seus heróis traídos e mortos injustamente, e sua vontade de se vingar e de se provar diante de um homem que era um verdadeiro símbolo para os monarquistas. A resistência de Sanosuke impressiona não só por ser absurda, mas por ser alimentada pela recusa em perder para aquele que considera inimigo. É admirável.

Pelo menos até Kenshin jogar a real na cara dele:

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Kenshin aceitou lutar com Sanosuke em parte para entendê-lo melhor. As lutas no mangá costumam ser reveladoras, são momentos bem explorados, o que confere novos sabores a cenas e movimentos que poderiam ser vistos como repetitivos. Ao fim da luta, compreendemos Sano e nutrimos alguma simpatia por ele. O cara é gente fina, só andava perdido. Ao reconhecer a verdade nas palavras de Kenshin (e a similaridade com Capitão Sagara), Sano admite a derrota e resolve ficar por perto pra ver se o lendário Battousai é mesmo quem ele diz ser agora, alguém que ainda luta pela nova era.

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Sano e Kenshin se entendem, se admiram e se respeitam. É o início de uma amizade pra vida inteira. Kenshin consegue mudar para melhor a vida de mais uma pessoa: Sano encontra certa paz consigo mesmo e larga o trabalho de lutador de aluguel.

O que não quer dizer que foi uma decisão financeiramente sábia:

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Não que ele pagasse a conta antes, né…

E, assim, o grupo, a família que intencionalmente ou não Kenshin forma ao seu redor vai crescendo…

No próximo post, o arco de Jin-E Udou (um dos meus vilões favoritos), subversão de clichês e, talvez, até algum comentário sobre o primeiro filme live-action… Até lá!

Van

Releitura de Rurouni Kenshin: Vol. 1 Ato 2

A releitura continua com o Ato 2 do volume 1, “Andarilho – Ida à cidade”. Gostaria de poder comentar e explicar mil coisas, mas tenho que ser conciso e definir focos, senão me perco. Estou preparando um post com um glossário de termos japoneses frequentes, daqui a pouco ele aparece por aqui. Vamos nessa. Spoilers à vista.

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O que acontece

Kenshin Himura e Kaoru Kamiya vão fazer compras e o andarilho é abordado por policiais por infringir a lei ao portar espada. Logo a confusão aumenta de proporção quando os policiais espadachins (arrogantes e com complexo de grandeza) tomam a frente da situação, desafiando Kenshin e ameaçando Kaoru e o povo curioso ao redor.

Quando a população reclama da postura exagerada dos policiais espadachins, o líder autoriza violência e Kenshin termina sacando a espada derrotando-os com facilidade. É nesse momento que chega ao local o ministro do exército, velho conhecido de Himura, e o oferece o retorno ao círculo do poder dos antigos monarquistas do Bakumatsu, agora no novo governo. Kenshin recusa, alertando-o para não deixar o poder lhe subir à cabeça e acabar por trair os ideais pelas quais lutaram.

Comentários

A princípio esse ato pode parecer meio solto na história, mas é essencial para estabelecer as fundações do protagonista e, nisso, é extremamente bem sucedido. Suspeito que só voltaremos a mergulhar com essa profundidade na mente de Kenshin daqui a alguns volumes.

Na maior parte do tempo, estamos acompanhando Kaoru e seus pensamentos. Ela se pergunta quem realmente é esse andarilho, por que ele virou um em vez de ter uma posição no governo como a maioria dos monarquistas importantes do fim do Xogunato. O autor vai desenvolvendo a dinâmica divertida entre Kenshin e Kaoru com diálogos e assuntos mundanos, dando sabor à relação dos personagens, acrescentando camadas, possibilitando identificação e investimento emocional dos leitores.

Eu disse na maior parte do tempo porque pela primeira vez temos uma mudança do enfoque da narração do eixo Kenshin-Kaoru. Isso acontece de maneira discreta quando Kaoru é abordada na rua por um figurão numa carruagem, pedindo direções; no fim da página, vemos o figurão e o que ele está pensando antes do foco voltar a Kaoru. Pouco depois a cena é com o figurão e o delegado de polícia conversando sobre os rumores da aparição de Battousai (o caso do falso Battousai do Ato 1).

Isso não é por acaso. Se não fosse por essa mudança de ponto de vista no meio, aproveitando a “onisciência” da narração cinemática (como comentei nIMG_20160424_171116859o post passado), quando o figurão aparecesse no fim do ato seria do nada, sem contexto, tão mal executado que a extrema conveniência seria um golpe contra o bom senso do leitor e sua suspensão de descrença, pois a mão do autor ficaria aparente entre os quadros da história, forçando o personagem na trama.

Nesse ato também há um bom exemplo de uso dos costumes da época transparecendo na história e conferindo credibilidade e imersão. Nesse quadrinho:

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O povo chama os policiais de Satsuma de “batatas”, referência ao feudo ser famoso produtor de batata-doce. Além desses detalhes, o autor está sempre explorando o contexto histórico, trazendo informações sobre a hierarquia dos monarquistas e pintando com mais cores o cenário para os leitores. Lendo essas coisas, me sinto transportado para a Era Meiji. É o poder da História e da Geografia, sras e srs.

Página a página, chegamos aos pontos-chave do ato. Kenshin demonstra sua natureza altruísta ao oferecer ser preso contanto que o policial não cometa mais abusos contra o povo. Ele valoriza a integridade das pessoas inocentes acima de si próprio, da sua liberdade.

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Que pose, sras e srs.

Através dos policiais espadachins, é introduzido o tema de abuso de poder de autoridade pública. Watsuki explora isso bem, especialmente nesse ato, de forma escancarada – adiante na história há os abusos discretos, na surdina, somados a corrupção e outras safadezas ocultas. Mostrando os abusos de diversos pontos de partida, o autor abre nossos olhos: não podemos confiar cegamente nas autoridades, há os ruins e os bons (como o policial razoável que estava fazendo seu trabalho cercando Kenshin e que foi agredido pelo policial espadachim violento). Esse tipo de abordagem propicia no leitor a construção de um paradigma realista, crítico e positivo, principalmente para os jovens, adolescentes (meu caso na época).

Ficção vai além do escapismo, é uma arte que nos permite encarar a realidade de novas maneiras, com novas ferramentas, valores e experiências para, quem sabe?, fazermos do mundo um lugar melhor. (Sim, ficção pode melhorar a qualidade de vida.)

Ao fim do confronto com os policiais espadachins, o figurão aparece e descobrimos ser Aritomo Yamagata, ministro do exército, que oferece a Kenshin o retorno ao meio dos monarquistas poderosos.

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Diante da oferta de status, prestígio e poder público, Kenshin recusa, alfinetando o ministro ao dizer que os monarquistas o poder que agora possuem contra os que os desagradam, como os policiais espadachins inescrupulosos que acabou de derrotar. “Visando não o poder político nem cargos importantes, mas sim um mundo melhor para as pessoas viverem. Este foi o nosso ideal. Se esquecermos disso, senhor Yamagata, não passaremos de meros usurpadores.”

O ministro rebate, dizendo que é assim que se faz algo hoje em dia na Era Meiji, não com uma espada, mas com poder político. Então Kenshin proclama aquilo que é o seu lema, algo de extrema importância para o personagem e que terá futuras implicações (vide encontro com Seijurou Hiko, seu mestre, vários volumes adiante):

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O ato 2 termina com Kaoru e seus pensamentos; ela agora entende um pouco melhor Kenshin, assim como nós. O “Making Of” desse ato é sobre ela e o mais interessante que o autor aponta nos breves comentários é que o público feminino gosta da personagem e que muitos não sabem se ela é forte ou fraca. Relembrando suas motivações e que Kaoru é a primeira a mostrar serviço com uma espada no mangá, não é surpresa que tenha cativado os/as leitores/as. Ainda, considerando que ela é mestre no próprio estilo, questionar se ela é forte parece ilógico, mas essa dúvida surge, como bem explica o próprio Nobuhiro, porque ela termina cercada de personagens poderosos demais, como Kenshin e, logo adiante, Sanosuke.

O autor acrescenta que ela já comanda um estilo mesmo sendo jovem e que está no nível dos mestres da região – e, na verdade, em termos de estilo de espada de bambu, é das melhores do país. Outro comentário digno de nota, sintomático e inevitável: “Eu ainda não decidi se ela vai ser a namorada do Kenshin ou não.”

Para finalizar, além da liberdade e da incolumidade de Kaoru e do povo no local do furdunço, o que Kenshin ganhou ao derrotar os policiais? Qual a recompensa? Porque, afinal de contas, o grande prêmio teria sido a oferta de cargo importante pelo ministro que ele recusou, certo? Claro que não. Eis a recompensa de Kenshin (ou “payoff” de suas ações):

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Atenção para o figurante no canto superior direito. (SIM!)

No próximo post finalizo o volume 1 com o Ato 3 e a aparição de Yahiko. Até logo!

Van

Releitura de Rurouni Kenshin: Vol. 1 Ato 1

E lá vamos nós para a releitura propriamente dita do 1º volume de Rurouni Kenshin. Essa 1ª edição brasileira dividiu os volumes japoneses em 2, no original foram 28 números enquanto no Brasil tivemos 56.

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Capa da edição brasileira lançada em 2001 pela Editora JBC. Saudade de mangá a R$2,90.

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Uma curiosidade dos primeiros mangás lançados no Brasil era a explicação do lado e sentido certo de se ler. Faz tempo que não acompanho as bancas, então não sei se essa prática ainda persiste.

O volume 1 possui 3 atos, sendo o Ato 1 chamado de “Kenshin – Himura Battousai.” Vou começar sempre com um resumo do que acontece para nos situarmos e depois passo aos comentários. Spoilers à vista.

O Que Acontece

Dez anos depois da Restauração Meiji, Kenshin é abordado em uma rua de Tóquio por Kaoru, que o acusa de ser Battousai, o assassino que está manchando o nome do estilo Kamiya Kasshin. Kenshin a convence de que é apenas um andarilho com uma espada de lâmina invertida, incapaz de matar alguém. Em seguida, o suposto Battousai ataca novamente e Kaoru o enfrenta. Antes que o homem gigantesco, visivelmente mais forte do que ela, a trucide, Kenshin afasta Kaoru, desviando do golpe, e o atacante vai embora. Ciente do que está se passando, Kenshin decide investigar o Battousai.

Kihee Hiruma, um senhor serviçal de Kaoru, afinal se revela parte da conspiração para tomar posse do terreno do seu dojo; a outra parte sendo perpetrada por seu irmão Gohee, que assumiu o nome Battousai e tem matado em nome do estilo Kamiya Kasshin com o intuito de manchar a reputação do dojo – o que funciona, pois Kaoru perde todos os alunos. Kihee pressiona Kaoru para que venda o terreno, mas ela se recusa. Gohee surge no dojo Kamiya, acompanhado de diversos comparsas criminosos. Gohee subjuga Kaoru e Kihee lhe arranca um selo de sangue para o papel da venda do terreno para os irmãos Hiruma.

Quando Kaoru se vê sem esperança, traída pela única pessoa que ainda confiava após a morte de seu pai, seu último parente vivo, Kenshin aparece no dojo e é atacado pelos criminosos. Após derrotá-los, ele revela sua identidade como o verdadeiro Battousai e com um golpe vence Gohee; Kihee se rende e Kenshin rasga o papel da venda. Antes que Kenshin vá embora, Kaoru diz que quer que ele fique, mesmo sabendo quem ele é/foi. O ato termina com Kenshin decidindo ficar um tempo no dojo Kamiya.

Comentários

Confesso que fiquei impressionado com o quão eficiente e bem feito esse primeiro ato da história é. O autor, Nobuhiro Watsuki, orquestra com maestria a tônica da narrativa, transitando entre o humor, o drama e a ação com precisão e naturalidade em um espaço de 50 páginas. (Reparei que o humor às vezes se limita a quadros menores, para não tomar conta da história indevidamente.)

Mas comecemos pelo começo: a primeira página. Importantíssima – contém as primeiras imagens e palavras que devem conquistar a atenção do leitor e dar o ponta-pé inicial satisfatório na história. É um prólogo. Vejamos:

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O primeiro quadrinho é literalmente sangue voando. Na edição original japonesa, as primeiras páginas eram coloridas, daí esses tons de cinza.

O prólogo é conciso e eficiente. Estabelece o cenário, fornece o contexto histórico e um personagem lendário. Além de dizer que ele é poderoso, o autor mostra. É ele – Battousai – quem está fazendo o sangue voar e matando todos ao redor. O próprio título do personagem é forte, “Battousai, o Retalhador” (Hitokiri Battousai, no original).

Temos um ponto de vista em 3ª pessoa cinemática (como diria Orson Scott Card), comum em quadrinhos e cinema, e uma narração típica que costuma nos dizer local e data. É exatamente isso que acontece no último quadrinho.

Por falar nesse último quadrinho, ele traz mais informações e características dignas de nota. Reparem no close no rosto de Battousai. Além da icônica e curiosa cicatriz em “X”, o desenho traz os olhos estreitos e angulosos característicos do Retalhador. Mais sobre isso depois. Um último detalhe sobre os olhos é que estão direcionados para a esquerda, o sentido para onde a narrativa japonesa avança. Mangá é lido da direita para a esquerda e é para a esquerda que a história e os personagens costumam se movimentar. Ao contrário, na cultura ocidental lemos da esquerda para a direita, então os quadrinhos (e o cinema) seguem esse outro sentido.

Vou emendar com a página seguinte para mostrar claramente um contraste.

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Reparem na cabeleira de Kenshin, na profusão de linhas. O traço de Watsuki vai mudando ao longo do mangá, tornando-se mais enxuto, mais limpo.

O contraste dos olhos. Estes são maiores, arredondados, inofensivos. São os olhos de Kenshin – o elemento visual que o identifica em contraposição ao “estado Battousai”, quando ele se rende ao espírito do Retalhador (há o elemento textual também, falo dele mais adiante). Essa simbologia do olhar é usada durante todo o mangá.

Nesse primeiro encontro com Kaoru, Kenshin se justifica se dizendo ser apenas um andarilho. Ele se mostra, no entanto, cheio de contradições: carrega uma espada quando o porte fora proibido 2 anos antes; a espada, por sua vez, como Kaoru constata, não tem marcas de uso, parece nova. Por que alguém que faz tanta questão de portar espada (contra a lei) não a usa? Por que ele é tão desajeitado quando na primeira página é habilidosíssimo? Convenhamos, é difícil não identificar o mesmo personagem; por que os olhos são tão diferentes e por que ele não assume ser Battousai? Muitas dessas respostas aparecem logo, mas essas noções e características conflitantes tornam o personagem interessante, misterioso, e atraem o leitor.

* * *

Curiosidade: das personagens principais, Kaoru é a primeira na história a levantar a espada e enfrentar uma ameaça, demonstrando imensa coragem. E muito estilo (trocadilho não intencional):

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* * *

Certo, mas como a história realmente começa?

Robert McKee chama de “Incidente Incitante” o grande evento inicial que faz uma história engrenar. É algo que perturba drasticamente o equilíbrio da vida do protagonista e, não somente isso, o faz reagir. Aqui, começa no encontro de Kaoru com Kenshin e conclui no ataque do falso Battousai (o Incidente Incitante não está limitado em duração ou número de ações que o compõem; no caso, é um grande evento formado por um punhado de ações que duram algumas páginas (ou poucos minutos, no parâmetro temporal do animê)).

Eis a conclusão desse momento crucial para o início da saga de Kenshin:

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O falso Battousai encurrala Kaoru e Kenshin aparece para salvá-la. O assassino se declara do estilo Kamiya Kasshin e vai embora.
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Depois da “perturbação”, o momento em que Kenshin começa a reagir e a se envolver no problema da história.

* * *

Passado o Incidente Incitante, a história vai avançando. Vamos conhecendo melhor as personagens, afinal temos que nos importar com elas ao caminhar da trama. Na conversa entre Kenshin e Kaoru no dojo Kamiya, eles são aprofundados em valores e motivações.

Um quadro que me chamou a atenção nesse momento foi o de Kenshin olhando as tabuletas exibidas no alto da parede do dojo enquanto eles falavam sobre o Battousai. No quadro, as tabuletas não aparecem, só Kenshin de perfil, olhando para cima e comentando o medo que o povo ainda tem da lenda de Battousai, sentindo o peso do passado e encarando algo maior do que si mesmo. Ei-lo:

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Em seguida, Kenshin tenta dissuadir Kaoru de enfrentar o suposto Battousai por ele ser forte demais para ela. Uma frase que revela bem os valores do protagonista é “A reputação de um estilo não vale o desperdício de uma vida”.

É nesse momento que vamos além de convicções e valores com Kaoru, entendemos suas motivações, passado e presente. De início, a cena se passa no dojo Kamiya, vazio (só ela, Kihee e Kenshin), apenas a tabuleta do nome da professora na parede, pois todos os alunos a abandonaram. Kaoru fala sobre seu pai (única família que menciona ou aparece na história inteira), o criador do estilo Kamiya Kasshin (“A Espada da Vida”), que morreu 6 meses antes numa guerra para a qual foi convocado. Sozinha, aos cuidados de um “estranho”, ela se agarra ao legado do pai, o estilo que tenta defender desesperadamente, como se fosse a honra do pai, da família, a sua própria. É aqui que fica claro que Kaoru é uma personagem com personalidade e motivações, não um instrumento da trama ou simples “interesse romântico” do protagonista.

Então Kenshin diz a Kaoru que o pai dela priorizaria sua vida, não o estilo Kamiya Kasshin. E isso não é pouco: Kenshin é a única pessoa nesse período terrível da vida dela a de fato reconhecer algum valor nela e em sua vida, apesar de mal conhecê-la – um eco dos valores do pai e do próprio estilo. Kaoru fica espantadíssima, talvez só agora considerando a perspectiva de ser o maior legado do pai. Aqui, os dois personagens começam a se conectar de forma mais íntima. Esse momento merece a página também:

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Com licença.

* * *

Saber usar o ponto de vista através do qual se conta uma história é essencial. O autor deve identificar aquele que mais se ajusta às necessidades da narrativa. O ponto de vista padrão de HQs e do cinema é 3ª pessoa cinemática, mas diretores, roteiristas e quadrinistas costumam explorá-lo de maneiras diversas – por exemplo, incorporando elementos de outros pontos de vista, como pensamentos dos personagens, já corriqueiros nos quadrinhos (mais sobre isso em breve).

Em determinado momento, durante uma conversa entre Kenshin e Kaoru na rua, Watsuki usa o viés “onisciente” do narrador cinemático (nas palavras de Ursula K. Le Guin, “Detached Author“, “Camera Eye“, “Fly on the Wall“) e nos mostra algo que escapa à percepção dos dois personagens: a reação atenta de Kihee ao ouvir Kaoru fazer referência a uma pista quanto ao falso Battousai. Isso cria suspeita, tensão, faz o leitor tomar nota mental. Não é nada sutil, mas não há problema, o mistério perdura pouco. Eis o momento:

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* * *

Nesse trecho final do ato 1, vamos repisar e identificar vários elementos em sequência.

Primeiro, mais revelação de convicções e personalidade de Kenshin em sua fala icônica quanto à verdade sobre a espada: “A espada é uma arma. Técnicas de espada são técnicas de morte. Não importa como disfarcem, essa é a verdade.” Isso nos faz pensar no passado de mortes e na vivência violenta. Então ele complementa: “Mas, mais do que uma verdade amarga como essa, este servo prefere a doce mentira [da espada para a vida] da Srta. Kaoru. ^^” (ele faz esses olhinhos mesmo) Mesmo diante de uma realidade de horrores e crueldade, vemos que Kenshin é idealista e esperançoso – sempre foi, e por isso também se envolveu ativamente no Bakumatsu, mas isso é assunto para depois.

Agora, observem essa página:

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A chuva de traços retos direcionados é uma ótima forma de transmitir movimento rápido em uma página, um meio estático. O quimono de Kenshin até parece asas. Reparem também os olhos – o verdadeiro Battousai chegou, sras e srs.

Vejamos agora um artifício costumeiramente empregado por artistas de mangá para mostrar pensamentos de maneira mais direta, íntima e sutil ao leitor sem o uso de balões (os quais são polêmicos entre quadrinistas, ao que parece). As palavras ficam soltas ao lado das personagens, em geral próximo à cabeça. Watsuki usa balões, mas são incomuns. Nessa página, apenas alguns dos inúmeros exemplos:

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Ainda aí em cima, é possível perceber o outro recurso para distinguir o lado Battousai de Kenshin, dessa vez de natureza textual: o uso da 1ª pessoa do singular. Kenshin costuma se referir a si mesmo na 3ª pessoa, usando a expressão “este servo”. Além de ser uma peculiaridade interessante para um personagem, há o uso mais significativo dessa característica. Do ponto de vista de construção de personagem, é brilhante. [Spoiler] Na luta entre Saitou e Kenshin, quando ele fala “Eu vou te matar”, a gente sabe que ele se rendeu por completo à fúria do retalhador, tanto pelo verbo quanto pelo pronome.

Na página seguinte, temos os olhos, comentário sobre estilo de espada (algo que enriquece o aspecto da ação na história e que está sempre sendo abordado), os recorrentes comentários históricos (info-dump que funciona bem, curto e pertinente) e finalmente Kenshin admitindo ser Battousai:

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“Estilo Hiten Mitsurugi” ou “Estilo da Sagrada Espada que Voa no Céu”, diz a nota de rodapé. Você duvida que ele voe? Eu não.

Após derrotar Gohee, o falso Battousai, Kenshin diz que não tem apego pela alcunha lendária, mas que não pode repassá-la para alguém como ele, demonstrando uma relação complicada com o passado e com um lado de si mesmo.

Ao voltar “ao normal”, Kenshin comenta que não queria mentir, mas preferia não contar que era Battousai, e pede licença para ir embora. Kaoru, em outra fala memorável, diz que não quer que o retalhador fique, mas sim o andarilho. Esse é outro momento chave da história: Kaoru reconhece as duas facetas de Kenshin e o aceita como ele é no presente, mesmo com a bagagem, o fardo do passado (olha a metáfora nada metafórica pra relacionamentos aí, gente). Diante disso, da aceitação de Kaoru, Kenshin revela seu nome e decide permanecer com ela no dojo Kamiya, ainda que temporariamente sob a condição de poder voltar a vagar a qualquer momento (afinal, um passo de cada vez).

Assim termina o Ato 1 e observamos um claro arco de personagem aqui para Kenshin, que toma uma decisão que parecia improvável até poucos quadrinhos antes do fim e se abre para se envolver mais na vida de outra pessoa, assim como para recebê-la na sua. Ao fim de cada ato, há um “Making Of“, comentários dos autor acerca da concepção de um personagem junto a um rascunho. O primeiro, claro, é sobre Kenshin:

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O autor conta quem foi o personagem histórico no qual se baseou para o protagonista, um retalhador chamado Gensai Kawakami. Algo que parece óbvio mas é facilmente desprezado por parte daqueles que querem escrever ficção histórica é a pesquisa. Ela deve ser profunda e vasta. Um detalhe que me chamou a atenção nos comentários de Watsuki foi que, num primeiro momento, Gensai Kawakami foi dito não ter conseguido abandonar a xenofobia e ter entrado em conflito com o governo, porém: “ao pesquisar mais, eu achei que o que ele não conseguiu abandonar não foi a xenofobia, mas sim a fidelidade que tinha pelos que morreram por ele e pelos que matou. E assim foi surgindo o personagem de Kenshin.” Esse aspecto de fidelidade e respeito pelos que morreram por ele e pelos que matou será trazido à tona mais adiante na história e toca em uma das maiores qualidades da obra… mas isso é assunto para depois.

A análise dos 3 atos do volume 1 está sendo mais minuciosa; esse teve atenção especial por trazer diversos fundamentos da história e por ser bem redondo. A partir do volume 2 pretendo fazer semanalmente um post para cada número, com uma visão menos “micro” e mais “macro”.

Em breve (poucos dias), posto sobre o Ato 2. Até lá!

Van

P.S.:

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